O PCP no seu labirinto

José Miguel Júdice analisa, no Jornal das 8 da TVI, a estratégia do PCP para manter tentar manter a sua autonomia em relação ao PS. Vai radicalizar o discurso, mas vai meter a viola no saco.

Parece que Reagan disse que se podem fazer grandes coisas se não se quiser ficar com o mérito. E sem dúvida que Marguerite Yourcenar escreveu que “é um erro ter razão cedo demais”. Vem isto a propósito de, há dias, se ter tornado aparentemente consensual a tese de que o PCP pode votar contra o Orçamento de 2019. E isso já levou o Bloco de Esquerda (“macaquinho de imitação”, se diria no tempo da minha infância) a acenar com algo idêntico.

Em Agosto do ano passado, afirmei, e cito: “Daí o problema para o PCP: Não é saber se vai romper com a geringonça, mas quando, como e com que pretexto. Julgo que talvez não aconteça no Orçamento para 2018, mas o PCP pode dar aí o primeiro sinal… se o PCP se abstiver, o resultado será 108 a favor e 107 contra”. E, não contente com isso, no rescaldo da clamorosa derrota do PCP nas eleições autárquicas, escrevi que o PCP se poderia abster no Orçamento, para, em novembro, concluir que o PS lhe cedeu o suficiente para que isso não acontecesse, como realmente não aconteceu.

Ao PCP, faltou então alguma coragem. Não ameaçou sequer. Apesar disso, em estado de pânico não assumido, Francisco Louçã atirou-se a mim como gato a bofe (o que é, afinal, mais um desejo do que uma irritação), pois a abstenção do PCP era a última coisa que o pai espiritual da geringonça queria que acontecesse, também pelo dilema que cairia em cima do seu primeiro filho querido, o Bloco de Esquerda.

A falta de coragem outonal do PCP e a energia primaveril

Eu deveria, por isso, estar a babar-me de contentamento com as notícias recentes. Por um lado, porque é manifesto que prefiro que a bipolarização que defendo não exija que o PS dependa tanto da extrema-esquerda. Por outro, porque é sempre agradável cometer o erro de ter razão antes do tempo, pelo menos para pessoas como eu. Mas, curiosamente e não por espírito de contradição, já não estou agora tão convencido. E isso apesar de não ter dúvidas de que o PCP está a tentar preparar agora o que não teve coragem de fazer no passado outono. Mas porquê?

Já respondo, mas antes vejamos a lógica da posição do PCP.

Em primeiro lugar, a geringonça sempre iria inevitavelmente – corresse bem ou mal – penalizar os aliados do PS. Foi assim no passado em situações idênticas, bastando lembrar o que Miterrand fez ao PCF.

Mas, desta vez, a aliança com os socialistas penaliza ainda mais os comunistas. Realmente, sob o controlo da União Europeia, do Banco Central Europeu e de outros suseranos que temos, há fortes limites para que o PS em troca do apoio possa dar muito mais de que alguns cheirinhos de perfume de esquerda, algum modesto fogo-de-artifício de radicalismo, algum ligeiro espetáculo de som e luz anti troika. No que interessa, tem de ficar tudo mais ou menos na mesma.

Apesar disso, e em troca de uma mão cheia de quase nada, o PCP deu uma razoável paz social. E está cada dia a vender um bocadinho mais a alma ao diabo. E para agravar tudo, António Costa já ganhou suficientes credenciais de esquerda, que vai usar eleitoralmente em 2019, dependendo menos do beneplácito de um atestado da sua esquerda.

Em segundo lugar, o PCP é um partido leninista, mas também basista. Manda-se de cima para baixo, mas ouve-se o que vem de baixo para cima. O núcleo duro dos comunistas é muito mais radical do que os dirigentes. Obedece, claro, mas pode ficar em casa e não colocar o voto. O PCP teve medo de dar sinais externos de rutura no outono e, talvez por isso, agora está cheio de energia primaveril.

É que de facto o problema cada vez se complica mais: O PCP está a perder cerca de 13% do voto que teve nas legislativas de 2015 (de 8,25% para 7,3%), o que é uma brutalidade para um partido/religião: com exceção dos 6,94% em 2002, nunca em mais de 40 anos de democracia o PCP esteve a um nível tão baixo como o que as sondagens agora lhe atribuem.

Alguma coisa tem de ser feita, portanto. A repetida promessa socialista de renovação da geringonça (agora mais uma vez afirmada pela Secretária-Geral Adjunta) é um abraço de urso do PS, uma espécie de história do capuchinho vermelho adaptada (“é para te comer melhor”). Daí à hipótese de os comunistas não votarem o orçamento no próximo outono (e não deixarem o PEV votar de modo diverso), para, com isso, fazer cair o governo, vai um passo que as bases radicais desejam.

Alguns, menos radicais, defenderão que depois desse votos, a geringonça poderia ser renovada, então com uma mera abstenção dos comunistas e o voto favorável dos verdes (sendo assim rejeitada uma previsível moção de censura ao novo Governo por 108 contra 107 votos). Tudo isto parece fazer sentido. Mas realmente não faz. E por duas razões principais.

A primeira razão é que os dirigentes do PCP, que não tiveram coragem de radicalizar no outono de 2017, amansados que foram com algumas cedências do PS, continuam a ter medo dos efeitos da rutura.
O que dizem agora não é, pois, mais do que uma espécie de (serôdio) acne político juvenil.

O que agora evidentemente querem não é romper, mas tentar forçar a negociação da geringonça antes das legislativas. E, para isso, acham que basta ameaçar com a abstenção no Orçamento. Não vão querer de modo nenhum dar a António Costa a antecipação das eleições… e o PS pode recusar voltar a formar governo apenas com o BE e sem ter ainda podido criar a coligação que estes desejam.

Mas a segunda razão é ainda pior e pode impedir até a abstenção. O PS quer, sem dúvida, o PCP que teve estes três anos, mas de modo nenhum um mais radical. Renovar a geringonça antes das eleições seria comprometer-se a mais radicalismo (com uma forte viragem à esquerda) e com isso arriscar perder as legislativas. Se a pressão do PCP for muito forte, o PS vai preferir eleições antecipadas. E, para as ganhar tranquilamente, basta ao PS reforçar laços com o BE (que esse, coitado, não tem como não se render ao PS, pois desde as legislativas já perdeu 30% das intenções de voto) e, se não conseguir sozinho a maioria, com o BE anda perto dos 50% dos votos.

PCP e CDS, a mesma luta

Agora, por tudo isso, o PCP, provavelmente, vai ter de aguentar o Governo até ao fim, mesmo que sugira o contrário.

Em primeiro lugar, porque já sabe que o PS não vai ceder quase nada e que se deitar abaixo o governo ou abster-se no orçamento, isso nada lhe vai dar e pode levar a perder mais.

Depois, porque sabe também que, paradoxalmente, quanto mais se mostrar como oposição, mais eleitorado moderado arriscará votar no PS, puxando-o mais para o centro e reforçando as condições da sua maioria absoluta.

Finalmente, porque não confia, como nunca confiou, no Bloco de Esquerda. Sabe que o sonho do BE é dar cabo do PCP. E, por isso, teme o risco de que o BE copie a radicalização dos comunistas, apenas para em cima das eleições se voltar a aproximar dos socialistas, no que seria uma reconciliação entre oportunistas. E com isso o PCP ficaria ainda mais isolado.

Em resumo, na primavera, o PCP não tem as alternativas que tinha no outono: vai ter de radicalizar cada vez mais o discurso, vai ter de ameaçar cada vez mais com a rutura, mas vai ter de meter a viola no saco e acabar a bater a bola baixinho. E, para isso, os comunistas vão rezar aos santos da sua devoção (que os têm…) para que, na esquerda, se passe o mesmo que o CDS mais deseja à direita: que o eleitorado ache que num modelo de bipolarização perfeita, tanto faz votar PSD como CDS, o que é preciso é atingir 116 deputados.

Ou seja, à esquerda vão tentar convencer o eleitorado que votar PS, BE ou PCP é indiferente, pois a maioria está assegurada e não há risco do PS se virar para a direita. E que, em todo o caso, é mais seguro votar PCP para que isso aconteça. Exatamente o que o CDS vai dizer. E, no fundo, o que o Presidente da República mais parece desejar.

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