Greve à gasolina e o Governo de carbono

O estado de excepção foi decretado pela versão nacional do “Comité Cobra” -- um Conselho de Ministros Electrónico.

Portugal vive na iminência de uma catástrofe. Nada de pânicos ou consolações, o país está confrontado com uma espécie de Apocalipse Zombie ou Guerra dos Mundos, basta observar o rosto sério dos Ministros politicamente menos sérios. Filas nos postos de abastecimento, racionamento de combustível, declaração do estado de “Emergência Energética”, mobilização das Forças Armadas, Polícia, Bombeiros, é o cenário que normalmente antecede uma Grande Invasão que ameaça a existência material e cultural de uma Nação.

O estado de excepção foi decretado pela versão nacional do “Comité Cobra” — um Conselho de Ministros Electrónico. Todas estas medidas destinam-se a enfrentar a greve por tempo indeterminado anunciada pelos condutores de veículos de transporte de matérias perigosas, nomeadamente, gasóleo, gasolina e derivados. Há alguma perplexidade ao verificar que os motoristas do Estado e ao serviço do Governo não integram este sindicato, pois na realidade o transporte de um Ministro representa uma matéria politicamente perigosa para os portugueses e para o País. Mas nada de moralismos ou excessos de zelo.

A indignação continua a prosperar pelo ataque do Governo ao direito à greve que, em Portugal, é um eufemismo para evocar um direito superior a todos os outros, o predomínio dos interesses particulares em detrimento dos interesses gerais, mas tudo no superior benefício do interesse geral. Ou seja, a greve acaba por ser a expressão de um monopólio e uma versão legal da chantagem e do vandalismo social. Há também o direito à mobilidade do cidadão contribuinte e na circunstância própria do Governo, o direito do PS a ganhar as eleições. A Oposição não existe, logo não tem opinião.

Estes direitos são impossíveis de conciliar pacificamente, e daí o alarme, o pânico e a vernacular hipocrisia. Há alguma melancolia quando se imagina as auto-estradas vazias dos grandes petroleiros do asfalto e o País lentamente a asfixiar privado do Carbono que ascende à atmosfera numa celebração da Revolução Industrial. Ironia das ironias é ter sido o Ministro do Ambiente a anunciar a “Emergência Energética”, o mesmo Ministro que tanto fala na “Descarbonização da Economia” e que subitamente vem garantir pela acção do Estado a Carbonização da Economia.

Esperava-se por coerência política que os Ministros recorressem a scooters eléctricas, bicicletas, cockpits compactos movidos a electricidade para reforçar o efeito não intencional da greve à gasolina – um contributo activo para a redução dos gases com efeito de estufa responsáveis pelas Alterações Climáticas. A política não é apenas o malabarismo das palavras, de tal modo que o Governo Verde se vê na contingência de assimilar e cumprir a função do Governo Carbono.

O que a greve à gasolina vem demonstrar à saciedade é a ligação do Carbono à vitalidade, ao movimento, à prosperidade e à riqueza produzida pela fábrica económica da Nação. A absoluta contradição em Portugal e no Mundo é que a ideia de uma “Emergência Climática”, o objectivo de se atingir o nível das “Emissões Zero” acaba por representar a falsa consciência dos Governos que não têm alternativa para os combustíveis fósseis, mas que no entanto insistem num discurso virtuoso sobre o controle e domínio das Alterações Climáticas, sem sequer simplesmente saberem das alternativas e das consequências.

O espectáculo das auto-estradas cobertas por uma densa vegetação verde, o cenário das estações de serviço abandonadas como cidades fantasmas, a película de um filme catástrofe em registo pós-industrial na rotina de uma estética Mad Max. Que faria o Governo da República se um grupo de Activistas Climáticos bloqueasse a saída das refinarias? Ou que o mesmo impedisse que os petroleiros acostassem nos portos nacionais? Não existe uma Requisição Civil, nem uma Providência Cautelar, contra o Aquecimento Global. A grande epidemia Global é que o Mundo está viciado em Carbono, frutos tropicais e viagens exóticas a preços de ajuste. O Capitalismo Global está refém do Carbono, tal como toda a civilização do conforto e da abundância depende do Carbono.

O Modo de Produção Capitalista precisa com urgência de uma fonte de energia alternativa, inesgotável, transparente, invisível, perfeita, o combustível que suporta a eternidade dos Céus e do Paraíso. A greve à gasolina é uma visão do Inferno, o tráfico dos interesses sem a mínima consciência das implicações, das consequências e da dimensão simbólica de um gesto mecânico. Se um português deixar o automóvel retira 2.4 toneladas de Carbono por ano da atmosfera; se um português se tornar vegetariano elimina 0.8 toneladas de Carbono por ano da atmosfera; se um português optar por não ter um filho suprime 58.6 toneladas de Carbono por ano da atmosfera. Mas não estamos em pleno “Inverno Demográfico”? É a agonia das escolhas políticas.

Há todo um imaginário cultural associado à estética das auto-estradas. Longas estrias de asfalto negro na paisagem que nos conduzem ao destino certo. O fascínio impessoal de uma estação de serviço na segurança de um trajecto desconhecido. Parecem aeroportos que reúnem no seu interior todo o tipo de gente em trânsito e originários de todas as paragens. Sendo um não-lugar, a estação de serviço é um Atlas da Natureza Humana e uma verdadeira Catedral do Carbono.

(O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico)

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