Os professores e a educação

Da qualidade dos nossos professores depende a qualidade da nossa Educação. E desta depende, em grande medida, a nossa capacidade de crescer economicamente.

Embora ser avó não faça parte dos meus planos para os próximos anos, li há umas semanas um artigo intitulado “Os professores dos nossos netos”. É que tenho um carinho especial pelo tema da Educação (não digo paixão, porque pareceria plágio, ainda por cima de um amor platónico). Além disso, gosto de ler os autores — o João Cerejeira e o Miguel Portela —, que são sempre interessantes e enriquecedores.

E foram-no também neste artigo. Porém, deixaram-me apreensiva. Não por me perspectivar com idade suficiente para duas gerações de descendentes, mas por ficar a saber que, em Portugal, dos jovens que pretendem completar o ensino superior, somente 1,3% tenciona ser professor e que destes a maioria apresenta um desempenho escolar abaixo da média.

Quando, na terça-feira, uma das notícias do dia era a de que o estudo da OCDE mostrava que os professores eram mais bem pagos que outros trabalhadores com qualificações idênticas, veio-me logo à mente esta estatística – que tem origem num outro estudo também da OCDE, Effective Teacher Policies – e pensei “algo não bate certo”. Se a docência é uma profissão tão bem remunerada, que sentido faz que tão poucos alunos queiram segui-la?!

Lembrei-me, então, do início da parte I do capítulo X do A Riqueza das Nações, em que Adam Smith observa “são as seguintes as cinco principais circunstâncias que, tanto quanto me tem sido dado a observar, compensam o pequeno ganho de alguns empregos, ou exigem, noutros, a contrapartida de um ganho elevado”:

  1. Carácter agradável ou desagradável dos empregos em si mesmos.
  2. A facilidade e pequeno dispêndio, ou a dificuldade e elevado dispêndio, exigidos pela sua aprendizagem.
  3. O seu carácter de segurança ou de insegurança.
  4. A pequena ou grande confiança que será necessário depositar naqueles que os exercem.
  5. A probabilidade ou improbabilidade de êxito por eles proporcionado

O indicador em que a OCDE nos coloca no segundo lugar é o do rácio entre o vencimento dos professores e o de outros profissionais com a mesma escolaridade. Ou seja, faz a comparação controlando para o segundo factor identificado por Adam Smith. Mas e as demais circunstâncias que ele apontou?

No começo do seu artigo, João Cerejeira e Miguel Portela constatam que mais de metade dos professores do pré-escolar ao secundário está na faixa etária dos 45 anos ou mais. Ora, não é que a idade seja um posto. Mas pessoas mais velhas costumam, ceteris paribus, ser mais experientes e a experiência paga-se, porque, não sendo garantia de competência, tem com ela uma correlação positiva. E a OCDE evidencia isso mesmo.

Quanto à (des)agradabilidade do emprego, envolve aspectos obviamente muito subjectivos e de difícil medição. Mas imagino que seja mais ou menos consensual que andar a mudar de região de ano para ano, com colocações a quilómetros de distância anunciadas com quatro dias de antecedência, não torna a docência propriamente muito apelativa.

E acho que estamos todos mais ou menos cientes de que ser professor é uma profissão, cada vez mais, com menor respeitabilidade e reconhecimento social. O que tragicamente é uma profecia auto-realizável: Se dos professores se diz que são uns parasitas preguiçosos, é normal que acabe por ir para o ensino quem, de facto, tiver vocação para parasitar.

Digo tragicamente porque, como escrevem João Cerejeira e Miguel Portela, “nenhum sistema educativo pode ser melhor do que os seus professores”, o que é tão mais verdade num país como o nosso, com níveis de escolaridade baixos e em que, portanto, o meio familiar não pode suprir eventuais falhas do sistema educativo.

Portanto, da qualidade dos nossos professores depende a qualidade da nossa Educação. E desta depende, em grande medida, a nossa capacidade de crescer economicamente e de nos desenvolvermos socialmente. Era bom que nos lembrássemos disso. E que dedicássemos à Educação um carinho especial.

Nota: Vera Gouveia Barros escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

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