Quem quer e quem não quer maioria absoluta?

José Miguel Júdice considera que a estratégia política de António Costa, com os professores e na concertação, indicia perda de poder no PS e na geringonça. E assinala, assim, a descida nas sondagens.

A pergunta hoje é: O que existe de comum entre alterar a lei laboral e contar totalmente ou não o tempo de antiguidade dos professores para promoções na carreira? A resposta é simples: A cautela do Governo e a sua viragem ao centro contra a tendência demagógica das oposições. Porquê? Por várias razões:

Em primeiro lugar, e sobretudo, por causa da possibilidade de maioria absoluta do PS em 2019. Poderá dizer-se que os maiores adversários dessa solução são o BE, o PSD, uma parte relevante do PS que deseja renovar a geringonça por razões ideológicas e estratégicas e, finalmente, o Presidente da República.

Não sendo adeptos da maioria absoluta do PS, vivem menos mal com ela o PCP e o CDS. São favoráveis a maioria do PS, os setores moderados do sindicalismo (UGT), o empresariado pragmático, os eleitores moderados que querem manter Costa sem a geringonça, a União Europeia, os investidores na dívida pública portuguesa. Se necessário, o PR vive também mais ou menos bem com isso … desde que (como tudo indica) continuem a existir filas em que esperamos quase duas horas para tirarmos uma selfie com ele.

Em segundo lugar, tudo tem a ver também com o desejo ou receio de eleições antecipadas. Não tenho grandes dúvidas de que António Costa as deseja (a menos que a geringonça aprove um orçamento “centrista”) ou, pelo menos, não as teme. Todos os outros atores políticos não desejam e os atores sociais vão querer ou não em função do que vier a passar-se no plano da luta social e da evolução do enquadramento económico internacional.

Os comportamentos dos atores políticos e sociais no próximo ano e meio terão, por isso, tudo a ver com o tema da maioria absoluta do PS e com o da aprovação do Orçamento para 2019. E seguramente nada a ver com António Costa se candidatar a PR em 2026, como insinuam ou afirmam os que não querem a maioria absoluta…

Para se perceber isso, existem dois factos que passaram despercebidos, segundo me parece, no que à sua relevância estratégica se refere.

  1. O primeiro facto tem a ver com a questão dos professores: O Governo, e nele o ministro da Educação (apesar de ser o mais próximo de sempre da FENPROF), decidiu radicalizar contra a constante radicalização desta estrutura que o PCP controla. Nessa radicalização, realço notícias que surgem do nada a demonstrar que (a) os professores portugueses são comparativamente dos mais bem pagos da Europa, (b) os resultados do ensino não são bons, e (c) o número de alunos está a baixar e o de professores aumenta.Seja como for, isso foi feito sem que antes a gerigonça fosse avisada. E o Governo não hesitou em mandar para as urtigas o que teria sido cedido para se aprovar o orçamento de 2018.No PSD, apesar do esforço para parecer responsável, por causa do sonho de ajudar o PS a governar a partir de 2019, dois vice-presidentes e pesos pesados do partido (Castro Almeida e David Justino), com boas ou más razões, foram claros: O PS tem de ceder aos professores. E certos setores de esquerda do PS dizem o mesmo.
  2. O segundo facto é ainda mais claro: Vieira da Silva (um peso pesadíssimo do Governo) fez na concertação social um acordo com a UGT e o empresariado, que surgiu como uma total surpresa para os parceiros da geringonça.
    E, como agora já percebem que seria evidente, os adversários da maioria absoluta do PS mexeram-se de imediato contra esta deriva centrista, com o PSD a exigir mudanças (e numa delas atacando o PS pela esquerda…) e o grupo parlamentar socialista a exigir outras. E sobretudo os parceiros da geringonça a reforçarem a ideia que assim se pisa uma linha vermelha, o que prenuncia a possibilidade de o Orçamento não ser aprovado no outono.Marcelo não quer a maioria absoluta do PS porque – embora lhe assegure uma reeleição ainda mais esmagadora – lhe diminui o poder moderador e pressionador. Mas teme ainda mais a antecipação de eleições que lhe estraga o calendário presidencial. Por isso, quanto a este último tema, colou-se de imediato ao Governo.

Mas estes dois factos que realcei e liguei têm também em comum um fator politicamente muito importante:
O PS, na discussão do orçamento de 2018, levianamente ou por necessidade, deixou que a geringonça e a FENPROF achassem que o Governo iria aceitar contar todo o tempo dos professores, desde que Sócrates congelou as progressões mais ou menos automatizadas; mas agora diz que não há nem haverá dinheiro para isso.

O Governo na concertação social, por estratégia ou amadorismo, aceitou soluções que deram aos setores moderados e centristas uma alegria, mas agora diz que quem manda é o Parlamento, ou seja a aliança com a geringonça.

De comum existe aqui uma realidade feita de uma de três hipóteses: O PS/Governo foram habilidosos e nunca quiseram cumprir o que, ao menos, parecia que tinham aceitado. Ou foram incompetentes e assumiram soluções que a realidade económico-financeira ou a correlação de forças não permitia manter. Ou o Governo e Costa estão já tão fracos que não controlam o PS (desde há meses quando o grupo parlamentar cedeu à esquerda nos professores e agora quando agora recusa aceitar o que se cedeu na concertação). Qualquer das três hipóteses é um problema real para António Costa e para o PS. E por duas razões:

  1. Em primeiro lugar, quem disse que “palavra dada é palavra honrada” não foi um comediante a gozar com os políticos, mas o primeiro-ministro. Se a ideia (falsa ou verdadeira, pouco importa para aqui) de que ele não é confiável alastrar como uma mancha de óleo, isso vai afetar muito o seu futuro.
  2. E em segundo lugar, ainda mais importante, porque a política é inclemente para os líderes que se acha que não são capazes de mandar na sua casa, que deixam alastrar como uma mancha de azeite a ideia de que são fracos e por isso apertar-lhes a mão não chega para se fechar um acordo.

Ser habilidoso de mais é ser confiável de menos. Mas ser fraco de mais também é ser confiável de menos. E o resultado é sempre o mesmo e evidente: Perder poder e capacidade de fazer o que acha adequado. As sondagens mais recentes estão aí a demonstrar que se calhar não estou a fantasiar…

Pedro Sanchez e António Costa, a mesma luta?

Na passada semana estive em Madrid, sobretudo a trabalhar e conviver com espanhóis. Três coisas parecem-me evidentes: António Costa influenciou e deu coragem a Pedro Sanchez para fazer um governo (ultraminoritário). O sucesso de Pedro Sanchez (se acontecer) pode dar coragem a António Costa para fazer um governo minoritário se não conseguir maioria absoluta. O fracasso de Sanchez (atualmente mais provável que improvável) vai aumentar a propensão em Portugal para aqui se desejar a maioria absoluta do PS em outubro de 2019.

Ou seja, já estão a perceber… Costa, se calhar, não vai a Fátima colocar uma velinha para pedir o sucesso do seu amigo espanhol…

O cantinho das tontices

A notícia surgiu como se fosse uma mentira do 1º de abril. Acabam os bikinis nos concursos de misses. É melhor citar: “O concurso Miss Mundo busca uma mulher linda, articulada, talentosa, que possa ser uma embaixadora de projetos sociais. Que diferença faz uma nota alta em um desfile em traje de banho?”. “Nós não vamos te julgar por sua aparência exterior”, disse Gretchen Carlson (a chefe da organização e antiga Miss Universo, Miss Mundo ou algo semelhante). “Nós estamos indo adiante e nos envolvendo nessa revolução cultural”, disse ela, acrescentando que o concurso deve focar-se nas ideias, inteligência e talentos das candidatas.

Nunca me interessei por este tipo de eventos. Mas esta decisão é mais um sinal do peso dos movimentos populistas. E não tenho dúvida que a Madre Teresa de Calcutá ganharia o concurso de Miss Universo de acordo com as novas regras. Como dizia um famoso anúncio: Pode decidir-se escolher no concurso de Miss Universo quem será a melhor embaixadora de causas sociais, a mais talentosa, inteligente, mais linda na sua aparência interior? Pode, mas não é a mesma coisa…

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