O problema de Rui Rio é esta pergunta

Experimente perguntar a um amigo de direita: “Então, nas legislativas votas em quem?” A resposta vai mostrar-lhe os erros de Rui Rio e a razão por que uma clarificação nunca chega tarde demais.

1.
Dizia Luís Montenegro há dois meses, cheio de veemência: “Não concordo, não patrocino e não me condiciono por iniciativas que visem destituir o líder do PSD intempestivamente. O PSD precisa de bom senso e maturidade”. Dois meses.

Triste, triste, é que Rui Rio não tem por onde se queixar. Ele, em bom rigor, é líder do PSD há um ano (faz na segunda-feira). E de há um ano para cá, pouco parece ter feito para merecer a esperança de quem habita o mesmo partido que ele.

Se for de esquerda e tiver amigos de direita, arrisque-se a perguntar-lhes assim: “Então, nas legislativas, votas em quem?”.

2.
Há um ano, na noite das eleições diretas, arrisquei-me a escrever um texto em que deixava a Rui Rio onze conselhos difíceis para dar a volta ao PSD. Hoje, basta-me guiar-me por eles para explicar como Rui Rio falhou, deixando que a pergunta crucial das próximas legislativas seja apenas sobre António Costa (ele merece mesmo uma maioria absoluta?).

Vá, é preciso reconhecer que o problema estratégico do PSD não é novo, nem apareceu com Rui Rio. Desde as eleições de 2015 que o partido não para de perder intenções de voto para os socialistas. Isso viu-se nas legislativas em que Passos teve a sua vitória mais amarga; e acentuou-se depois, quando a “gerigonça” provou estabilidade, fez uma ampla devolução de rendimentos e… tirou à direita uma das poucas bandeiras que lhe restava – a das contas certas. Não admira, portanto, que as sondagens estivessem abaixo dos 30 e que… continuem a cair.

Mas vale a pena dizer, em abono de Rui Rio, que ele trouxe consigo uma resposta: como falharam as previsões mais catastrofistas sobre a esquerda, era tempo de reposicionar o partido.

E, vai daí, reconhecer, que o objetivo de Rui Rio não era nem podia ser o de ganhar as legislativas. Era, sim, tornar o voto útil para quem admitia votar no PSD. Traduzo: apostar que o eleitorado ao centro e direita prefere um Governo PS condicionado pelo apoio do PSD do que pelos votos e ideias da esquerda.

2.
Acontece que, a partir daqui, tudo falhou. Montenegro (como outros críticos) dirá que falhou porque uma estratégia destas, baseada na aproximação ao PS, falharia sempre. Seja porque o PSD perde marcas distintivas face aos socialistas, seja porque afasta o eleitorado que ainda mantém ligação emocional, doutrinária, ao PSD de Passos. Os dois argumentos, claro, são admissíveis. Mas não são os meus.

Na minha opinião, a falha de Rui Rio não estava na estratégia, esteve em tudo o resto. Vamos aos pecados de Rui Rio, por ordem crescente:

  • A casa no Porto. É um problema, sim, porque o poder está em Lisboa e não dá para conquistar almas, nem se influencia nada, sentado no sofá com um comando à distância. Vá, até dava para ser no Porto. Não podia era ser parado – até porque Rio não tem cadeira no Parlamento e Costa e Marcelo não sabem estar sentados um segundo. Rui Rio tinha que galgar terreno e levar as TVs – mas a verdade é que já foi tarde.
  • A autossuficiência. Bem avisava ele, antes de chegar: em vez de união, a expressão da ordem seria “vai ver como as coisas são”. E então vimos: um grupo parlamentar às avessas, um ex-líder a fundar um novo partido, muitas vezes um partido a várias vozes, sem coordenação.
  • A ingenuidade. Lembra-se da aproximação ao PS? Pois bem, fez-se com dois acordos ditos “de regime”. Na verdade, de regime não têm grande coisa – e os acordos acabaram a marinar. Mas o problema é que o PSD fechou apenas os dois acordos que Costa queria e nunca nos disse em que é que convenceu Costa a ceder.
  • A identidade. E qual era o risco da aproximação ao PS? Perda de fatores que diferenciem o PSD do PS. E que fez a seguir o líder do PSD? Contrariou posições tradicionais do PSD, em áreas sensíveis como a Justiça (PGR, autonomia do MP) ou nos impostos (apoiando aumento de taxas sobre arrendamento “especulativo”). E se já nem as contas certas diferenciam, que tal um elogio a Centeno? Sim, também aconteceu.
  • O banho de ética, porra. Era mesmo o que Rio mais vincava no seu discurso de há um ano: ao contrário de Santana, com ele não havia jogos. Nem cedências. Nem amigos. Bom, vale mesmo a pena dizer o que aconteceu ao longo deste ano? Fica pelo menos a moral da história: quem promete banhos de ética, afoga-se neles.
  • A desconfiança. Até dos seus mais próximos, Rui Rio desconfia. Tem medo das fugas de informação, irrita-se com as críticas. O resultado: a direcção do partido não discute temas tão centrais como a substituição da PGR, não conhece propostas do seu líder antes de ele as divulgar em público. E, pelos vistos, nem as ameaças iminentes à liderança analisa. Se é assim na São Caetano, imagine o que seria no Conselho de Ministros.
  • O autoritarismo. Lá está uma verdade transparente em Rui Rio: ele é como é, não muda nada. E vai daí que voltámos a ver críticas à comunicação social, ataques aos críticos internos, ameaças de condicionamento da autonomia judicial. Uma vez mais: quando a alternativa que os portugueses veem são os afetos de Marcelo, o otimismo “irritante” de Costa, o sorriso de Assunção Cristas, onde é que Rui Rio se meteu?
  • O respeitinho. Por António Costa. Eu explico: quantas vezes viu Rui Rio a criticar diretamente o primeiro-ministro? (E não vale responder que criticou o Governo, também era melhor….) A verdade é que Rio não só se dá bem com o socialista, como hesita em criticá-lo individualmente. Dizem os críticos que é por vontade de fazer parte do próximo Governo, dizem os seus próximos que é porque ele não gosta de personalizar críticas, quando Costa é tão popular. Eu acrescento uma terceira via: quantas vezes ouviu Rui Rio falar ao longo deste ano?
  • O telefonema de Marcelo. Eu bem dizia, logo há um ano: “Não há ninguém mais popular no PSD do que Marcelo; E não há ninguém no partido que mais facilmente o influencie” E pronto. Vale a pena lembrar que Marcelo não parou de fazer elogios a Costa. E que, um dia antes de Montenegro abrir a guerra interna, a direção do PSD criticou… Marcelo. E, já agora, lembrar que se Marcelo já pega no telefone para ligar à Cristina Ferreira, é fácil imaginar quantas chamadas já fez depois disso…
  • O (enorme) amadorismo. De tudo o que falhou neste ano, este foi o pecado capital. O PSD de Rui Rio vive na era pré-redes sociais, pré-internet, pré- plano tecnológico, pré-comunicação política. Na verdade, o PSD de Rui Rio vive no tempo de…. Rui Rio. É um facto que, na organização do partido, se introduziram melhorias; é um facto que, nas últimas semanas, o partido assentou a mensagem e deu menos tiros no pé. Mas, dito isto, tudo à volta foi de um amadorismo tenebroso. Que saudades de Paulo Portas, senhores.

Dito tudo isto, é claro que eu percebo a dúvida: ainda faltam cinco meses para as europeias, mais de nove para as legislativas. É claro que, em circunstâncias normais, Rui Rio deveria ir a eleições e tentar a sua sorte. Nenhuma dúvida, até, que tem essa legitimidade – precisamente até ao dia em que deixar de a ter.

Vamos lá a ser objetivos: há regras nos partidos e as regras são para serem cumpridas. Neste caso, as regras dizem que Rui Rio tem um mandato de dois anos e que quem o quiser derrubar tem que ter sucesso em iniciar o processo e, depois, de ganhar as novas diretas. Não há, nisso, drama especial. Até porque, em abono da verdade, convocar eleições no partido é melhor para quem ganhar do que este vai-que-não-vai, em que se ouvem mais as críticas do que as propostas.

É agora, portanto, que vamos ver se o partido segue mais os “traidores”, se prefere os romanos – na versão de fim-de-império.

No estado em que o PSD está, sempre tem a vantagem da clarificação. E, havendo vida nova, dá também para perguntar outra vez a quem ganhar: que tal estes onze conselhos difíceis para dar a volta ao PSD?

P.S. A verdade é que o Conselho Estratégico do PSD foi uma boa ideia, as mudanças no aparelho foram uma iniciativa ousada, a transparência no financiamento uma coisa importante. E, convém dizer, algumas propostas apresentadas nos últimos meses começaram a fazer sentido – mesmo que sem grande diferenciação. Não posso dizer ainda ter alguma expectativa com Rui Rio, mas também duvido que quem vier faça melhor do que fazendo… by the book. Mas enfim, sobre o outro futuro do PSD haveremos de falar mais tarde.

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