O Charuto de Churchill

A Europa sempre foi para a Grã-Bretanha uma fonte de angústia, um acto político puramente físico e marginalmente intelectual.

A Grã-Bretanha está fora da União. Lágrimas e festejos, mímicas e música, cânticos e bandeiras, é como um enorme festival em que simultaneamente se celebra e se lamenta. Os que celebram olham para o Mundo global; os que lamentam olham para a Europa global. Neste jogo político com fronteiras deseja-se que não haja vitória nem derrota, mas é impossível que todas as partes possam ganhar.

Embora a política seja por vezes a arte do impossível, só o tempo resolverá a questão da vitória e da derrota. Desde logo De Gaulle surge como uma luz que ilumina a Europa quando recusou a entrada do Reino Unido na CEE numa barragem de artilharia política que ainda hoje se ouve com o estrondo de um eco: “A natureza, a estrutura e a conjuntura da Inglaterra diferem profundamente da do Continente”. Churchill e De Gaulle de braço dado no labirinto dos corredores de Bruxelas.

Do outro lado do Canal da Mancha sempre existiu a ideia de que as nações não têm aliados eternos, tal como não têm inimigos perpétuos. O que as nações têm de facto são interesses eternos e perpétuos, o que implica que as nações tenham por vezes de mudar o seu posicionamento estratégico e o respectivo alinhamento político.

Passados 47 anos no seio da família da União, o Reino Unido opta por uma perspectiva do Mundo e por uma ambição Global em divergência com o Continente. É como se o desejo de estar de fora, de ser uma entidade política individual e autónoma, ressurgisse do alto dos centenários carvalhos britânicos, se reunisse para uma nova versão do grande jogo político e em formação cerrada marchasse sobre o Mundo na emergência de um nevoeiro. A sobriedade inglesa tem a forma de uma lâmina de metal que corta as frases e as ideias políticas em todas as direcções.

A Europa sempre foi para a Grã-Bretanha uma fonte de angústia, um acto político puramente físico e marginalmente intelectual. O Reino Unido sempre virou do avesso todas as regras de Bruxelas, dobrava cada página dos Tratados como uma folha de um jornal, sublinhava, riscava, escrevia por cima com cláusulas de salvaguarda, “rebates” e “opting outs”, sentava-se nas interpretações literais; levava os mesmos Tratados para a cama e deitava-se sobre eles, discutia com o gato doméstico o futuro da política agrícola, levantava-se de novo e encharcava os papéis com a crónica diplomacia do chá das cinco.

Com o mesmo orgulho britânico os Tratados eram pousados numa mesa manchada de cerveja num pub cheio de fumo em plena Fleet Street, eram objecto de riso e de meditação que haveriam de alimentar uma ideia política complexamente descrita ao longo de muitas páginas repletas de notas de rodapé e aditamentos que deslumbravam e aterrorizavam as reuniões do Conselho em Bruxelas. Quando a Europa emocionada se despede dos deputados britânicos com canções e abraços para a eternidade, mais parece a situação de uma família que durante anos alojou o ramo delirante e louco do seu sangue e que vacila sentimentalmente perante a perspectiva de algum sossego no seio da mais tranquila paz. Pérfida é a ilusão da paz e da concórdia política na Europa.

Depois das bandeiras azuis com as estrelas amarelas desaparecerem dos edifícios oficiais britânicos, depois da bandeira britânica desaparecer dos edifícios oficiais da União, não se alcançou rigorosamente nada, salvaguardando apenas um vazio na fábrica política da Europa, situação que convida à reflexão, à prudência e a um incontornável sentimento de perda.

Não é dia para discutir política quando os hinos tocam pela última vez, quando os amigos de hoje podem vir a ser os aliados, os concorrentes, os inimigos, num futuro que virá certamente, tarde ou cedo. Não vale a pena atacar a arrogância de uns e a crueldade de outros. A Grã-Bretanha entrou na Europa como uma nação de lojistas, não quererá enfrentar o Mundo como a nova nação que vende velhas versões de carros em segunda mão. O Reino Unido não é o caos do cosmos, nem perdeu o seu pragmatismo político constitutivo, por essa razão não se observe a ilha offshore como uma visão da imbecilidade, com as suas cidades ao norte vacilantes e pobres, com um countryside saudosista e aristocrata, com um tecido industrial dependente, lunático e suicida.

A Anglofilia é um traço do carácter cultural da Europa. Na cidade de Haia, na Holanda, existe uma clássica tabacaria com enormes prateleiras climatizadas e repletas de preciosos tabacos de todas as partes do Mundo. De Graff vai na terceira geração e atende os seus ilustres clientes como quem desliza no balcão e sempre vestido com um impecável fato de três peças feito com o rigor geométrico de um padrão pinstripe.

Numa conversa casual somos transportados para Inglaterra e para uma delicada e centenária tabacaria de Oxford situada na confluência da High Street. De Graff eleva o espectáculo da sua expressão e convida-nos para uma sala onde, num espaço consagrado e em pleno destaque, descansa pendurada uma moldura que exibe dois longos charutos cor de canela, imóveis como dois pássaros embalsamados, um parcialmente fumado, o outro pristino na sua elegância. Na moldura pode ler-se numa placa metálica e perfeitamente polida – “1946, Sir Winston Churchill’s cigar”. Eis a Grã-Bretanha no coração da cultura da Europa.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

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