O que é que o Covid-19 traz de novo?premium

Haverá sempre quem tente aproveitar oportunisticamente estes momentos para impor as suas ideologias e é isso que temos de evitar. Não podemos dar “rédea solta” aos oportunistas do costume.

Habitualmente costuma dizer-se que as crises, como a actual pandemia, trazem mudanças significativas para a vida das pessoas. Por isso muito se discute nos dias que correm sobre o que é que a actual pandemia vai trazer de novo: a normalidade do teletrabalho e do ensino à distância? O reforço da digitalização? Um modo de vida mais “amigo” do ambiente? o fim do capitalismo? As hipóteses são muitas.

A verdade é que não é fácil perceber o que vai realmente acontecer porque persiste sempre uma dúvida: as crises trazem realmente algo de novo ou apenas aceleram as mudanças que já se estavam a verificar?

Entende-se como crise um “momento decisivo” que leva a escolhas ou a decisões, e neste sentido a Revolução Francesa parece ser um dos exemplos mais paradigmáticos do que é uma crise. Mas a Revolução Francesa serve também como prova de que a História não é clara relativamente ao papel das crises.

A Revolução Francesa durou uma década em que morreu muita gente barbaramente assassinada e, a acreditar na forma como nos apresentam este episódio na escola, terá trazido muita coisa de novo aos franceses. Mas a perspectiva de François Furet, um dos maiores historiadores daquele “momento decisivo”, traz dúvidas a este respeito. Furet tanto via a revolução como um produto do chamado “antigo regime” como o dealbar da civilização em que vivem os franceses.

O que sabemos é que muita coisa do “antigo regime” se manteve após a revolução: o poder absoluto, mas na posse de Napoleão; a perda de poder da nobreza tradicional e a ascensão da burguesia, que já se tinha iniciado muito antes de 1789; ou a centralização burocrática do poder político, que vinha de Luís XIV, como Tocqueville demonstrou. O que nos mostra este exemplo é que a perspectiva sobre as crises pode ser muito diferente, dependendo de onde nos colocarmos. O mesmo se aplica à actual pandemia.

As mudanças realizadas …

A História confirma permanentemente esta ideia. Se pensarmos numa crise que pode ser comparada à actual, como a pandemia provocada pela peste negra, tendemos a associá-la às mortes que causou na idade média. Inicialmente foi uma pandemia que terá durado 7 anos, entre 1346 e 1353, e pensa-se que tenha vindo da Ásia Oriental com as pulgas dos ratos que viajaram com mercadores genoveses para a Europa. Poderá ter sido também uma pandemia chinesa como é a de hoje.

Os seus efeitos foram devastadores, estimando-se que tenha dizimado 30% a 60% da população europeia e que terão morrido entre 100 e 200 milhões de pessoas na Europa e na Ásia, numa população mundial que se estimava em 380 milhões. Comparando com os 3 milhões que morreram no último ano e considerando a actual população mundial de 7 mil milhões, a perspectiva que temos sobre o Covid-19 torna-se muito diferente.

Segundo os historiadores, a peste negra terá dado origem a muitas perseguições a “culpados” pela sua disseminação, como peregrinos, frades, judeus, muçulmanos, leprosos e outros. E teve efeitos económicos significativos pelo grande declínio populacional que provocou na Europa.

Registou-se uma redução significativa da procura de alimentos e, por essa via, a queda nos seus preços. A escassez de mão-de-obra levou também à diminuição da produção de alimentos. A disponibilidade de terra para cultivo aumentou substancialmente e o seu valor caiu. Os proprietários de terras (senhores feudais) substituíram os servos rendeiros, habituais no século XIV, por assalariados, pagando pelo trabalho num esforço para manter a produção, o que levou ao crescimento do rendimento dos trabalhadores rurais (a grande maioria da população) por via de salários.

Uma consequência de todas estas mudanças, segundo alguns historiadores, terá sido o fim do feudalismo na Europa ocidental (no Leste ter-se-ia mantido). Mas porque é que a peste negra provocou o fim do feudalismo a ocidente mas não o fez a oriente? Que outros factores terão influenciado esta evolução a ocidente que não se manifestaram na parte oriental do continente europeu? E como é que tudo isto se coaduna com a ascensão da burguesia mercantil e o crescimento das cidades, que já se fazia sentir vários séculos antes?

O problema é que as explicações do funcionamento da sociedade nunca são simples, tipo causa-efeito, mesmo que queiramos que o pareçam. Os historiadores apenas podem dizer que a peste negra não foi uma crise conjuntural e que os seus efeitos poderão ter ajudado ao fim do feudalismo na Europa ocidental. Mas muitos outros factores terão desempenhado um papel importante nesta transição.

O ensino em Portugal inculca na cabeça dos jovens que a idade média foi uma época de “trevas”, em que dominava a escuridão que promovia a ignorância, o misticismo, a discriminação e, claro, a subjugação da liberdade pela Igreja e a estagnação do progresso promovida pelo fundamentalismo religioso. Ainda hoje estas ideias nos são frequentemente lembradas na televisão e por outros meios, assegurando que elas não nos saem da cabeça.

Mas o extraordinário livro de Rodney Stark “A Vitória da Razão” (ed. Tribuna) mostra que muita coisa mudou na idade das “trevas”, e em muitos casos por acção da Igreja, ao contrário do que é ensinado nas escolas. Os exemplos são variadíssimos, desde a escravatura que foi praticamente abolida na parte ocidental da Europa, a liberdade municipal, a separação entre negócios para rendimento e economia de subsistência, o surgimento da aquacultura que facilitou o consumo de peixe nos períodos de jejum em muitas zonas do interior, a nova divisão do trabalho resultante dos assalariados ou a criação da contabilidade de partidas dobradas, que ainda hoje é usada.

Ao nível da tecnologia, deu-se o aparecimento de moinhos de água (havia 5.624 em Inglaterra em 1086, ou seja, 1 moinho por cada 250 habitantes) e os moinhos de vento, que permitiram o aumento da terra arável pela conquista ao mar na Holanda e na Bélgica, o que possibilitou um aumento considerável da capacidade de produção de alimentos e permitiu o rápido crescimento da população.

Outros desenvolvimentos tecnológicos significativos incluem o arado com rodas, a generalização do sistema de pousio, o relógio mecânico, os óculos, o transportes por terra com estradas melhores, as ferraduras para cavalos, carroças com eixo frontal e travões, atrelagens para várias parelhas de cavalos, a introdução do leme fixo à popa dos navios (até aí inexistente) e até a capacidade de combate com o uso de estribos, selas cavadas, armaduras ou canhões, entre muitas outras mudanças habitualmente ignoradas ou menosprezadas, mas que tiveram um efeito fundamental na História europeia.

… as mudanças adiadas …

Entre todas estas mudanças ocorridas durante a idade média há uma que é particularmente interessante e que torna a confirmar que os efeitos das crises são difíceis de apreender e até se podem fazer sentir a muito longo prazo.

Hoje, é dada como assente a ideia de que as empresas multinacionais surgiram no século XX, originadas pela primeira globalização terminada com a Grande Guerra e desenvolvidas posteriormente, especialmente após o início da segunda globalização nos anos 1980.

Mas ao contrário do que é habitualmente ensinado, foi na época da “escuridão” ou das “trevas” que surgiram as primeiras casas bancárias com filiais no estrangeiro e, por isso, com actividade internacional. Para confirmar esta ideia basta constatarmos que em 1231 havia 69 agências de bancos italianos em Inglaterra, provavelmente mais do que há hoje, e que realizavam empréstimos a Reis, nobres, clero e burguesia, além de outras operações como o recurso a letras de câmbio que funcionavam como um sistema de pagamentos e possibilitavam a transferência entre fronteiras de grandes quantias de dinheiro.

Do mesmo modo, o aparecimento dos empréstimos bancários pode parecer estranho a quem foi ensinado, talvez pela leitura interpretativa de obras de Gil Vicente, que a proibição da remuneração de credores era mais uma evidência do obscurantismo que caracterizava a Igreja. A realidade, porém, é que era a própria Igreja, e especialmente as suas ordens religiosas e os seus mosteiros, os que mais o praticavam.

S. Tomás de Aquino foi um dos pensadores católicos que justificou moralmente os lucros e que admite que os credores devem ser compensados, apesar de condenar a usura. Mas naquela época era legítimo, e praticado a todos os níveis hierárquicos da Igreja católica, compensar os credores pelas oportunidades que perdiam por não dispor do seu dinheiro, a que hoje chamamos “custo de oportunidade” e que, no caso concreto, se reflectia no custo do dinheiro, i.e., o juro.

Estes dois episódios mostram bem como as raízes do capitalismo são muito anteriores ao protestantismo ou a Adam Smith e ao iluminismo. Apesar do retrocesso registado em períodos posteriores, especialmente durante o iluminismo que promoveu o absolutismo mercantilista em que os Estados tudo centralizaram, estas foram mudanças que se fortaleceram até aos dias de hoje e que nada tiveram a ver com a pandemia.

Pouca gente sabe que a peste negra retornou muitas vezes em surtos, alguns deles muito graves, e que persistiu até ao início do século XX, tendo morrido ainda muitos milhões de pessoas para além das que morreram no século XIV. Tendo durado mais de meio milénio é difícil discernir que mudanças é que a crise da peste negra trouxe e quais é que já estavam a decorrer.

Da mesma forma, há 100 anos houve uma pandemia da “gripe espanhola” no fim da Grande Guerra, mas muita coisa já estava a mudar nessa altura: o fim da 1ª globalização, que trouxe a ascensão do proteccionismo e dos totalitarismos comunista e fascista, as crises económicas severas que a alimentaram e a continuação da guerra mundial em 1939. Tudo isto ocorreu, mas nada disto se deve à influenza.

… e as mudanças (in)desejadas

A actualidade confronta-nos com uma situação semelhante. Nada garante que a pandemia vá desencadear um conjunto significativo de mudanças, ou pelo menos de mudanças que não estivessem no “horizonte” e em vias de acontecer.

A História é contada para indicar que as crises trazem grandes mudanças sociais. Mas será mesmo assim? Ou será que são os que desejam uma nova sociedade - e que o confundem com “progresso” – que pretendem aproveitar-se da instabilidade e da incerteza gerada pelas crises para impor mudanças sociais que não só não estavam a ocorrer como nem sequer são necessárias?

As “buzzwords” da actualidade, como o ambiente e a digitalização, parecem confirmar esta ideia. Note-se que nenhum dos dois temas é propriamente uma novidade, pois já nos acompanham há mais de 30 anos e que ainda nos vão acompanhar por muitas mais décadas. Ambos os processos influenciam significativamente as nossas vidas de diferentes modos e requerem mudanças, mas os que em nome delas defendem alterações rápidas e radicais estão pouco preocupados com o bem-estar dos seus semelhantes. A verdade é que só se muda radicalmente uma sociedade em pouco tempo pela força revolucionária que nada respeita e tudo destrói.

As mudanças que se estão a realizar em qualquer uma destas duas áreas são necessárias, mas aconselham a que haja um gradualismo e que se recorra aos instrumentos e às instituições ao dispor das nossas sociedades para solucionar os problemas que lhes estão associados. Esta atitude não é consentânea com pensamentos e desejos utópicos de destruir a organização da nossa sociedade para implantar um mundo diferente baseado no “homem novo”.

Infelizmente, muitos dos que estão no ou próximos do poder estão a alimentar a ilusão de que é necessário mudar tudo, e depressa, porque o Mundo vai acabar. Deixam-se influenciar pelo discurso das “oportunidades” que trazem as crises e pelas utopias irrealizáveis do “bom selvagem” que é por natureza generoso, e que apenas deseja o bem dos outros.

Perante este discurso ilusório, não recorrem aos instrumentos existentes e já testados para implementar as mudanças necessárias e preferem embarcar em novas visões, perdendo-se em considerações estéreis sobre os grandes desafios que a humanidade defronta. Na verdade, muitos destes são os que querem usar esta crise para acabar com os mecanismos de mercado e com o capitalismo descentralizado, fingindo-se desinteressadamente generosos na busca do bem da sociedade.

Felizmente, sabemos que crises não significam necessariamente novas oportunidades que conduzem a mudanças sociais. Mais, sabemos que estas mudanças são indesejáveis quando guiadas pela utopia e pelo sensacionalismo das “urgências inadiáveis” e das “catástrofes anunciadas” pelos oportunistas do momento. E sabemos que haverá sempre quem tente aproveitar oportunisticamente estes momentos para impor as suas ideologias. Sabemos isso e é isso que temos de evitar. Não podemos dar “rédea solta” aos oportunistas do costume que andam por aí.

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