Lisboa e a Sinfonia de um Futuro Inquieto

O Presidente da Câmara vive numa era posterior àquela em que a Cidade vive. O Presidente da Câmara não é o Homem na Cidade.

A Câmara de Lisboa não é dona da Cidade. E a Baixa não é uma reserva das exigências e dos preconceitos do seu Presidente. Tal como os cidadãos de Lisboa não são figurantes de um parque temático denominado por Zona de Emissões Reduzidas. Reduzida é a imaginação jesuítica do Presidente, impulsionado pelo intervalo burocrático e deslumbrado da Cidade Verde da Europa. A passagem breve de uma brisa sem continuação.

Da janela do escritório consigo distinguir doze gruas imponentes contra o rio, uma espécie de reproduções da Torre Eiffel, sem vistas deslumbrantes, mas com os cabos e os movimentos orientados para transformar a superfície da Baixa numa clareira de angústia e num investimento soberbo e especulativo. Estes novos velhos espaços são Zonas Livres de Lisboetas, Zonas que figuram nas páginas do imobiliário do “Financial Times” e “The Economist”, oferecendo Vistos Gold e apartamentos a um milhão de euros. Perfeito, é o progresso, é o segredo mais bem guardado da Europa, é o Sol e a segurança que não existe no Norte de África depois da Primavera Árabe e que desvia o Turismo para este porto azul na curva do Atlântico. Os Lisboetas perderam-se na névoa da Cidade, perderam-se na sirene dos navios, passam pela Baixa como estrangeiros, passam pela Baixa como ilhas humanas desprendidas do Rio – os Lisboetas são um barco supérfluo à superfície de tudo.

A metafísica da Câmara está na estatística dos números. A Baixa como uma Zona Livre de Automóveis, uma imensa planície de pedra branca de onde subitamente se evaporam 40 mil carros. O fascínio modernista sobre a máquina dá lugar ao ódio irracional sobre a máquina, uma política monoteísta que evoca a ciência mas não tem estudos, uma política de pedestal romântico para salvar o Planeta com o exemplo de Lisboa. Que importa para onde vão as 40 mil viaturas se o que está em causa é o futuro da Humanidade, mas não o futuro dos Lisboetas. Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, escorregam por ela como se fosse deserta. Lisboa é uma terra alheia, uma breve notícia de um fim que não promete um novo recomeço.

Se os Lisboetas não podem entrar na Zona, então a Zona é a Ilha da Fantasia em que aportam os grandes Navios de Cruzeiro – um único Navio de Cruzeiro é o equivalente ambiental à circulação de 20 mil automóveis. Se os Lisboetas têm horários de empregados nocturnos, então a Zona é um Recinto de Recreio dos hóspedes dos Hotéis que deambulam a futilidade trágica da afluência concretizada em selfies exóticas tiradas num País tristonho que disfarça as olheiras mal dormidas de uma prostituta que não existe à luz do dia. O Presidente da Câmara deveria ter a imaginação dos corvos imponentes no símbolo da Cidade.

A Baixa é um conjunto edificado único na Europa, um museu natural onde o espírito humano regista o talento e a inteligência da arquitectura do Iluminismo. Um segmento de cidade que em si mesmo é a ideia da Cidade. Depois de anos de incúria, de degradação, de esquecimento, depois do pesadelo exorbitante dos subúrbios desumanizados, a Cidade é descoberta não pelo valor intrínseco que tem, não pela identidade inscrita em cada pedra de cada rua, mas pelo seu valor comercial mais básico, numa expansão desconsolada que dói na vida de cada Lisboeta. Vender Lisboa não é amar Lisboa. Divulgar Lisboa com a falsa santidade da emoção estéril e do cálculo político mais imediato, não é divulgar a Cidade, mas colocá-la na tenda de um Circo como uma faísca em tempo de sonhos, como uma faísca que atrai o firme fluxo dos euros. O Turismo nunca é demais, porque os lucros nunca são demais. A cegueira primária do numerário vindo de um Executivo Socialista é uma imitação abundante de uma ideia estranha, fútil, comercial, uma afirmação directa e nua de uma evasão consciente e sinuosa – Lisboa transformada pela canonização da imagem de uma mercadoria.

Nos reflexos violeta do Céu em tons de Azul e de Branco, na distância da altura em que o Rio se confunde com o Céu, acontece em Lisboa um extraordinário espectáculo que é um milagre ou a simples preguiça de Deus. As Gaivotas expulsas da margem do Rio pela glória de um Passeio Público voam agressivas em perseguição dos Pombos da Cidade. Os Pombos voam em círculos apertados e em espirais descendentes, desenham com o tinteiro das asas o desejo de sobreviver ao génio carnívoro das Gaivotas. Na realidade que a inteligência odeia, em certas tardes tardias que alastram pela Cidade, uma Gaivota orgulhosa ingere como substância quimérica a carne fresca de um Pombo. Não são tardes de sossego na Baixa da Cidade. O Presidente da Câmara vive numa era posterior àquela em que a Cidade vive. O Presidente da Câmara não é o Homem na Cidade.

Os Eléctricos de Lisboa são Amarelos e percorrem os carris de bronze inscritos com Arte no território da Cidade. A derradeira Zona de Emissões Reduzidas seria o último sacrifício pedido aos Lisboetas – pois que cada Lisboeta pare de respirar, pratiquem a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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