Os miúdos mimados pela abundância

Porque é que um conjunto de miúdos mimados pela abundância quer fazer uma revolução social para impor a sua vontade, colocando em risco a democracia e a prosperidade?

Para a semana haverá eleições para a presidência da república. O que ocorreu na semana passada noutra república, os EUA, reforça uma questão que se tornou central em todos os países desenvolvidos: as ameaças à democracia liberal e à liberdade económica.

A atitude de Trump de apelar à invasão do Capitólio é condenável a todos os títulos e nada justifica a sua actuação irresponsável. Mas infelizmente este radicalismo não é novo. Em Portugal, tivemos vários episódios similares ou piores nos últimos 40 anos. Ainda recentemente, durante a “troika”, houve tentativas de invasão do parlamento português.

Há uma diferença importante. Trump foi eleito em nome do partido republicano, que é uma referência da democracia e da liberdade. É o que se segue aos conservadores britânicos entre os partidos mais antigos e com mais sucesso eleitoral em toda a história da democracia.

A invasão do Capitólio não foi um episódio bonito mas choca como é que se chegou a esta situação no mundo desenvolvido, em que o extremismo domina a política. Trump foi derrotado mas aumentou a sua votação em 12 milhões de votos.

É nos EUA que esta divisão é maior e em que diferentes extremismos são alimentados, especialmente por sectores democratas que apoiam tendências “Woke” que promovem a violência, como os “Antifas” e “Black Lives Matter”. Este radicalismo provoca reacções em defesa de comportamentos e valores, como o “Tea Party”, agravando ainda mais a dissonância social. Mas em Portugal os populismos comunistas do BE e do PCP e o do Chega também se alimentam mutuamente, como os debates presidenciais mostraram.

Há várias explicações para este radicalismo, mas todas pecam por ser simplistas. Corrupção, violência, desigualdade, tribalismo etc., todos estes fenómenos, ou as percepções que a eles estão associadas, podem ser importantes mas existiam muito antes da radicalização, e o próprio radicalismo político nos EUA é muito anterior a Trump.

Há um outro aspecto que contribuí decisivamente para este radicalismo: a tentativa de uma revolução social promovida por miúdos mimados pela abundância com uma ambição desmedida de impor novos valores e de mudar a sociedade cortando com o passado.

Ao contrário do habitual, este não é uma revolução organizada, nem passa pelas armas ou por assassinatos. Já não é a violência das FP25 nem os atentados sangrentos que ocorriam em toda a Europa. Os adeptos das revoluções sangrentas nos países desenvolvidos parecem ter percebido que não era esse o caminho para impor as suas ideias. Basta pensar que as FP-25 se integraram num partido com representação parlamentar, o Bloco de Esquerda.

As armas agora são a subversão dos costumes e o ataque a valores morais e a hábitos culturais. São o desvirtuamento da herança portuguesa e o revisionismo da história por uma “polícia” da linguagem. Mas esta tentativa de revolução continua a ter os mesmos objectivos: a luta sem tréguas contra a democracia liberal e a liberdade económica.

Esta revolução social é um perigo porque visa eliminar a economia descentralizada de mercado e colocar o Estado a controlar a sociedade, manipulando-o para enfraquecer a democracia liberal e instalar uma sociedade socialista. Os livros que a defendem não deixam dúvidas sobre as ambições de poder e sobre a intolerância, a imposição de comportamentos e as tendências totalitárias da abordagem neomarxista a que recorre.

Alguns pensarão que estes ideais desapareceram com a queda do muro de Berlim. Mas não é bem assim. O abandono das pretensões da luta armada está a enganar muitos mas não vai enganar todos por muito tempo. Os ideais marxistas continuam bem vivos e a ser usados pelo discurso populista para cativar todos os que se iludem com aventuras utópicas.

O “novo” radicalismo social teve um primeiro impulso nas universidades, e especialmente nos departamentos de literatura e de ciências sociais, com as visões pós-modernas e a relativização da ideia de verdade. Essa ideia falhou em parte, e os seus mentores abandonaram-na, mas continua viva através da desvirtuação dos valores morais em que assentam as nossas sociedades.

A guerra contra a democracia liberal continua nas universidades onde o culto do marxismo se mantém, designadamente nas áreas de literatura, das artes e de ciências sociais como as pseudo-ciências da educação ou da comunicação, a sociologia, a antropologia ou a história. E é ainda reforçada por editoras “politizadas”, um instrumento tradicional dos revolucionários.

O radicalismo que existe nos países mais prósperos é muito prejudicial para o desenvolvimento económico, e estes seriam dois assuntos que deveriam estar em discussão durante a campanha em Portugal. Infelizmente não estiveram pois o perigo deste radicalismo é desvalorizado na Europa, propositadamente por uns, ingenuamente por outros.

Os debates caracterizaram-se pela total ausência de pensamento dos candidatos sobre a situação económica grave que Portugal atravessa, com o risco de nova falência do Estado, e sobre o alargamento e o aprofundamento do radicalismo político.

Mas é urgente perceber porque é que as acções radicais se estão a tornar frequentes. Porque é que um conjunto de miúdos mimados pela abundância quer fazer uma revolução social para impor a sua vontade, colocando em risco a democracia e a prosperidade? Os países desenvolvidos estão em desaceleração económica há mais de duas décadas e não se prevê que o ritmo de crescimento vá aumentar. O radicalismo está a piorar esta tendência, com efeitos negativos para as nossas vidas.

Contra a liberdade económica

Uma das motivações dos radicais é o anti-capitalismo e o combate à liberdade económica. O facto de a economia de mercado ter trazido abundância é escondido pelos miúdos mimados, que sem o reconhecer dela dependem para afirmar um discurso populista de mudança da sociedade. Várias áreas económicas são exemplo disso:

  1. O perigo do aquecimento global e das suas consequências para o ambiente foi uma oportunidade para a retórica contra a liberdade económica e serve de fundamento para contestar a economia de mercado e impor a estatização. O discurso é a mudança do sistema económico e o fim do lucro, da iniciativa privada e do capitalismo “selvagem” feito por empresários gananciosos, tudo “temperado” com o populismo da desigualdade e do interesse colectivo. Mas isto é uma ilusão porque a transição para uma produção e um consumo sustentável começou há décadas e não foi com ideologia mas com muito capital, muita tecnologia e uma colaboração descentralizada e alargada a muitas entidades. É o capitalismo que está resolver os problemas ambientais, apesar do populismo dos miúdos mimados.
  2. O totalitarismo “legal” é outra dimensão da tentativa de impor o Estado como a vanguarda da sociedade e de afastar os interesses económicos particulares de cada um de nós. Os miúdos mimados pela abundância querem uma lei que preveja o mínimo detalhe das nossas vidas e regulamentações para tudo, na ilusão de eliminar todo o risco e insegurança. Para isso, exigem mais fontes da lei e a diferentes níveis de governação, desde o local até ao mundial, recorrendo a utopias “federalistas” e castradoras da vontade individual
  3. Este totalitarismo “legal” traduz-se ainda na estatização da sociedade pela interferência na gestão das empresas e pela proibição da liberdade económica em áreas como a saúde ou a educação, que são negócios legítimos, pois são uma ocupação ou uma “negação do ócio”. A multiplicação de apoios às empresas e a imposição de regras como quotas para mulheres gestoras com elevadas remunerações vão criando uma enorme dependência de um Estado que é constitucionalmente subsidiário face à sociedade e deveria actuar como tal.
  4. A produção alimentar é outra área em que o desenvolvimento económico e o próprio conhecimento científico são negados. A aposta em plantas geneticamente modificadas para aumentar a produtividade alimentar e combater a fome nas regiões mais carenciadas é recusada pelos miúdos mimados, que preferem as suas “lutas”, como a proibição de bifes na Universidade de Coimbra, e manter os seus “pobres” para fundamentar o discurso populista. Manipular genes humanos não é um problema mas manipular genes de plantas é inaceitável, por isso as culturas transgénicas existem às escondidas para não afectar a sensibilidade dos miúdos mimados pela abundância (é um mistério que tomem vacinas de multinacionais).

Contra a democracia liberal

O outro objectivo dos miúdos mimados pela abundância é enfraquecer a democracia liberal. Foi em nome desta guerra cultural que um democrata disse na semana passada, no congresso norte-americano, “awoman”, a seguir a um “amém”. Mais do que ignorância, foi um sinal de que o radicalismo desta tentativa de revolução social está bem vivo.

Esta cultura “woke” não tem apoio oficial mas está a ganhá-lo lentamente com a “perversão ” das universidades e com o seu alastramento para liceus e escolas primárias onde distorce manuais escolares e o ensino. Como é comum a todos os ideais anti-democráticos, “institucionalizou” uma cesura “moralista” exercida por uma “polícia” da linguagem escrita e falada composta por grupos de pressão e pseudo-especialistas da “sensibilidade”.

A revolução social em nome do populismo igualitário também adopta uma abordagem jacobina quando ataca religiões e, mais genericamente, quando nega tudo o que possa ser visto como diminuindo a “auto-estima” dos grupos de que se alimenta, as “minorias”.

O perigo para a democracia liberal vem da desvirtuação dos costumes e dos valores morais, e traduz-se na tentativa de destruição da “fábrica social” que está a deixar marcas profundas nas sociedades, sendo múltiplos os exemplos:

  1. O fim da inviolabilidade da vida humana, iniciada com o “Roe vs. Wade” e a mentira que o despoletou, e que hoje está a ganhar um novo fôlego com a Eutanásia. A tentativa de revolução social trouxe a legalização da morte de pessoas inocentes.
  2. Uma censura institucionalizada que se materializa com o silenciamento ou as correcções à livre expressão, que é frequente nas universidades e tem a participação de professores, ou pelas limitações do discurso e da escrita em televisões, jornais, redes sociais e outros meios.
  3. O revisionismo histórico, motivado ideologicamente, que se baseia no oposto da ideia de universidade, a promoção do conhecimento. Inclui o derrube de estátuas de figuras ligadas à nosso História, e varias formas de “cancelamento” de indivíduos que contrariam o pensamento único que se procura instaurar, passando por jornais como o New York Times que sobrepõem o activismo revisionista ao jornalismo sério e independente.
  4. O controlo da educação para promover o radicalismo, exemplificado pela tentativa de imposição de uma ideologia neomarxista promovida pelos miúdos mimados pela abundância que hoje se tornou comum para a maioria das pessoas, a linguagem de “género”. Repare-se que esta ideologia assenta numa falácia científica. Hoje, os alunos aprendem em Biologia que cão e lobo são do mesmo género, assim como homem e mulher. Mas os manuais de ciências sociais tentam, através de uma escola exclusivamente pública e de uma linguagem higienizada, impor outra “verdade”. Para os cientistas sociais, cão e lobo podem ser do mesmo género mas homem e mulher são de géneros diferentes, e em nome da “ciência” isso não é discutível.
  5. A chantagem permanente com a diversidade e com a identidade tem consequências nefastas. O discurso do favorecimento das minorias tornou-se um abuso dos miúdos mimados para proveito próprio e levou à acumulação de sentimentos de frustração, raiva e ressentimento que alimentam a vitimização e as divisões sociais. Um exemplo é a atitude passiva, o “coitadinho”, a leviandade e o facilitismo com que assuntos como a integração de imigrantes foram abordados na Europa e que resultou na violência frequente que ocorre em países como França ou Bélgica.

Miúdos mimados em Portugal

Em Portugal, os miúdos mimados da abundância estão nas universidades – Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova ou ISCTE – e muito infiltrados no Estado, onde instrumentalizam o Ministério da Educação ou a Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, ou através do Ministro Eduardo Cabrita, que usou a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género para proibir os livros azuis e rosa para meninos e meninas que a Porto Editora colocou à venda.

E estão activos na classe política, no Bloco, que trouxe o discurso intolerante para a política portuguesa, na Juventude Socialista, que promove ideias e candidatos não democráticos, ou pelos próprios candidatos João Ferreira, Marisa Matias e Ana Gomes, que defendem a ilegalização de um partido político e dos seus votos porque estão no polo oposto, e ameaçam recusar dar posse a um governo mesmo que seja democraticamente eleito, reforçando desta forma o extremismo na sociedade portuguesa. É a ideia mais perigosa para a democracia que se ouviu na campanha presidencial.

Onde é que esta radicalização nos vai levar? Não sabemos, mas há razões para recear que não pare. Esperemos que as profecias “Orwellianas” não se tornem realidade.

Nota final: Este artigo pretendia discutir as ideias económicas dos candidatos presidenciais, um tema fulcral para Portugal, a par com a saúde. Foi por isso com alguma expectativa que assisti a debates entre os candidatos para a presidência da república, mas depressa me apercebi que dali não viria nada sobre o assunto. Como não há ideias, não houve artigo. Perante a total ausência de pensamento dos candidatos sobre a situação económica chega-se a duas conclusões: não há nenhum candidato que tenha demonstrado merecer a presidência da república e, entre os que se apresentam, o único que preenche os requisitos mínimos necessários é Marcelo Rebelo de Sousa. Mas Marcelo falhou ao apoiar incondicionalmente as políticas do Governo, privilegiando a estagnação. Com o apoio ao governo, Marcelo apenas facilitou a ausência de reformas e funcionou como um travão adicional ao desenvolvimento do país. Por isso também não merece o voto.

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