O mundo está em mudança abrupta. E agora?

A propagação e a resposta ao surto de Covid-19 estão a mudar o mundo. Perante a incerteza António Bico, CEO da Zurich Portugal, acha fundamental aprender com o passado, resistir, adaptar e proteger.

Nos últimos meses, o mundo assistiu à rápida disseminação do novo coronavírus. De surto local para uma pandemia global, a Covid-19 chegou como ameaça desconhecida, evidenciando a crescente vulnerabilidade global, nacional, familiar e pessoal. Atingiu-nos a todos. Colocou-nos em isolamento social, fechou negócios e levou restrições a cerca de um terço da população mundial. Este é também um período de reflexão: o que muda e porque muda o mundo?

Não é a primeira vez – nem será a última – que assistimos a acontecimentos que precipitam mudanças rápidas do mundo e nos estilos de vida que levamos. Na língua inglesa chamam-lhe game changers, fenómenos que subvertem o que era tido como a normalidade, em múltiplas dimensões da sociedade.

Assistimos a tais mudanças no passado recente. O ataque ao World Trade Center foi “o dia que mudou o mundo” para a realidade do perigo inesperado e da gestão efetiva da proteção. Fronteiras, aeroportos, portos, tudo é escrutinado e controlado à entrada e saída. Nem sempre com eficácia, reconheçamos. Aprendemos muito? Sim, e estamos melhor preparados. Uns anos depois, o gigante sistema financeiro global foi derrubado. Empresas falidas, poupanças e empregos perdidos. O mundo mudou e a adaptação foi dolorosa. Mas, a seu tempo, a economia reinventou-se como única forma de sobrevivência. Umas atividades deixaram de existir, converteram-se e adaptaram-se outras e nasceram outras ainda. Aprendemos imenso.

A era digital foi outro vértice de mudança. Com o rol incessante de novidades tecnológicas para pessoas e empresas, a nossa forma de pensar foi impactada. Repensámos a mobilidade, descredibilizámos os bens materiais, mas passámos a valorizar, e muito, as experiências imediatas. O digital continua a fomentar uma forte cultura de inovação. Voltámos a aprender.

A pandemia por Covid-19 mudou o mundo e vai continuar a mudar. A saúde foi apenas o primeiro ponto de impacto. Tornou-se óbvia a necessidade de investimento em investigação científica, mas também a importância dos sistemas de saúde que enfrentam dificuldades na primeira linha de combate ao vírus. Cabe aqui elevar o mérito de todos quantos têm dado tudo para salvar as nossas vidas, reconhecimento que, com elementar justiça, colhe unanimidade. Adotaram-se novos hábitos e modelos laborais e reforçou-se o paradigma digital. Os escritórios mudaram-se para as nossas casas, pontos nevrálgicos da nova realidade.

Tal como em qualquer crise sistémica, os riscos são multidimensionais. Preparamo-nos hoje para enfrentar as consequências sociais e económicas que não deixarão de marcar a sua presença, como a história o tem, reiteradamente, demonstrado. Reganhar a confiança social é, sem dúvida, um dos maiores desafios que temos pela frente. Do ponto de vista económico não é ainda visível, com nitidez, a dimensão dos impactos de curto prazo e muito menos nítida é a visão de médio e de longo prazo. No entanto, alguns efeitos já começam a ser evidentes.

Um dos efeitos estende-se, previsivelmente, à forma como viajamos, à cultura e ao estilo de vida que tínhamos como certo. A sociedade e a economia ter-se-ão de reinventar para encontrar o seu lugar num novo paradigma. O esforço para respostas decisivamente eficazes a esta reinvenção tem que ser um desígnio de cada um de nós, famílias, empresas e estados.

Vai ser um mundo melhor? Não sei. Ninguém sabe. As pessoas, as famílias e as empresas já demonstraram que se conseguem adaptar, mas como ficarão as tensões geopolíticas que nos habituámos a ver e a ler nos media diariamente? Só com um diálogo concertado à escala global, teremos maiores possibilidades de sucesso na implementação das medidas que hoje se exigem. Ou seja, teremos de ser, de facto, capazes!

Tal como aprendemos no 11 de setembro e na crise financeira de 2008, também hoje estamos a aprender muito – e vamos aprender muito mais. As mudanças trazem sempre pontos positivos. Esta crise já os trouxe também. Mas está ainda muito por ver do outro lado da balança, para, então, podermos fazer as contas…

Até lá, precisamos de manter a capacidade contínua de adaptação, que demonstrámos até aqui. Manter a resiliência na vida familiar, perante as novas exigências. A resiliência das empresas, perante a necessidade de inovar em tantas áreas. A resiliência de setores, cidades, regiões, países e continentes em prol do equilíbrio socioeconómico. No fundo, a resiliência do mundo como um todo.

Pela frente temos tempos muitos exigentes, em que todos temos um papel a cumprir. Precisamos de cuidar das comunidades, ter maior empatia uns com os outros e fortalecer a entreajuda aos mais vulneráveis. Precisamos de nos adaptar e reinventar, continuando a fazer da proteção – o ativo fundamental para os seguradores – palavra de ordem. Aproveitemos as lições de mudanças passadas e as que estamos a aprender agora, para sustentar e estimular esta adaptação e ultrapassar a crise, com resiliência, esperança e visão de futuro. Somos nós, cada um de nós, que temos que fazer acontecer!

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