O que devemos aprender com a figura nacional do ano

O processo de vacinação mostra que também sabemos executar processos complexos com rigor, ultrapassar metas e contornar os obstáculos e imprevistos que sempre surgem. Importa aprender com isso.

Se 2021 terminasse agora, Henrique de Gouveia e Melo seria certamente a “Figura Nacional do Ano” para muitas redacções. E virá a sê-lo se nada de extraordinário acontecer no país até ao final de Dezembro.

A escolha é relativamente fácil por ser óbvia. A forma como tem decorrido o processo de vacinação contra a Covid é uma feliz excepção no meio de muita desorganização, falta de planeamento, incompetência, improviso, anúncios sem consequências, avanços e recuos e má comunicação.

Por ser essa excepção, o trabalho da task force da vacinação tem sido elogiado regularmente e não têm faltado louvores ao vice-almirante Gouveia e Melo e à sua simbólica farda. Mesmo quando se excede, porventura entusiasmado pela boa opinião pública e publicada que tem, como aconteceu na entrevista que deu ao Sol há um mês e meio, o líder da task force beneficia de um grau de tolerância reservado aos que têm créditos a haver. E ele tem, porque o país não está habituado a que estas coisas corram bem nem sequer dentro da mais banal normalidade.

Mas esta equipa está a mostrar outra coisa igualmente meritória: é que é possível executar processos complexos com profissionalismo e rigor, cumprir ou ultrapassar metas e ir contornando os obstáculos e imprevistos que sempre surgem com flexibilidade, capacidade de reacção e revisão rápida dos planos.

Isto tudo no âmbito do Estado, com entidades da administração central articuladas com as centenas de autarquias, num processo que envolve diariamente milhares de pessoas entre profissionais de saúde, auxiliares, equipas de jovens de apoio e fornecedores externos.

Portanto, é possível. Muitos países já o fazem há muito tempo como regra. E nós, portugueses, que não somos diminuídos pela genética, pela dieta mediterrânica nem pelas fantásticas castas autóctones com as quais fazemos vinhos cada vez melhores, também o sabemos fazer.

O que importa agora saber é porquê e tirar lições para o futuro, aprender, replicar práticas e métodos uma e outra vez em processos mais ou menos complexos.

Que condições foram dadas ou criadas por este grupo de trabalho que outros não tiveram ou não souberam criar?
A tutela política é a mesma – Ministério da Saúde e seus serviços – e a equipa governativa é a mesma.

No entanto, a testagem em massa – “testar, testar, testar”, lembram-se? – não passou de um anúncio tantas vezes repetido e muito pouco praticado. A resposta dada aos lares de idosos tardou e isso pagou-se com vítimas mortais.

O rastreio das cadeias de transmissão sempre foi errático e pouco fiável e o desconhecimento que daí resultou permitiu que se afirmasse que os transportes públicos ou as escolas não eram locais de contágio.

A famosa app StayAway Covid – lembram-se que o primeiro-ministro a achava tão importante que a quis tornar obrigatória? – não funcionou. Não porque a tecnologia fosse má, mas porque na Saúde ninguém se lembrou que era preciso ter montado um sistema logístico para emitir e fornecer aos infectados os códigos para que estes colocassem na aplicação. Incapaz de resolver o assunto, o Governo preferiu deixar cair a app no esquecimento – teria sido um instrumento óptimo, por exemplo, na sequência de outro “inconseguimento”, os festejos do Sporting.

E até processos relativamente simples e rápidos, como tirar conclusões dos espectáculos-piloto que foram feitos em Abril e Maio nas cidades de Braga, Coimbra e Lisboa, se tornaram tarefas impossíveis de completar. As produtoras dos espectáculos e os municípios suportaram os custos, a Cruz Vermelha colaborou mas tudo desapareceu quando chegou às mãos da Direcção-Geral de Saúde, que prometia resultados em 15 dias mas nem em três meses (no momento em que escrevo estão prometidos esses resultados “para breve”. Vamos ver).

Foi no meio desta sequência de incapacidades e bloqueios que a vacinação se destacou como excepção à triste regra, para nosso alívio. E será da maior utilidade que se perceba porquê, uma vez que estas coisas não são fruto do acaso nem do alinhamento dos astros.

Como recordamos, o processo de vacinação começou aos tropeções com o Governo a entregar a tarefa a Francisco Ramos, um antigo colega do partido que estava ali a fazer uma “perninha” em part-time, enquanto se preocupava também com a gestão do problemático Hospital da Cruz Vermelha.

Que condições foram depois garantidas por Gouveia e Melo quando assumiu a liderança? Que meios humanos e materiais lhe foram colocados à disposição? Quem definiu as regras de funcionamento das equipas? Quem desenhou a logística e garantiu a flexibilidade para a executar? Como fez a articulação com as inúmeras entidades no terreno?

Como se conseguiram as pessoas em tempo útil num empregador, o Estado, onde tudo é lento e burocrático?
Há aqui um caso prático de gestão bem sucedida que deve ser estudado, conhecido e, tanto quanto possível, replicado.

Os responsáveis e decisores políticos deviam ser os primeiros interessados em saber. Por regra, são eles que tomam as decisões que levam a bons e maus resultados. E, como sabemos, têm sido muito mais maus do que bons.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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