A política não é para meninos

José Miguel Júdice analisa, no Jornal das 8 da TVI, o debate entre Santana Lopes e Rui Rio. Foi quase um Ko técnico, mas Santana vai ganhar? Talvez não...

Contra todas as expectativas Santana Lopes pode ganhar as eleições do PSD. Porquê?

  • Porque quem vota são 70 000 ‘laranjinhas’, os fiéis entre os fiéis, os clubistas entre os clubistas, os que salivam de desejo de se vingarem do “golpe de Estado” do PS em 2015, os que não perdoam aos “traidores” nem aos que ousam criticar a agremiação? Sim, claro, mas…
  • Porque Rui Rio é um mau candidato, uma espécie de contabilista promovido a político, porque tem tanto jeito para a arte da política como eu tenho para levantar pesos e halteres? Sim, claro, mas…
  • Porque Rui Rio não provoca empatia, critica para dentro em vez de atacar para fora, porque tem lábios fininhos o que sugere pessoa azeda, porque não sabe rir ao menos em público, porque parece estar sempre com dor de dentes, e porque não tem jeito para comer carne assada em comícios, não aprecia a vida partidária, nem parece ter alegria de viver? Sim, claro, mas…
  • Porque a Santana Lopes os ‘laranjinhas’ perdoam tudo, porque é empático, gosta mesmo de carne assada, gosta do PPD/PSD e dá gargalhadas sonoras, é lá da casa e exprime melhor o PPD suburbano, rural, feito de “self-made men”, de mulheres que vibram com a bandeira e guardam fotografias de Sá Carneiro na carteira? Sim, claro, mas…
  • Porque Rui Rio tem uma maneira de ser “sonsa”, de atacar a fingir que o não faz, de insinuar em vez de dizer, de não encaixar ataques pois a sua alegada superioridade moral não lhe permite tolerar críticas, e isso desagrada aos ‘laranjinhas’ de sempre? Sim, claro, mas…
  • Porque o “trapalhão” Santana Lopes se preparou para o debate da passada semana e o “rigoroso” Rui Rio tratou com desleixo o adversário, o que permitiu ao primeiro ganhar quase por KO técnico? Sim, claro, mas…

Mas sobretudo por uma razão: e ela chama-se POLÍTICA. Com todos os seus defeitos (e Deus sabe, como sei eu e tantos outros, que são muitos…), Santana Lopes é político, como Mário Soares, António Costa, Sá Carneiro e, já agora, Marcelo Rebelo de Sousa. E a política não é para meninos, como tantas vezes já disse.

E com todas as suas qualidades (mas para além de ser honesto, sinceramente não encontro muitas mais, mas deve ser defeito meu…), Rui Rio não tem jeito nenhum para a política, como o não tinham João Salgueiro, António José Seguro ou Sousa Franco.

Por isso, dá-me vontade de rir que algumas virgens ofendidas ou desanimadas (que também as há, mas em regra são falsas virgens…) venham rasgar as vestes em público e no Diário de Notícias e chorar por um mundo alternativo onde os debates não seriam brutais, onde se não bateria onde dói, onde se discutem ideias (mesmo entre os que as não tenham) e onde tudo são “a bondade e as danças…” e, claro, “o melhor do mundo são as crianças”.

Nunca foi assim: vejam Churchill, para não irem mais longe; vejam como o “gentleman farmer” Jorge Sampaio destroçou o político Marcelo e lhe roubou a Câmara de Lisboa. Vejam como António Costa desfez Seguro. Foi bonito? Não. Mas, como no futebol, na política é assim, e quem não goste (é desde logo o meu caso) não se mete nisso.

Quer isto dizer que Santana Lopes vai ganhar? Continuo convencido de que o mais provável talvez não seja isso… Se Rui Rio fizer a Santana Lopes o que Reagan fez a Mondale, no segundo debate depois de ter perdido o primeiro.

Quer isto dizer que Santana Lopes é um grande candidato para dar a vitória ao PSD em 2019? Santo Deus, algo acredita nisso? Mas o que quer dizer é que, visto de dentro do PSD, é o melhor para enfrentar Costa e bater-se com ele de igual para igual.

E há alguma razão nessa convicção, pois Rui Rio já parte derrotado. Como os intelectuais urbanos que enfrentaram Sá Carneiro em 1978, que diziam dele o que Maomé não dizia do toucinho, e vieram um ano mais tarde a engoli-lo como vencedor nas legislativas com maioria absoluta. Rio está a fazer campanha para ser o aliado júnior de uma coligação com o PS (e a gaffe da entrevista desta segunda-feira também não ajuda…). E isso nota-se…

E, curiosamente, o PS e Belém já perceberam o risco da vitória “do Lopes”, como demonstraram Vieira da Silva e Marques Mendes ao trazerem o tema da Santa Casa a querer investir no sistema financeiro. Eu andei a falar sozinho disso durante um ano. Trouxeram agora o requentado tema para dar uma mãozinha a Rui Rio. E isso nota-se…

Seja como for, é evidente (e também para os laranjinhas) que estes não eram os candidatos de que o PSD necessitava. Mas se os havia melhores, não arriscaram. E a política é para os audazes e não para os só jogam pelo que acham ser o seguro.

O Pacto da Justiça

Uma boa notícia, apesar de não ter havido a unanimidade que foi alcançada no primeiro Pacto, o que se assinou em 2003, no âmbito do Congresso da Justiça. Talvez por isso ninguém (a começar pelo Presidente da República) se lembrou de recordar esse pioneirismo….

O Cantinho das Tontices

Rapidamente, porque o tempo escasseia:

  • Helena Matos, no Observador, revelou (ainda me estou a beliscar para ver se afinal sonhei apenas…) que Fernando Medina evitou greve da limpeza urbana no Natal em Lisboa, dando (e cito) “uma grande vitória” ao Sindicato STAL: “subsídio de trabalho noturno durante as férias” (incluindo retroativos de 5 anos). A seguir, como é evidente, virão novas greves já anunciadas, para já “apenas” para a vitória nos subsídios de insalubridade, penosidade e risco durante as férias.
  • A ida do Infarmed para a Porto continua como cliente regular deste cantinho: quer vá quer não vá…
  • E a lei do financiamento partidário também continua, para lembrar que os deputados votam esses temas em conflito de interesse (curiosamente ninguém reagiu quando falei disso há uma semana…) e o Presidente da República talvez deva dizer algo sobre isso.

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António Costa

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