O gráfico mais importante da atualidade

A China vai passar para uma situação deficitária. Assim, é muito provável que as guerras comerciais que tanto nos preocupam hoje sejam, somente, a salva inicial de um conflito que poderá durar anos.

Quando Deng Xiao Ping proferiu a frase “ser rico é glorioso”, provavelmente não imaginou que as suas palavras e a política de abertura que elas inspiraram haveriam de desencadear um dos mais extraordinários processos de desenvolvimento económico e social de que há memória. Três décadas volvidas, a China transformou-se na “fábrica do mundo”, ascendeu ao lugar cimeiro das nações exportadoras e retirou muitos milhões de pessoas da pobreza. Tudo isto é sobejamente conhecido.

Também já não é novidade que a China iniciou um processo de terceirização da economia para satisfazer a crescente procura da sua população por serviços e que a correspondente transformação do paradigma de organização produtiva está a ter impactos significativos ao nível doméstico, bem como à escala mundial – não fora a China o colosso que é.

O impacto mais óbvio da terceirização é o abrandamento estrutural do PIB chinês inerente ao aumento do peso do setor dos serviços em detrimento do setor industrial, já que o primeiro tipicamente exibe ritmos de crescimento mais baixos do que o segundo.

Poder-se-ia especular que esta tendência irá prejudicar os principais produtores de matérias-primas, como o Brasil ou a Rússia. Porém, sabemos que a produção de que a China abdicar será captada por outro qualquer país emergente, pelo que a procura por bens primários deverá manter-se robusta. O mesmo raciocínio se pode aplicar aos maiores exportadores de bens de capital para a China, designadamente, a Alemanha e o Japão. Assim sendo, a desaceleração estrutural da China a que se vai assistindo há alguns anos não deverá ter um efeito fraturante na ordem económica mundial. Esse papel está reservado à profunda alteração da relação da China com o resto do mundo.

Com efeito, uma das várias consequências da terceirização é viragem para dentro da economia chinesa, a qual se consubstancia na redução do peso das exportações de bens e no aumento do peso das importações, especialmente de serviços.

Daqui deverá resultar uma subliminar revolução que consiste na reversão da posição estruturalmente excedentária da Balança de Transações Correntes (BTC) da China para uma situação deficitária, tendência que parece indicar o gráfico. Daí considerar o gráfico mais importante da atualidade.

Porquê?

Porque essa alteração estrutural cria uma necessidade perene de financiamento dos défices externos no mercado internacional de capitais.

E então?

O problema é que os mercados de capitais estão totalmente infraestruturados sobre o dólar americano (USD), o que significa que o financiamento dos défices da BTC cria uma enorme vulnerabilidade da China face aos EUA. A questão é tanto mais grave quanto a China depende do exterior para o fornecimento de algumas matérias-primas cruciais, quer ao nível energético, quer ao nível alimentar, sendo que esse produtos são todos cotados e transacionados em USD.

Se a dependência face a um concorrente estratégico já é suficientemente perturbadora, o que dizer quando China e EUA estão no meio de acesa disputa comercial? Naturalmente que esta não é uma situação que a liderança chinesa esteja disposta a acomodar.

Neste contexto, resta ao Partido Comunista Chinês criar o seu próprio espaço de influência, que proporcione acesso a capital estrangeiro, bem como a mercados de exportação e importação. Há muitas e variadas formas de prosseguir esta estratégia, mas existem dois vetores que terão que ser necessariamente ativados. São eles a internacionalização do renminbi (RMB) e a aceleração do projeto “One Belt One Road” (OBOR).

Nenhum deles é novo, mas a intensidade e rapidez com que irão ser conduzidos a partir da agora deverão explodir. Como é bom de ver, esta circunstância cria toda uma gama de novas possibilidades de arquiteturas geoeconómicas e geopolíticas.

Com efeito, a transformação do RMB em moeda de reserva mundial, a par com o aprofundamento e liberalização do mercado on-shore de dívida, permitirá à China emitir vastas quantidades de moeda para custear os seus défices externos, de forma semelhante ao que os EUA fazem há já muito tempo. Neste contexto, o desenvolvimento do projeto OBOR apresenta uma enorme complementaridade à estratégia de internacionalização do RMB, na medida em que promove um espaço económico e político de uso privilegiado da moeda chinesa, fator que se mostrará crucial no arranque da carreira internacional do RMB.

Como o par EUA/USD são a potência hegemónica global, qualquer avanço do binómio China/RMB alterará profundamente a ordem política mundial. Em particular, é de esperar que alguns países-chave saiam da órbita dos EUA para a esfera de influência da China.

Podemos esperar que os americanos sintam esta dinâmica como uma usurpação, a que certamente não assistirão de modo passivo, do mesmo modo que os chineses não irão abdicar da conquista do seu lugar ao sol no jogo do poder universal.

Olhado neste prisma, a tensão que se tem vindo a acumular entre EUA e China desde o início da presidência Trump poderá ser mais reflexo da competição estratégica entre um meteoro ascendente e uma estrela cadente do que propriamente uma disputa em torno de saldos comerciais bilaterais, como faz crer a Casa Branca. Até porque a luta pela supremacia vai-se esgrimir no domínio tecnológico, não no comercial. Assim, é muito provável que as guerras comerciais que tanto nos preocupam hoje sejam, somente, a salva inicial de um conflito que poderá durar muitos anos.

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