Os milhõezitos da bolapremium

A Superliga Europeia parece ser uma nova forma de atingir aquilo que nunca foi atingido no futebol: torná-lo numa indústria rentável para os clubes e acionistas. Não antevejo grande sucesso.

Em 1990, o FC Porto foi campeão num campeonato renhido contra o Benfica de Eriksson. O benfiquista Rui Águas foi a grande estrela do campeonato (pelo FCP). Nesse mesmo ano foi fundada a Martifer. Hoje a Martifer tem um volume de receitas anuais semelhante ao clube português com mais receitas: o Benfica. A Martifer é uma empresa média ao nível nacional e uma pequeníssima empresa ao nível europeu. No entanto iguala o clube português com mais receitas.

Se excluirmos os três grandes, a Martifer tem mais receitas do que todos os clubes profissionais juntos. As receitas de um clube de média dimensão em Portugal são ainda mais irrisórias. O Rio Ave deve ter menos receitas do que o Continente de Vila de Conde (não estou a falar da cadeia de hipermercados, mas apenas daquele hipermercado de Vila do Conde) e o Boavista certamente tem menos receitas anualmente do que o supermercado Pingo Doce da Avenida da Boavista. As receitas de alguns clubes de futebol da segunda liga andam ao nível de um qualquer mini-mercado de bairro.

É esta a dimensão do futebol na economia portuguesa. Mas, ao contrário do que se possa pensar, a nível europeu as coisas não são muito diferentes. O Barcelona, clube com mais receitas do futebol europeu gera tantas receitas num ano como o Facebook em 4 dias. A receita somada dos 20 maiores clubes do futebol europeu é inferior à de uma pequena empresa europeia chamada EDP. As receitas anuais da Liga dos Campeões são cerca de metade das da Sonae. Mesmo dentro da área do entretenimento, o futebol não é particularmente grande. Só o filme Frozen II gerou tantas receitas como o Manchester City, PSG e a Juventus juntos. A Elsa e a Anna despertaram mais paixões, e abriram mais carteiras, do que o Cristiano Ronaldo, o Neymar e o Aguero.

E o melhor é não falarmos nos lucros. O futebol não é lucrativo. Muitos tentaram, mas não conseguiram mais do que atingir lucros temporariamente, muitas vezes à custa de resultados desportivos. O futebol dá lucro a alguns, mas nunca aos clubes. Curiosamente, grande parte do valor do futebol é absorvido pelos trabalhadores (os jogadores de futebol). É raro o clube em que o funcionário mais bem pago não seja um jogador (trabalhador) ou o treinador (gestor intermédio), algo que não se vê em mais nenhum sector. Curiosamente, o futebol é também um sector onde a legislação laboral é muito rígida, desfavorecendo bastante os trabalhadores. Em mais nenhum outro sector, se permite que um trabalhador não possa sair livremente de um empregador para o outro, mesmo tendo um contrato a prazo por cumprir.

Vem isto tudo a propósito da criação da Superliga Europeia. Mais uma vez veio-se falar nas receitas milionárias dos clubes fundadores que, aparentemente, irão receber 350 milhões cada um (tudo somado, estes fundadores milionários irão receber tanto juntos como a TAP receberá do Estado português).

A Superliga Europeia parece ser uma nova forma de atingir aquilo que nunca foi atingido no futebol: torná-lo numa indústria rentável para os clubes e acionistas. É quase certo que irá falhar nesse propósito (como falharam todas as tentativas anteriores) e também dificilmente terá grande sucesso na vertente desportiva.

No entanto, custa-me ver os apelos para que a UEFA impeça isso de acontecer ou mesmo que as autoridades políticas intervenham. Se for para intervir, que seja para garantir que a UEFA não possa exercer práticas anticoncorrenciais, abusando da sua posição dominante. Não faz sentido os clubes serem impedidos de participar nas competições nacionais por terem decidido organizar uma competição europeia concorrente à Liga dos Campeões. Isso sim constitui comportamente anticoncorrencial. O mesmo se aplica a proibições impostas a jogadores que venham a participar na nova competição. Todas estas respostas numa outra indústria, seriam vistas como práticas anti-concorrenciais. Nada disso muda por ser o futebol.

Curiosamente, a saída destes clubes (que ganharam 16 das últimas 20 ligas dos campeões) poderá tornar a Liga dos Campeões mais competitiva e aberta aos clubes de média dimensão. Talvez possamos voltar a ver uma equipa portuguesa, romena ou holandesa na final de uma Liga dos Campeões. Talvez a Liga dos Campeões volte a ser uma festa de várias nações em vez de um clube fechado das 5 maiores ligas. Talvez se torne mais comum ter na final equipas que não pertencem às 5 grandes ligas (francesa, espanhola, italiana, alemã e inglesa), algo que neste século só aconteceu uma vez (com o F.C.Porto em 2004). Talvez a maior exposição de equipas fora das cinco maiores ligas as ajude na sua expansão internacional, trazendo mais receitas para essas ligas.

A concorrência é uma coisa boa, promove a qualidade, algo que provavelmente os organizadores da Superliga irão perceber rapidamente quando verificarem que os jogos entre a Juventus e o Real Madrid têm grandes audiências quando são a eliminar, mas muito menos quando são para decidir o 9º lugar de uma Superliga na qual ninguém pode descer.

Não antevejo grande sucesso à Superliga. No entanto, são incompreensíveis os apelos à intervenção musculada para que não venha a existir. Como qualquer aluno de economia industrial (incluindo os meus) sabe, a eliminação de barreiras à entrada é uma das principais formas de impedir organizações de abusarem do seu poder de monopólio. A UEFA não é diferente.

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