O ministro do Ambiente tem razão. Eis porquê

O ministro do Ambiente decretou o fim dos carros a diesel. É claro que as coisas não mudam assim tão rápido, não em quatro ou cinco anos. Mas a pergunta que nos devemos fazer é esta: e não deviam?

1.
Foi o tema mais importante de 2018, embora não lhe tenhamos prestado atenção nenhuma. Uma onda de calor global, tempestades extremas, furacões que se formam rapidamente, fogos incontroláveis causados por fenómenos meteorológicos extremos. E um alerta dos cientistas do painel intergovernamental para as alterações climáticas: já não temos até 2030 para conseguir travar o pior das alterações climáticas, já vamos tarde se fizermos o que temos que fazer agora mesmo.

Não é dramatismo, é a pura realidade: o que concluíram os especialistas designados pelos Governos para o painel da ONU foi isto: as metas traçadas em Paris já não servem e temos que ser mais ambiciosos. Porque só essa ambição reforçada pode evitar que mais 10 milhões de pessoas fiquem em perigo com o avanço do nível do mar; que muitos mais fiquem ameaçados pela rápida propagação de doenças transmitidas por mosquitos (como a malária ou o dengue). Que largas parcelas de território sequem até lá; que a pesca em águas tropicais perca espécies para capturar; que as produções agrícolas decaiam abruptamente, sobretudo em países mais pobres; que o gelo da Antártida possa derreter todo – apenas para lhe dar um olhar geral (há mais detalhes aqui).

No último dia do ano, um colunista do The New York Times escreveu umas linhas que me deixaram cheio de remorsos por não ter escrito o mesmo: “Haveria notícias mais óbvias para escolher como a mais importante do ano. Mas nenhuma delas é mais importante do que as alterações climáticas em 2018. É a que mais provavelmente vai afetar as vidas das futuras gerações.”

E agora registe isto: as alterações climáticas são um fenómeno de todo o mundo. E o mundo é um somatório de partes. A que se segue é a nossa.

2.
É no mínimo irónico que tudo tenha chegado ao mesmo tempo: a chuva de críticas ao ministro do Ambiente, por abrir uma polémica sobre o fim dos carros a gasóleo; as imagens do Estado do Michigan congelado, com temperaturas abaixo dos 50 graus negativos, a notícia que a Namíbia está com recordes de calor, também perto dos 50 graus (mas positivos).

É no mínimo estranho que nós, jornalistas, não liguemos os dois temas. “Às vezes sinto-me culpado por não escrever mais vezes sobre as alterações climáticas”, escrevia no mesmo texto David Leonhardt, o mesmo editorialista do NYT. Eu também. Mas aqui está uma boa oportunidade.

Um membro do Governo só preenche verdadeiramente o seu papel se procurar mudar mentalidades. Foi isso que, esta semana, Matos Fernandes quis fazer quando disse o que disse: daqui a quatro, cinco anos, os carros a gasóleo já não têm praticamente valor de troca.

É claro que Matos Fernandes carregou no argumento. E é evidente que pisou terreno sensível: 53% dos automóveis a circular em Portugal são movidos a gasóleo, muitos dos que são produzidos em Portugal têm motores diesel – incluindo na Autoeuropa, a nossa vaca sagrada. É sobretudo verdade que as coisas não mudam assim tão rápido, não em quatro ou cinco anos.

Mas a pergunta que nos devemos fazer é esta: e não deviam? E sabendo o que nós sabemos sobre o impacto que as alterações climáticas estão já a ter no dia-a-dia, mundo fora, o que é que se espera que um ministro diga?

Sim, é absolutamente necessário mudarmos comportamentos – e não é assim tão difícil começar por comprar carros a gasolina, que (até ver) são menos poluentes, ou elétricos – se tivermos como os comprar e abastecê-los. E o mais absurdo na conversa pública que se manteve esta semana é que não só isso já está a acontecer (a venda de carros a diesel já caiu mais de 10% em 2018), como há várias marcas que já decretaram o fim do diesel, como há várias cidades europeias que já proíbem a circulação de automóveis assim.

A discussão pública, a chuva de críticas ao ministro do Ambiente, foi até mais pequenina do que isso (para não dizer mais hipócrita, em alguns casos). É que mesmo em Portugal há cidades que aprovaram documentos oficiais preparando a implementação da mesma política. Como Lisboa. Quer saber o que foi aprovado na Assembleia Municipal, num chamado “Plano de Ação para as Energias Sustentáveis e o Clima”? Um texto que inclui esta proposta: “Eliminação da circulação de veículos ligeiros a gasóleo nas zonas centrais da cidade”. Sabe quem votou? Todos os partidos e seus representantes. O presidente do ACP, que agora tanto protestou com o ministro, não votou contra – decidiu não ir à votação ‘por não concordar’, segundo me esclareceu o próprio, gentilmente.

Volto ao ponto: já vamos tarde para começar. E começar apenas por comprar carros menos poluentes é muito insuficiente.

Mesmo ao Governo, vamos ter que exigir mais. Não basta alertar para o problema, mesmo que dispondo o corpo às balas que sempre surgiriam. Não basta dar um apoio de 2500 euros para quem compra carros elétricos. É preciso ir muito mais fundo.

As próximas eleições são, para isso, uma enorme oportunidade. Quem souber posicionar o país numa estratégia que, simultaneamente, cumpra a nossa palavra na Conferência de Paris, mude mentalidades e sobretudo os nossos comportamentos, com o alavancar de uma nova economia, assente numa outra tecnologia e capaz de absorver mão-de-obra muito mais qualificada, pode bem merecer um voto.

Eu sei, o desafio é tão grande que é difícil perceber por onde começar. Talvez este trabalho do Washington Post ajude nos trabalhos de casa.

A dúvida, face ao escarcéu que se ouviu, é se vamos ter muitos a levar isto a sério, como merece o tema que vai determinar já o nosso futuro, pelo andar que as coisas levam.

Não? Então boa sorte. As futuras gerações haverão de nos perguntar por que é que estivemos distraídos com assuntos bem menos importantes do que estes.

Notas soltas da semana

  • Coisas que nem o Marcelo pode fazer: vetar uma lei só porque não tem os apoios que tem, como parece estar a fazer no caso da Lei de Bases da Saúde. Carlos César, neste caso, respondeu bem: a Assembleia arranjará maneira de reconfirmar o voto, se for aprovada à esquerda.
  • Coisas que o Governo não pode fazer ao Marcelo. Manuel Heitor decidiu dar o dito pelo não dito: já não defende a eliminação das propinas. Diz até que nunca defendeu. E, não bastando, atira: “é uma medida altamente populista”. Coitado do Presidente, que o tinha secundado.
  • Coisas que só um Governo de esquerda pode fazer: sugerir que o direito à greve não é pleno e que pode mudar a lei para evitar exageros, como tem sido o caso dos enfermeiros. A direita que não mostre inveja do que disse a ministra da Saúde, porque faz todo o sentido.
  • Coisas que nem a esquerda devia poder fazer: gritar, agora, que é preciso uma comissão de inquérito à CGD, depois de ter liquidado a anterior.
  • Coisas que só à esquerda ninguém pergunta: segundo o Expresso, a Câmara de Lisboa cedeu um edifício de cinco andares à CGTP junto ao Largo do Rato, sem cobrar renda por… 35 anos. Sim, 35 anos. Alguém se importa de nos explicar porquê?
  • Coisas que o Centeno sabe sempre fazer: descer o défice com cortes no funcionamento da Administração Pública. Pergunta: como é que o Costa vai governar sem ele?
  • Coisas que não mudam: o Governo obrigou os proprietários de drones a registar os aparelhos, mas ainda não criou o site para eles o fazerem. Entretanto, os incidentes triplicaram (58 em 2018);
  • Coisas que o Santana sempre soube fazer: ir ao bairro da Jamaica e explicar que o problema é mesmo de integração, de mínimos de qualidade de vida.

(Este texto foi alterado, refletindo a posição do presidente do ACP na Assembleia Municipal de Lisboa, que me foi entretanto transmitida).

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