O mito do empreendedorismo

Existe hoje um discurso perigoso à volta do empreendedorismo. Uma narrativa que sustenta a teoria de que mais vale não fazer nada do que empreender.

Desengane-se quem estava à espera de ler mais uma crónica de esquerda a falar sobre a falácia do empreendedorismo. Se era esse o seu propósito, lamento informá-lo que acedeu à ligação errada e que pior ainda acabou de contribuir com mais um “view” para a crónica deste perigoso liberal.

Não sei se é teimosia ou feitio, mas gosto imenso de projetos que se tornam realidade e de pessoas que fazem as coisas acontecer. Admiro quem põe as mãos à obra e prefere arriscar a ficar acomodado.

A este propósito, há uma passagem interessantíssima num discurso que o publicitário brasileiro Nizan Guanaes fez a uma turma de universitários finalistas de gestão, de uma universidade da Bahia: “Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem que aguentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo que ele faria, se fizesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar.”

O próprio Nizan Guanaes é um exemplo vivo de empreendedorismo. Um publicitário da Bahia que subiu a pulso e fundou o Grupo ABC, o maior conglomerado de comunicação da América Latina e o 18º maior grupo publicitário do mundo. Fez ontem um ano que Nizan Guanaes vendeu o seu grupo ao gigante Omnicom por 1 bilião de reais.

Mas passando ao que realmente importa. Existe hoje um discurso perigoso à volta do empreendedorismo. Uma narrativa que sustenta a teoria de que mais vale não fazer nada do que empreender e que quem tem sucesso só o consegue graças a fatores poucos meritocráticos como a rede de contactos ou a herança familiar.

Existem hoje alguns iluminados, que por entre uns cigarros e umas cervejas, explicam ao mundo que isso de fazer a economia crescer, gerar riqueza e criar empregos, é uma coisa para betos. Aliás, eu diria uma coisa, trabalhar muito, para esta gente, é sinónimo de futilidade. Porque “o que importa é aproveitar a vida”.

Tenho para mim que quem adota esta postura não o faz por maldade, mas antes por ingenuidade. Esta atitude é até desculpável tendo em conta que passámos anos e anos a ouvir que “o Estado tem a obrigação de garantir emprego aos licenciados”, ou melhor ainda que “o mais seguro é arranjar um emprego no Estado”, ou ainda “o importante é encontrar um emprego para a vida”.

Não nego que seja mais fácil a quem estudou em bons colégios, foi sempre rodeado de bons contactos, teve pais que apostaram na sua educação e tem dinheiro de família, tornar-se empreendedor. Pode ser mais fácil, mas não basta – quantos casos é que todos nós conhecemos de pessoas que tiveram todos os meios para atingir um fim e simplesmente se perderam no processo?

Aliás, a realidade mostra-nos todos os dias que há cada vez mais empreendedores que venceram na vida precisamente por não terem esse background. A globalização e as novas tecnologias fizeram com que o sonho americano se transformasse no sonho global. A isto se chama futuro.

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