Orçamento Kitschpremium

Não importa qual o propósito ou desígnio do País, o que importa é que há fundos sem fundo e pouco tempo para os gastar. Sublinho gastar, embora a palavra desejada seja investir.

A semana promete animação com o Orçamento. Os números voam na pequena contabilidade dos partidos de Esquerda. Sublinho os partidos de Esquerda porque toda a Direita está excluída da mercearia das contas do Estado. Logo, Portugal começa o primeiro Orçamento do Plano de Recuperação e Resiliência amputado de uma parte fundamental do País que participa e participou na construção do Regime Democrático. É este um gesto democrático da parte do Governo? Certamente que não. Estamos perante a evidência de um sectarismo mascarado com gestos de modernização, mas de uma modernização para metade da Nação. Serão os restantes portugueses descartáveis na fundação da nova economia e do novo País recuperado?

Falo em nova economia e em novo País recuperado porque essa é a ambição do Governo e a exigência do Presidente da República. Neste particular, estamos pois perante a tentativa de refundar a Democracia e estabelecer os fundamentos essenciais para um futuro menos aflito nas contas e mais digno nas instituições. O Plano não é apenas um plano económico, tecnocrático, burocrático, mas sim e sobretudo a tentativa de lançar as fundações de um outro País político, mais próspero, mais avançado, menos dependente. O Plano é a ilustração de uma viragem política, a tentativa de aproximar Portugal dos padrões do centro da Europa, em termos de responsabilidade política, de autonomia financeira, até mesmo na afirmação de uma nova centralidade no eixo europeu. Pode tudo isto perecer delirante, mas é o delírio imaginário que assiste os líderes da Nação – não perder a oportunidade, porque esta pode ser a última oportunidade.

As oportunidades de Portugal têm o precedente histórico de se fazerem com o dinheiro dos outros, com a incompetência da política nacional e com a reafirmação de um País atrasado e pobre para humilhação dos portugueses. Não importa qual o propósito ou desígnio do País, o que importa é que há fundos sem fundo e pouco tempo para os gastar. Sublinho gastar, embora a palavra desejada seja investir. Gastar implica uma retribuição imediata, investir implica uma retribuição diferida no tempo. O Portugal político não sabe esperar porque vive num presente contínuo entre ciclos políticos. O senhor que se segue haverá de pagar ou haverá de contrair novos empréstimos ou haverá de perpetuar uma dívida atmosférica ou alguém haverá de pagar pelo País. Tudo em nome de um Portugal moderno que é politicamente prometido desde sempre e para sempre.

Pode-se falar em “desafios”, e todo o político que se preze no estatuto e na ambição tem um léxico de “desafios”, pode-se apresentar o Governo com o voluntarismo de um escuteiro à procura de novo lugar para o mesmo acampamento, transpirando boas intenções e maus instintos, mas em nenhum momento abandonam a mesa do Orçamento para explicar à Nação desconfiada qual o desígnio e o lugar de Portugal no consenso europeu no espaço de vinte anos. Estará Portugal entre os mais prósperos da Europa ou continuará em suave transição para a periferia económica e política do Continente? Será Portugal o Tigre do Mediterrâneo ou uma decorrência insolvente ao nível da Grécia?

O que se anuncia aos quatro ventos é um novo “processo revolucionário em curso” num País em que a história política nos ensina uma resistência à mudança radical e contínua. E na classe política, uma resistência a pensar o País no médio e no longo prazo, quer a nível político, quer a nível económico. Convém ter em consideração que Portugal vive em estagnação económica e na indecisão dos propósitos políticos há pelo menos vinte anos. O País aburguesou-se, ganhou aqui e ali contornos cosmopolitas nos padrões de consumo, aprendeu a recorrer ao crédito como modo de vida e como evidência da necessidade. Em certo sentido, Portugal é hoje um País inviável sem a assistência da Europa – a Europa que apoiou a transição democrática é a mesma Europa que hoje suporta os níveis de prosperidade aparente. O País não se moderniza, não cria instituições, não se industrializa, não exporta, não produz riqueza, não se empenha na evolução de uma outra cultura política em que a concretização da prosperidade económica, social e sobretudo política sejam uma realidade. Portugal é hoje um País inchado que continua a pensar que se tornou maior.

Não se pode ainda negar o Corporativismo que condiciona a modernização da sociedade portuguesa, sempre muito pouco liberal e sempre muito pronto para os preteccionismos vários em nome da modernização. Não se pode ainda negar a proliferação dos “jovens” e do “futuro” nos discursos oficiais. Mas são adereços da retórica política que não conhece nem entra no universo da precariedade, no labirinto dos subúrbios das grandes cidades, nos dilemas da nova emigração perante a perspectiva de um futuro entre um fracasso e outro fracasso numa vida marcada pelo ressentimento e marcada pela resistência permanente contra a inferioridade. E esta é a geração mais qualificada que o País algum dia conheceu. Na apatia da paz social, todos os jovens querem ser astronautas ou jogar à bola. Quando o País não deixa, o Estado é a evidência viva de que a “política já não governa as sociedades”.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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