O Panteão, a legionella e Angola

Uma morte não é estatística, é uma tragédia. E se queremos andar aos beijinhos com a inovação, não podemos descurar a nossa comunidade

Incomoda-me bastante que um tema condicione a agenda mediática, tal como a Web Summit apagou nessa semana toda a realidade em que vivemos. Nesta, surgiu a questão do jantar da malta do Paddy Cosgrave no Panteão Nacional, um ultraje para muitos, para outros nem tanto. Mas enquanto se zaragateava em praça pública e nas redes sociais com o famigerado repasto, muitas coisas estão a acontecer.

Legionella mortífera – São 5 mortos, 50 infectados, 35 pessoas internadas, 6 em cuidados intensivos e ainda li um «especialista» afirmar que é tudo «normal». Não, não é. Uma morte não é estatística, é uma tragédia. E se queremos andar aos beijinhos e abraços com a inovação e as start-ups (e devemos andar), não podemos descurar as nossas costas, a nossa comunidade. Pedir desculpa é bonito e fica bem, mas temos de aprofundar se tudo foi feito e quem são os responsáveis, nem que seja uma empresa de manutenção. E se uma empresa é responsável, devem de imediato ser rescindidos todos os seus contratos com o Estado.

Como tratamos os nossos monumentos – Não sei se se lembram, há uns meses foi notícia a destruição que houve do Convento de Cristo devido a uma rodagem cinematográfica. Lembrei-me disto porque por causa do assunto do Panteão, vi reproduzido no DN a lista de preços para organização de eventos nos nossos monumentos. Ora, o nosso património não pode ter o valor de um espaço qualquer ou discoteca de vão de escada. Os 2500 euros para usarem o Panteão Nacional é ridículo e ofensivo (e nem devia ser usado a meu ver), tal como a tabela para outros é uma mixaria. Entendo que os monumentos devem estar vivos, não só com os turistas, mas há muito que defendo que exista um director comercial que saiba negociar valores justos para os espaços que são «premium» para todos nós. É algo que tem de ser revisto e com uma estratégia adequada.

Os exércitos de pedintes e vendedores da droga – Quem vive em Lisboa todos os dias se depara com dois tipos de exércitos, ou melhor, com duas indústrias que dão cabo da imagem de um país que se tenta vender como “cool”, moderno e atractivo para trazer mais investidores. Não quero aqui mencionar os muitos necessitados que continuam a dormir na rua e que deviam ter outra atenção dos decisores pois são um problema social que devia motivar a sociedade, escrevo é da indústria de pedintes que está semeada no eixo Avenida da Liberdade, Baixa e Terreiro do Paço, bem como dos indivíduos que em cada esquina oferecem na surra, em voz baixa, todo o tipo de drogas a qualquer transeunte que por ali passe. Esta tropa fandanga, tipo melgas, que actua nas barbas da polícia já devia ter sido limpa e é tempo de meter mãos à obra, porque para lá dos turistas levarem a imagem de uma Lisboa bonita, também levam o “bullying” destas criaturas.

A operação limpeza Dos Santos em Angola – Conto aos leitores que muitas vezes em conversa com empresários me perguntavam o que eu pensava sobre Angola. A todos dizia há uns tempos o mesmo: com a saída do actual presidente, quem vier vai criar uma nova oligarquia. João Lourenço está a realizar uma razia na nomenclatura de Angola. Tem afastado peças relevantes próximas de José Eduardo dos Santos e a cereja no topo do bolo aconteceu com a exoneração da Sonangol da sua filha Isabel. São tempos novos, é uma corrente de ar que corrobora a opinião que eu manifestava. Não sei como tudo irá acabar, se João Lourenço irá ser um Deng Xiaoping que marcará uma nova filosofia de um poder duro alavancado no crescimento económico, a quem não interessa se o gato é branco ou preto desde que cace ratos, como dizia o ex-líder chinês, ou se será apenas um Gorbachev que em pouco tempo será triturado pelas forças do passado recente.

Nota: o autor escreve segundo a antiga ortografia

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