Costa e Marcelo. Manda quem pode… e sabe mandar

A decisão sobre o próximo Procurador-Geral da República vai mostrar quem, afinal, manda. Estou convencido de que Costa vai ceder à vontade de Marcelo...

Quem manda, o primeiro-ministro ou o Presidente da República? Na passada semana coloquei esta pergunta, a propósito da nomeação de um novo Procurador-Geral da República (PGR) ou, em alternativa, a manutenção da atual. Estou convencido de que o primeiro-ministro (PM) vai ceder à vontade do Presidente (PR), que é manter a atual PGR. Sendo assim, quem manda é então Marcelo. Mas não é seguro.

Por exemplo, se Joana Marques Vidal vier agora dizer que não quer mais um mandato, isso significa objetivamente uma de duas coisas:

  1. O PR cedeu à maior força do PM.
  2. Ou, o PR já tinha concordado que saísse, viu a opinião pública e a generalidade das forças partidárias a mudar, e tentou um flip-flop falhado.

É que não é nada razoável admitir que a PGR deixasse avançar um tabu como se de uma vulgar política se tratasse. Mas já estive mais seguro do que estou agora de que Marcelo ganhará este braço de ferro. De facto, há dias, sem nenhuma necessidade, o PR falou da nomeação daqui a seis meses do Chefe de Estado-maior do Exército (CEME). E o jornal Público teve artes de descobrir (é fácil imaginar como…) que se o Governo quiser a renovação do mandato do atual, o PR recusará nomeá-lo.

Pode discutir-se se o Comandante Supremo das Forças Armadas fará bem em transformar o CEME num “pato coxo” (‘lame duck’, como se diz nos EUA dos políticos em fim de mandato e que se sabe que não vão continuar). Mas se o fez nesta altura, pode ser que seja já para compensar uma cedência ao Governo feita agora com a ideia de que na próxima vez é o Governo quem “cede”.

E se não for isso, é ainda mais grave: O Presidente quer mesmo um confronto com o Governo – ou seja, quer usar o poder, não para resolver os problemas sérios (por exemplo exigir reformas que são urgentes), mas com finalidades menores. Seria, então, a confirmação de que, com exceção das ceroulas de cores garridas, é afinal o Super-Homem que se entretinha a ajudar velhinhas a atravessar ruas, apesar dos seus superpoderes. O que seria uma pena e um desperdício.

Quem manda? Rui Rio ou outro que esteja ali por perto?

Já aqui disse que Rui Rio não é pessoa dos meus amores. Já disse ainda que acho que não tem jeito para político (pelo menos ao nível nacional). Mas também já o elogiei, a última vez, aliás, na passada semana. No sábado, ia de carro de manhã para Coimbra, ouvi uma entrevista que deu – foi num programa da TSF em que os dois comentadores (Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva), talvez com motivos diversos, não podiam ser mais simpáticos.

Mas foi uma entrevista totalmente falhada que mais me convenceu da sua inaptidão para a função (‘unfit for purpose‘, como dizemos de edifícios construídos com defeitos graves). E isso foi seguramente muito lamentável para quem o apoia, logo quando a última sondagem (ainda sem o partido de Santana Lopes) anuncia um trambolhão do PSD e uma subida do CDS que lembra as últimas autárquicas.

Era importante, para Rio, uma boa entrevista… mas o que ouvi demonstra que o povo tem razão em afastar-se do PSD. O que mais me surpreendeu?

Em primeiro lugar, gastou quase o tempo todo com questões de intendência do partido, a destilar raivinhas e a enfatizar que é diferente dos outros políticos (acabando a fazer o mesmo que esses, mas apenas de forma menos competente). Não deu uma ideia para o País, não mostrou uma linha de rumo, um sonho, uma emoção, um sinal de alternativa. Assim não conquista nem um abstencionista.

Depois, a tese auto-vitimizadora (só faltou falar da incubadora, como Santana Lopes em 2005), mas auto-valorizadora, paradoxalmente, ao afirmar com indisfarçável orgulho que ninguém no PSD foi tão atacado como ele, o que só pode ser a memória a ir-se com a idade, má-fé ou mansa alucinação.

A seguir, a tese (que Lenine iria adorar) de que os partidos crescem depurando os que discordam, e que estes só estão contra ele (como poderia ser diferente?) por causa da vidinha, dos lugarzinhos e da maldade congénita. Não é assim que se congrega e se revela autoridade democrática.

Depois, desperdiçou o que na passada semana aqui lhe expliquei, com exceção da tese de que quer crescer à esquerda e na abstenção, que manteve. Mas não disse o que seria óbvio (e nisso sim, podia tornar-se num Sá Carneiro dos pequenitos): O PSD não deve ser um partido de direita, mas deve ser o líder de um bloco oposto ao liderado pelo PS e, por isso e para isso, vai falar com o CDS e a Aliança (como aliás Marcelo Rebelo de Sousa – quase em desespero – sugere).

Ou, então, deveria ter ido até ao fim da lógica alternativa: Sabendo que sozinho não fica à frente do PS (que está com 60% mais de votação prevista), assumir-se como um partido júnior do PS, mais pequeno, que não vai liderar coisa nenhuma. Essa solução podia levar mais alguns a sair, mas tinha alguma lógica e coragem.

Ficar no meio da ponte a esbracejar contra moinhos de vento, não é mandar. Atirar-se aos jornalistas (como fez no domingo) é sempre sinal de impotência. Para mandar, dr. Rio, não basta dizer. É preciso começar por saber o que se quer, explicar bem isso aos que o rodeiam, conquistar o partido e, depois, o País. Se continuar assim, corre o risco de, quando for à rua para comprar o jornal, já não conseguir entrar na sede do PSD, porque alguém que, entretanto, ia a passar sentou-se na cadeira de líder.

A terminar, claro que Rio tem tiques populistas, como venho dizendo desde sempre e agora parece óbvio. Mas é um falso populista, pois, para o ser, faltam-lhe as condições, desde logo carisma e empatia. A fuga para o populismo é uma reação de defesa antecipada ao que Santana Lopes vai fazer e mais um sinal de desespero.

Quem manda na proteção Civil? Em Pedrógão, o Governo não foi capaz de mandar…

Vai sair a acusação criminal relativa a Pedrógão. Segundo parece, na Proteção Civil está o núcleo duro dos culpados. Mas se o Governo não manda, quer dizer que não teve culpa? Claro que teve culpa. É que ninguém diz que a Proteção Civil cometeu crimes intencionalmente. Foi tudo incompetência de quadros que o poder político selecionou.

Quem escolheu a estrutura dirigente da Proteção Civil foi o PS, desculpem o lapso… foi o Governo. A incompetência dos escolhidos revela a incompetência de quem escolheu. E a primeira lei do mando é saber escolher os melhores. Quem o não faz, não sabe mandar. E os efeitos são os evidentes.

O povo leonino manda no Sporting

A democracia, está demonstrado cientificamente, funciona melhor em momentos decisivos e não de normalidade. O que aconteceu no sábado é um excelente exemplo: Confrontados com uma crise existencial, os associados foram votar e aparentemente com sensatez. Que sirva de exemplo para outras arenas. E boa sorte para o Sporting é o desejo sincero de um académico-benfiquista.

E, agora, a surpresa…

Este é o meu último programa neste canal, onde comecei há um ano. Lutei ao longo de meses para continuar na TVI24, onde tinha o dobro o tempo e um horário rígido. Não resisti à amiga pressão do Sérgio Figueiredo ao longo de meses. Agora, no dia 1 de outubro, vou voltar à TVI24, para já até ao final do ano, sempre à 2ª feira, sempre por 25 a 30 minutos e sempre a começar às 21h25.

Gostei muito de aqui estar e de ter agora sabido que durante este ano fui o comentador político com maior audiência na televisão portuguesa. E gostei muito de nunca ter recebido uma única pressão da TVI para mudar o meu estilo e assim aumentar as audiências ainda mais.

Eu sei fazer isso. Trataria, em 13 minutos, seis temas que fossem do futebol à política internacional, ou das questões financeiras aos sucessos de portugueses no estrangeiro, ou ainda das conspirações no PSD a algumas notícias a obter no mercado politico.

Isso é um bom tipo de programa, mas que nunca me interessou. Quero aprofundar os temas, pensá-los fora da caixa e para além da espuma dos dias. Muitos que ia encontrando queixavam-se de ser curto o programa. E, sendo assim, neste canal só dava para dois temas, o que é pouco. Na TVI24 poderei aprofundar quatro ou cinco.

Espero que me vejam lá à 2ª feira a partir das 21h25h. E muito obrigado pela paciência com que me brindaram e pelos constantes gestos de simpatia que recebo de muitos de vós, nas minhas caminhadas a pé e nos lugares mais surpreendentes.

Nota da direção: Aqui no ECO, continuará todas as segundas-feiras, logo depois do comentário na TVI24.

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