A agenda oculta do nosso bem-amado Presidente

A tentação do maior comentador de todos os tempos pode prejudicar quem tem tudo para ser o maior Presidente da República de todos os tempos.

Depois de férias, quase que me apetecia fazer um daqueles comentários leves e superficiais que abordassem sete ou oito temas, incluindo as últimas do futebol, sucessos de portugueses no mundo, festas populares e romarias. Por exemplo:

  • Falar da luta pelo poder na Igreja Católica, da relação entre percentagem de padres pedófilos e a recusa de homens e mulheres casadas serem padres, para não falar da preocupação do Papa com os plásticos no mar.
  • Falar da batalha naval entre pescadores franceses e ingleses, no canal da Mancha, por causa da pesca de vieiras (Coquilles ou Shells S. Jacques, o nome já anuncia conflitos…).
  • Falar da aproximação, na Alemanha, entre as ideias do partido de extrema-direita AFD e as da senhora Wagenknecht (líder parlamentar do partido de extrema-esquerda, Die Linke) e o que isso prenuncia (como já acontece em França entre Le Pen e Melechon e começou na Grécia).
  • Falar da “repolanização” em curso (Estado a comprar bancos e outras grandes empresas estrangeiras) por decisão do partido radical de Direita que governa a Polónia.
  • Falar da esquizofrenia mansa do PS quanto à saída da Grécia do programa de austeridade e quanto à saída de Portugal em 2013.
  • Falar da divergência entre os socialistas franceses e os portugueses quanto a ser ou não brutal carregar nos impostos indiretos.
  • Falar do tema dos refugiados e do facto de, segundo afirmou António Vitorino, os negócios com refugiados movimentarem a nível mundial mais dinheiro para branquear do que a droga.
  • Falar da reação forte presidencial (“não berrem”) à “ousadia” do CDS em tomar iniciativas na Venezuela, que exprime toda uma estratégia política para o próximo ano.
  • Falar do partido de Santana Lopes e do dilema que habita o antigo líder do PPD/PSD.
  • Falar da escolha do próximo ou do mesmo Procurador-Geral da República e o que isso dirá sobre se é o Presidente ou o PM quem manda.
  • Falar do silêncio veraneante de Rui Rio e do seu ataque ao tribalismo e despesismo das bases social-democratas.
  • Falar dos 65 milhões de euros que vão pagos por todos nós para ajudar o PS a ganhar as eleições daqui a um ano onde há mais votos. E, claro…
  • Falar das eleições brasileiras, da mudança de hora, da falta de golos de Ronaldo e de tantos mais temas essenciais.

Mas não quero nem sou talvez capaz de escolher essa via. E não me tenho dado mal com isso, pelo que agradeço a quem está aí em casa. Vamos então selecionar dois ou três temas apenas.

A batalho da Inglaterra ou do Canal da Mancha

No Verão de 1940, 1023 aviões da Royal Air Force e 1887 da Luftwaffe foram abatidos sobre o Canal da Mancha. A Grã-Bretanha conseguiu estancar o que seria o início da planeada invasão nazi. Foi então que Churchill disse sobre essa resistência heróica uma das suas frases imortais: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.

Agora, felizmente, a batalha do Canal da Mancha é apenas por causa da pesca de vieiras, com barcos a abalroarem-se, insultos esgrimidos, pedras atiradas. Dirão alguns da minha idade que isto parece a “guerra do Solnado” (um também imortal sketch do Zip-Zip em 1967). Mas talvez não seja apenas um caso de “cantinho das tontices” (aliás em regra quando coloco aí um tema, não penso apenas que sejam questões ridículas).

O que isto revela é que a rivalidade entre países europeus continua em lume brando ou borralho de lareira, podendo sempre as coisas complicar-se. A “pérfida Albion”, de que já falava Bossuet no século XVII, ou os “frogs” franceses, com que do outro lado do canal retribuem, não desapareceram do léxico nem da memória. E a Leste as coisas não são melhores, assim como chamar PIGS a Portugal, Itália, Grécia e Espanha não é feito para nos agradar.

Os populismos de direita e esquerda, cada vez mais parecidos, alimentam-se também disto. Esperemos que o Brexit não piore tudo…

A agenda oculta do nosso bem-amado Presidente

Já o digo há bem mais de um ano. Marcelo espreita por trás do Presidente. E, como é habitual em pessoas muito inteligentes, seguras de si, que subestimam os outros e os criticam quando ausentes com a suficiência da sua superioridade inata, Marcelo quer que o futuro obedeça ao seu plano, quantas vezes congeminado altas horas da noite.

Marcelo quer que PS ganhe sem maioria absoluta e acha que se o PSD descer muito isso será inevitável (até pelo fartar vilanagem de benesses que vão acontecer este ano, como por exemplo baixar os passes sociais na Grande Lisboa com impostos pagos por todo o País).

Para evitar isso, o Presidente tem duas hipóteses:

  1. Manobrar para que se faça uma coligação pré-eleitoral (o que Rio não quer).
  2. Tudo tentar para que PSD não perca muitos votos… a começar pelas eleições na Madeira que podem até ocorrer antes das legislativas.

Sendo assim, é perigoso que o CDS faça uma campanha vocal forte (que “berre”, como terá dito o Presidente), pois isso pode fazê-lo crescer à custa do PSD.

A tentação do maior comentador de todos os tempos pode prejudicar quem tem tudo para ser o maior Presidente da República de todos os tempos. Recomendo que conversem um com o outro, mas, de preferência, longe das câmaras de televisão…

O silêncio, o rigor e o tribalismo

Rui Rio tem razão em estar calado no Verão. A sua manifesta fala de jeito para fazer política através de comentários de um minuto, para assim encaixarem nas notícias televisivas (e isto não é uma crítica), é ainda mais notada quando há poucos temas para encher mais de uma hora de notícias todos os dias.

Um partido (ou uma empresa) falido deve fazer o que a troika impôs a Portugal e a outros. Rui Rio tem razão em deixar de torrar dinheiro a encher camionetas para comícios e jantaradas e em pedir contas a quem gastou sem cautela em campanhas eleitorais o que tantas vezes não fazia sentido, se não foi mesmo prejudicial. Mas a falta de jeito de Rui Rio pode estragar isso tudo.

Os partidos são tribais e sem grandes encontros perdem o foco e a motivação. E avançar com ações judiciais contra quem apenas fez o que se fazia há quarenta anos, em vez de apenas deixar claro que para o futuro é isso que acontecerá, pode ser mais um tiro na tribo PPD, que Santana Lopes agradecerá.

Muitos de nós, sobretudo nos grandes meios urbanos, achámos que ele tem razão? Creio que sim. Mas iremos votar nele por causa disso? Creio que não. E, também por isso, será tão curioso e determinante o que se passar nas eleições europeias que podem conduzir a uma curiosa coligação das três famílias da direita que em tempos de cavaquismo chegaram a estar todas debaixo do mesmo teto. Veremos como isto tudo evolui.

A tragédia do património

O fogo que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro pode ter tido várias causas. Mas a principal terá sido a sua degradação, a falta de cuidado em manter um velho e histórico edifício. Ardeu a memória do Brasil, e com isso também ardeu uma parte da memória de Portugal. Também há anos ardeu o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Sinto-me brasileiro, até pela minha vida profissional. Mas mesmo que assim não fosse, fica a pergunta: que podia ter sido feito para isto não acontecer? Que pode ser feito em Portugal para que isto não aconteça com os nossos velhos museus?

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

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  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
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No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

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António Costa

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