A pandemia faz-nos ver que em tempos de “vida normal” dependemos da China e que em tempos de “vida anormal” estamos nas suas mãos.

O novo coronavírus veio pôr a nu perante nós, mortais comuns, a desmesurada dependência que o Mundo tem da China. Pois ela não é de hoje, nem de ontem, nem de março nem sequer de dezembro. Na verdade, a escalada chinesa teve início nos anos 80. Desde aí, tem evoluído vertiginosamente. Sempre, diga-se, com a bênção e a parte activa dos Estados Unidos e da nossa Europa.

Nessa altura, o Ocidente decretou o achado da China. Para os CEO’s das grandes empresas norte-americanas e europeias, a estratégia desenhava-se evidente: A deslocação das suas linhas de produção para a China viabilizava uma redução drástica dos custos proporcionando uma maximização milagrosa do lucro. Um verdadeiro oásis. Plantado por um regime sem autoridades para as Condições do Trabalho, com ordenados miseráveis e práticas de exploração da Condição Humana que, à época, não eram conhecidas em pleno. E que, em boa verdade, o Ocidente, enquanto pôde, também não quis ver. Foi assim que as empresas pouparam milhares de milhões em mão de obra que utilizaram para expandir as suas marcas e distribuir mais dividendos. E foi assim que os consumidores passaram a ter acesso a produtos muito mais baratos. De tal forma, que os hábitos de consumo se alteraram para todo o sempre.

Nem os Estados Unidos nem a União Europeia fizeram qualquer esforço no sentido de impedir que as cadeias de produção das suas empresas escapassem para solo chinês. Não o fizeram porque não foram capazes de antecipar que esta milagrosa máquina industrial era só o primeiro passo da escalada da China. Muito menos tiveram a visão de alcançar os efeitos perversos que, no seu todo, essa escalada, a longo prazo, viria a significar para todos nós. Esqueceram-se de que não há milagres.

O desastre financeiro de 2008 abriu os olhos ao presidente norte-americano, que trouxe de volta a Ford e a General Motors para os EUA, e a alguns líderes europeus que seguiram o seu exemplo. Mas esta resposta tardia não chegou para recuperar a classe média norte-americana do duro golpe. Nem tão pouco para fazer recuar as ambições chinesas.

Pelo seu lado, a China foi aplicando com astúcia os ganhos desta imigração industrial. Tornou-se líder mundial em exportações e, em e-commerce, saltou dos 0,5% de 1980 para os 43% de hoje. As suas tecnológicas destronaram as tecnológicas norte-americanas e europeias. Ainda que, muitas vezes, alegadamente, à custa de alegas práticas criminosas como a espionagem comercial patrocinada pelo próprio Governo chinês.

Passo a passo, foi engordando o peso do seu PIB no PIB mundial, que em 1980 era de 2%, para os actuais 19% afirmando-se como a segunda economia mais forte do mundo. Em paralelo, tornou-se o segundo maior credor americano e, num passado mais recente, aproveitou a débâcle de 2008 para se tornar também credor de grande influência em muitos países da União Europeia. E ainda em paralelo, recorreu à sua rede de empresas públicas para alcançar posições qualificadas nas empresas de referência de muitos países europeus.

No contexto concreto nacional, temos os exemplos da Fidelidade, Luz Saúde, REN, EDP ou BCP. Dissimuladamente, o Governo chinês, foi conquistando uma posição qualificada na própria economia europeia. Sempre, diga-se, com anuência, no mínimo tácita, de muitos dos Governos da União Europeia. O golpe final do grande plano chinês, a sua nova rota das sedas, será a instalação iminente das redes de 5G, que dará à China também o controle das nossas telecomunicações.

Nesta pandemia negra, esta dependência trágica tem vindo a castigar-nos duramente. Em Espanha, os nossos vizinhos foram obrigados a devolver os milhares de testes comprados à China. Não funcionavam… Portugal aguarda, há mais de um mês, pelos 500 ventiladores que já pagou aos chineses. É suposto admitirmos que as vidas portuguesas, espanholas, europeias, estão nas mãos de empresas chinesas? A economia europeia não serve para produzir testes? Não há ninguém aqui mais perto que possa produzir uns parcos 500 ventiladores? Como foi possível termos chegado a este ponto? A falta de estratégia para a permanência das linhas de produção na união europeia trouxe-nos até aqui. A economia europeia, visionária, evoluiu na via única dos serviços. Deixou de produzir. E, neste tempo de crise sem precedentes, em que o que precisamos são simples máscaras, toucas, desinfectantes, material de protecção, testes e ventiladores, mostrou-se aflitivamente incapaz.

A pandemia faz-nos ver que em tempos de “vida normal” dependemos da China e que em tempos de “vida anormal” estamos nas suas mãos. Não estamos a discutir apenas a dependência económica de um mero fornecedor. Trata-se de um domínio global. E o domínio é sempre perverso para o dominado. Mais ainda se pensarmos que o domínio chinês não representa o mesmo que um domínio europeu ou mesmo um domínio americano. Por várias razões:

  1. A República Popular da China é um regime assumidamente autoritário. As suas eleições são uma mera formalidade. O acesso à internet é censurado. A resposta do Governo Central, quando confrontado com uma possível crise de saúde pública, deu-nos provas disso mesmo. Decidiu prender e interrogar os investigadores que alertaram para a gravidade da situação, ameaçando-os com o intuito claro de os silenciar. Demorou semanas a informar os seus cidadãos, expulsou do seu país vários jornalistas estrangeiros, negou os factos durante quatro semanas e ocultou informações essenciais à OMS. Em Wuhan, noutra vertente do seu autoritarismo, soldou as fechaduras de muitos prédios para obrigar os residentes à quarentena. Por tempo indeterminado, sem querer saber de mantimentos nem condições. A sua polícia bateu à porta das pessoas e levou, contra a sua vontade e sem explicação, todas aquelas que tinham febre. Ao mundo, mentiu, desde o início e em tudo. Na origem do vírus, onde chegou a afirmar ter sido plantado por soldados americanos na China. Nos números de infectados e de mortes, que só revelaram uma parcela parca da realidade, criando todas as condições para a subvalorização da pandemia. Nas mensagens de confiança aos vários líderes mundiais em que Xi Jinping garantiu não ser necessário fechar as ligações aéreas. E continua a querer mentir uma vez que a publicação da pesquisa académica chinesa está, a partir de agora, dependente de autorização do Governo. É este regime, é este nível de autoritarismo, que estamos a deixar estabelecer-se como a nova ordem mundial.
  2. O regime chinês despreza a Condição Humana – Por razões ideológicas, enjaula muçulmanos em verdadeiros campos de concentração. Por razões de eficiência económica, explora os seus cidadãos em condições de trabalho sub-humanas que, noutros países, são tidas como criminosas. Assim, com os que supostamente são os seus parceiros económicos, pratica uma concorrência criminosamente desleal.
  3. Sabemos que a China promove práticas cruéis, de higiene duvidosa, como nos mostraram as imagens que nos foram chegando dos mercados de Wuhan. Poderemos nunca chegar a saber a saber se o coronavírus surgiu no dito mercado ou se escapou de um laboratório. Neste contexto, pouco importa. É sabido que essas práticas, além de bárbaras e porcas, podem originar vírus mortíferos. Como em 2002, com o SARS. Em 2019, a bem da saúde pública mundial a começar pela sua própria, a China não se dignou a alterar uma linha nas suas práticas. A origem do COVID-19, se não foi esta mesma, podia muito bem ter sido. E é esta mesma China que tem um papel de destaque na Organização Mundial do Comércio, da Organização Mundial de Saúde, onde é o segundo maior financiador. E é esta mesma China que controla quatro das principais catorze agências internacionais das Nações Unidas. Podemos aceitar que tenha este peso, se, assumidamente, nem sequer cumpre simples normas de higiene que todos os outros países têm de cumprir? A Europa não pode aceitar ver os seus cidadãos a morrer, os seus serviços de saúde a colapsar e as suas economias a desaparecer, só porque a China não quer submeter-se a normas de higiene básicas.
  4. Tudo isto nos leva a acreditar que a China, agora já livre da pandemia que, na posse da informação que não deu ao mundo, pôde combater com toda a eficácia, se apresentará, agora, pronta para voltar ao trabalho aproveitando, perante o resto do mundo ainda imerso em plena luta, desta vantagem competitiva. Admitindo que o surgimento do coronavírus tenha sido negligente, o posterior encobrimento e a falta de transparência do Governo chinês em todo o processo, foram deliberados. É por isso que a posição de vantagem que a China detém agora é imoral. E, insisto, temos tudo para acreditar que o Governo chinês não terá problema nenhum em utilizá-la em seu favor.

Estas as razões parecem-me ser, pois, mais que suficientes para evidenciar a ameaça perversa que um domínio chinês representa.

A União Europeia está, pois, obrigada a acordar e a repensar a sua relação comercial com a República Popular da China.

  1. É urgente reconstruir a sua independência produtiva recuperando uma parte importante da sua cadeia de produção. Não basta deslocá-la da China para a Índia ou para outras alternativas habituais – Bangladesh, Indonésia, Malásia, por exemplo. A Europa tem de ganhar autonomia produtiva. E não pode ser só o consumidor a pagar o retorno das produções para a UE. A única maneira de o fazer será criar incentivos efectivamente fortes para que as empresas europeias aceitem trazer as suas fábricas de volta para a Europa.
  2. Esta política de incentivos tem de ter especial foco nas empresas dos sectores tecnológico e da saúde. Em relação à saúde, a razão da urgência está, infelizmente, à vista de todos. Não há país nenhum que não dependa da produção chinesa para lutar contra a pandemia. Quando se trata de lutar pela própria vida e, não só pelas condições em que a vivemos, não podemos deixar-nos ficar nas mãos de terceiros longínquos. Em relação ao sector tecnológico, não existem dúvidas de que é nele que reside o poder supremo. Em 10 anos, os Estados Unidos e a União Europeia preparam-se para perder, de forma vexatória, a dianteira. Basta olhar para a evolução do mercado de smartphones nos últimos 10 anos para ter noção da dimensão da derrota.
  3. É evidente que, optando por este caminho, os preços dos produtos vindos da China vão continuar a ser muito competitivos, se não ainda mais. Ora, daquilo que vou recolhendo, os consumidores europeus de, por exemplo, smartphone’s da Huawei vivem igualmente felizes quando comparados com os utilizadores de iPhones. Talvez, justamente, porque pagaram bastante menos. Ainda que a Apple não seja europeia, o raciocínio estende-se também às empresas europeias independentemente do sector. Que, com o retorno das suas produções à União Europeia, vão cumprir as leis de trabalho que a China não cumpre e não vão ter os seus Governos a promover a espionagem comercial para as tornar mais fortes. Só por isto, os seus produtos terão de ser forçosamente mais caros que os produtos chineses. Logo, mesmo com os ditos incentivos, será inevitável a imposição de tarifas suplementares à China.
  4. A UE terá de arranjar mecanismos que impeçam a China de continuar a conquistar posições qualificadas nas estruturas de capital das empresas europeias. É oportuno relembrar o cenário pós-crise de 2008. A China aproveitou a fragilidade das economias europeias para nelas conquistar, a preços de saldo, uma posição qualificada através da compra de grandes percentagens de empresas de referência reforçando o seu poder de influência. A Alemanha foi excepção, soube antever este cenário e limitou a participação de investimento chinês na estrutura acionista das suas empresas. Nada nos garante que, desta vez, as grandes empresas, na necessidade urgente de capital, vão saber dizer não à ajuda chinesa. Margrethe Verstager, Vice-Presidente da Comissão Europeia, já nos alertou, e bem, para este risco e garantiu que ia avançar com uma proposta para blindar as empresas europeias. A proposta assentará no princípio de que, no caso de as empresas terem necessidade de capital, deverá ser o Estado a assumir essa posição. Graças a Deus, naquele que pode ser o negócio do ano em Portugal, a venda de 80% da Brisa, a poderosa China State Construction Engineering Corporation parece ter ficado de fora.

Posto isto, duas notas.

A primeira é a de que, apesar de parecer evidente que a China teve responsabilidade no galopante contágio do vírus e de, por isso, ser natural que comecem a surgir vozes a exigir responsabilidades, a verdade é que esta não é, de todo, a altura de o fazer. Muito menos de iniciar represálias – deixar de pagar juros de dívida, nacionalizar as participações chinesas em empresas europeias, retirar a China da Organização Mundial de Comércio ou até iniciar processos judiciais não são discussões para agora. Pela simples razão de que, no curto prazo, em nada ajudarão a resolver a pandemia.

A segunda é a de que, se a União Europeia não sobreviver aos efeitos desta pandemia efectivamente unida, tudo aquilo que aqui defendo dever ser feito pela Europa para reverter a escalada chinesa deixa de ser possível. Neste sentido, impõe-se que os principais responsáveis europeus acordem neles a réstia de liderança e sentido de estado que não têm mostrado e respondam, dignamente, com verdadeiro espírito de união, a esta emergência pandémica que ameaça as suas economias e a própria economia europeia. Sem demoras, têm de apresentar aos cidadãos europeus um plano económico assertivo e concertado que seja resposta efectiva às reais necessidades. Se o caminho continuar a ser produzir consecutivos remendos, a União Europeia sobreviverá enfraquecida e sem poder.

Em suma, espera-se que a União Europeia, no devido tempo, ressurja preparada, concertada e verdadeiramente unida para um cenário de guerra económica contra o regime totalitário chinês. Que o faça pela sustentabilidade da sua subsistência e pela subsistência da sua dignidade. Espero, sinceramente, que o tão desejado aparecimento da vacina não nos faça continuar a querer ignorar tudo isto.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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