O congresso de uma morte anunciada, a de Rui Rio

José Miguel Júdice critica, no Jornal das 8 da TVI, "o congresso de uma morte anunciada, a de Rui Rio". Para Júdice, "Rui Rio teve artes de fazer tudo mal feito"

Passei 15 dias em Paris numa audiência de um julgamento internacional. Isso ajuda a perceber melhor o que somos e não somos, como estamos ou não estamos, para onde podemos ou não ir. Em resumo, a Europa está a ir muito bem em termos económicos e sociais, bem melhor do que Portugal, que é por ela arrastado. Talvez por isso, os media pouco ou nada falam de política que não seja da vontade reformista do Presidente Macron. Em relação a Portugal, quase só referem Ronaldo e a sua forma peculiar de marcar penalties.

Falando do essencial, e seja o que for que se passe na Alemanha, nada vai mudar quanto à forma como a Europa poderosa olha para a sua periferia. Ou seja, vamos continuar a ter uma margem estreita para recuperar autonomia estratégica como país.

Ao desembarcar em Lisboa, tudo passou a ser política, pouca ou nenhuma atenção sendo dada à economia ou aos problemas sociais. Trata-se, como já perceberam, do 37º Congresso do PSD, ocorrido no recente fim de semana. A nostalgia já não é o que era, mas recordo com saudade que vivi até há quase 20 vinte anos alguns deles. E sou capaz de reconhecer que, por vezes (foi o caso de Braga em 1984 e Figueira da Foz em 1985), o fiz com intensidade, emoção e forte participação no que ocorreu.

Numa palavra, este foi o Congresso de uma morte anunciada, a de Rui Rio. Sempre pensei que seria assim (mesmo que tudo corresse bem), pois o PSD não conseguirá derrotar o PS e o CDS vai querer ir separado às urnas. E quando o eleitorado sabe que o partido mais ao centro não vai poder ganhar, não funciona a pulsão para o voto útil.

Dentro do Congresso, todos já sabiam também isso há meses, pelo que nunca seria fácil.
Mas Rui Rio teve artes de fazer tudo mal feito, cometendo os erros da ingenuidade, da impreparação, da arrogância e da total falta de jeito. Tudo ao mesmo tempo.

  • Os erros da ingenuidade: Pensar que um acordo com Santana Lopes significaria a unidade é não saber que o antigo líder é um cavaleiro solitário, sem tropas nem paciência para as organizar. O resultado foi uma vitória de Santana Lopes que negociou dando o que não tinha e recebendo o que não esperava.
  • Os erros da impreparação: Não se ocupar dos sindicatos de votos, não negociando com as distritais (deu a Santana Lopes o que lhes poderia dar a elas) é sinal de amadorismo. Isso causou a vitória do aparelho, que não recebeu quase nada, mas foi buscar quase tudo através do voto.
  • Os erros da arrogância: Não é Cavaco Silva quem quer (e – sei bem do que falo – mesmo Cavaco ganhou em 1985 com humildade e alianças). Ao optar por estar calado durante mais de um mês, Rui Rio abdicou de chegar vencedor ao Congresso, cavalgando uma onda em crescendo. Não o fazer é brincar aos homens providenciais “à la De Gaulle”, esquecendo que, para isso, lhe faltam mais do que 20 centímetros. Por isso, quando tudo começou, o palco estava vazio e foi ocupado: vitória de Luís Montenegro, que agora pode ficar sentado à espera que tudo corra mal e foi, por isso, o grande vencedor do Congresso.
  • O erro da falta de jeito: Nos Congressos há, em regra, uma surpresa guardada, uma carta na manga, um ou vários nomes que projetam para fora, que entusiasmam os soldados, que metem medo aos adversários, que despertam a adesão dos indiferentes, que anunciam uma direção nova e um futuro mais radioso.

Acredito que, apenas por falta de jeito, Rio não arranjou melhor do que a Dra Elina Fraga, que, assim, foi, em contraponto a Montenegro, a outra vencedora do Congresso!
Esta opção chega esta semana para encher o nosso cantinho das tontices… Mas não é pequeno e irrelevante erro. Um partido tribalista como o PSD não perdoa os ataques, ainda que disparatados (uma queixa crime por causa de uma reforma judiciária?). Mas, pior do que isso, entregar as reformas da Justiça à Bastonária derrotada há um ano é um sinal bastante de que Rio nada percebe nem quer aprender coisa alguma sobre o que são as reformas necessárias para o sistema judicial.

Já, em tempos, disse que não gosto de Rui Rio desde o dia em que ele, furioso com derrotas judiciais que lhe infligi por causa de abusos ilegais dele na Câmara do Porto, me escreveu e cito “dizem-me que os advogados por dinheiro fazem tudo”, apesar de eu então representar o IPPAR que pagava pouco e tarde… Foi dessa atitude que me lembrei quando me telefonou uma amiga advogada de Coimbra, estupefacta, a dar a notícia da Dra Elina Fraga. O que só prova que Rui Rio continua a não gostar de advogados e a não os conhecer, realmente…

Tudo foi muito mau, de facto, e os resultados são evidentes: sem oposição, 35% dos votantes não o apoiaram. E ficou em minoria no parlamento do PSD, apesar da aliança com Santana Lopes a quem deu metade dessa minoria. Por isso, um comentador do PSD, ontem à noite, teve de reescrever a história, falando de uma grande vitória de Rui Rio. Foi um ato de fidelidade partidária, de generosidade, mas parece mais um beijo de morte.

Pelo meu lado, daqui para a frente, irei, evidentemente, comentar sobre Rio quando se justificar. E, apesar do que penso pessoalmente dele, fá-lo-ei como faço em relação a qualquer político, elogiando se e quando o merecer. Se eu critico por vezes duramente aqueles de que gosto pessoalmente, como Marcelo Rebelo de Sousa, era o que faltava que me sentisse condicionado em criticar alguém de que não gosto, ou em o elogiar quando merecer.

E é por isso que, desde já, afirmo que o discurso de encerramento do Congresso é por vezes um bom texto, sobretudo quando tratou da Educação (dedo de David Justino?) e do papel de um Estado forte, à maneira do que em 1984 defendeu a “Nova Esperança (dedo de Morais Sarmento?).

Tudo foi, no entanto, lido tecnocraticamente e sem emoção, como se não fosse escrito por ele. Em todo o caso, por vezes, revela força e coragem, o que não é pouco em Portugal. No entanto, como diziam os romanos antigos, ‘res non verba’, ou, como dizemos agora, “palavras leva-as o vento”. Mas o problema principal de Rio é que a política irrompe sempre que um espaço não esteja ocupado. Estou convencido de que Rui Rio, como disse um dia Fernando Pessoa, nasceu politicamente já como um cadáver adiado.

Claro que posso estar enganado e ele ressuscitar, sobretudo se tiver a sorte que embala o primeiro-ministro. E se for capaz de ouvir os que à sua volta são qualificados e competentes, não insistindo teimosamente nos erros. Pode ser que consiga. De facto, desde o tempo dos feiticeiros, há milénios que a sorte protege os audazes. Mas também sabemos que Deus enlouquece os que quer fazer perder.

Vamos, pois, esperar para ver os próximos episódios.

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