O populismo, a “nação sportinguista” e a outra Nação

Que as tropelias vividas num clube de futebol em que os sócios elegeram um louco demagogo que não olha a meios para atingir os fins possa servir de exemplo e de alerta para o fenómeno na política.

Nas últimas horas li e ouvi vários sportinguistas reclamarem para si o serviço exemplar que acabam de prestar à democracia ao votarem em assembleia geral a destituição do presidente do seu clube. Invocam o ensinamento dado que, defendem, deve ser levado para outros campos da nossa vida colectiva, nomeadamente a política.

Acho que esses sócios empenhados estão a ser modestos. Sim, o seu exemplo deve ser visto, analisado e até ensinado às gerações actuais e futuras. Mas, e a sua humildade está aqui, não apenas no que fizeram no último par de dias, quando apontaram a porta de saída a Bruno de Carvalho. A lição a tirar tem que começar lá muito mais atrás, quando elegeram e confirmaram por cerca de 90% de votos o presidente que agora despediram e em tudo o que se passou entretanto, sobretudo nos últimos meses.

Se queremos fazer disto um exemplo de como os populistas e os proto-ditadores actuam temos mesmo de começar pelo princípio.
A parte boa é que o país assistiu – e, com azar, vai continuar a assistir – a uma experiência real dentro de portas, largamente mediatizada, acompanhada, comentada e documentada e que interessou directa e indirectamente milhões de pessoas mas que ocorreu numa zona que tem pouco impacto para o nosso destino colectivo. É um clube de futebol e, no essencial, o mal e o bem que aí acontecem têm impacto sobretudo na instituição. Os aficionados que me perdoem mas, a este nível e tirando os péssimos exemplos para a sociedade que com frequência dali chegam, o que é mau para o Sporting – ou para o Benfica, ou para o FC Porto ou para qualquer outro clube – é largamente irrelevante para o país.

Mas daqui podem tirar-se então algumas lições para áreas da vida pública que são decisivas e a todos devem interessar, como a política.
A primeira é que o populismo, tal como a ditadura, entra, por regra, pela porta da democracia. Os seus protagonistas fazem-se eleger de acordo com as regras do jogo.

E se o conseguem é porque se reúnem condições que o permitem. Uma delas é o desinteresse colectivo de largas fatias de eleitores – sejam eles sócios de um clube, filiados num sindicato ou cidadãos de um país -, que deixa campo aberto para os mais militantes, fanáticos ou com interesses particulares. Outra é, muitas vezes, a falta de comparência de opositores credíveis com respostas sérias para as dificuldades que se colocam às instituições e para os descontentamentos legítimos que possam existir.

Um populista é, entre outras coisas, alguém que apresenta respostas fáceis, rápidas e baratas para problemas que, por regra, são complexos, de resolução demorada e que exigem opções que têm custos relevantes. Se estamos no reino do futebol, a promessa de sucesso desportivo está na primeira linha. Já na política, o emprego, mais salário, prosperidade abundante, segurança e qualidade de vida são as promessas da praxe. Tudo para todos e a preço de saldo.

Comum é, também, a nomeação clara de inimigos externos ou internos a “abater”, por estes alegadamente atentarem contra os interesses da instituição ou do colectivo. Esta é uma fase decisiva para “arregimentar tropas”, cerrar fileiras e criar um instinto de defesa e de sobrevivência. No futebol, a regra são os dois ou três clubes rivais, que supostamente dominam o “sistema” e a arbitragem, e a comunicação social. No combate partidário, são grupos de interesse bem definidos, podem ser os estrangeiros, é o outro campo ideológico e a comunicação social. Na governação de um país, são outros países, algumas grandes multinacionais e, claro, a comunicação social. Um populista é sempre alguém que luta incessantemente e com enorme altruísmo contra inimigos maléficos que querem destruir a nação, seja ela a sportinguista ou a venezuelana.

A intimidação pela força ou, no mínimo, pela ameaça, é outra característica. Seja com milícias saídas de claques organizadas ou usando forças do Estado, seja no decurso de processos eleitorais ou já durante a governação, o medo é uma arma poderosa. E estamos, por regra, a falar de gente sem princípios, para quem os fins justificam todos os meios, mesmo os mais escabrosos. Alcochete demonstrou-o sem margem para dúvidas, como outros presidentes de outros clubes já o tinham feito de forma menos evidente – a propósito, o sobressalto público que se seguiu a Alcochete já nos passou sem que alguma coisa de fundo tivesse mudado, certo?

E depois há a tentativa de alteração das regras do jogo para a perpetuação no poder. O populista só é um democrata até ao preciso momento em que assume os comandos. A partir daí, a sua democracia passa, preferencialmente, a ter as regras que lhe permitem o exercício do poder com pouco ou nenhum escrutínio, sem oposição e com elevada manipulação de procedimentos. Tudo com o objectivo de se prolongar nos cargos porque a sua força está nessa condição, tal é o lixo que já foi empurrado para debaixo do tapete que os próximos se encarregarão de destapar.

Esta tentativa de dar o golpe por dentro é, por regra, um enorme teste ao funcionamento das instituições e à eficácia dos mecanismos legais e formais que podem ser accionados para o evitar.

No Sporting, discutiram-se estas questões durante semanas, houve recurso a tribunais e a decisões judiciais e foi necessário envolver vários órgãos que têm como função supervisionar o funcionamento de outros para se devolver a palavra aos sócios.

Por regra, tendemos a desprezar estas questões que nas empresas se chama “governance” e nos sistemas políticos de “freios e contrapesos” e passa pela separação de poderes e pela vigilância cruzada que uns fazem dos outros.

Que este laboratório vivo a que temos tido direito, com as tropelias vividas num clube de futebol em que os sócios elegeram um louco demagogo que não olha a meios para atingir os seus fins, possa servir de exemplo e de alerta para o fenómeno na política. É fácil colocar um populista aos comandos do barco. O problema é depois tirá-lo de lá sem danos colectivos.

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo acordo ortográfico

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