Papa Francisco para CEO do mundo

Parece que conversas de café, calhandrices de cabeleireiro e disparates que se ouvem nos táxis tomaram conta da agenda dos líderes.

Vivemos momentos imprevisíveis, a dimensão dos líderes é cada vez mais de desenho animado, a turbulência nos mercados está ao virar da esquina, as massas sem rosto estão angustiadas e sem confiança nas instituições que antes eram sólidas e até as anunciadas vagas de frio são uma ópera bufa.

Amanhã toma posse Donald Trump. Um dia, o mago da estratégia, Karl Rove, que conseguiu colocar um burro, George W. Bush, na Casa Branca, disse a máxima que deve orientar qualquer plano de comunicação e posterior acção política: «prever muito, improvisar pouco». Mas julgo que esta máxima não vai estar presente nesta presidência, será impossível prever o que se vai passar e a improvisação e o teclar no twitter baterá qualquer plano, caso o houvesse, duvido.

Nas últimas semanas saltaram para a ribalta assuntos como «chuva dourada» e até de prostitutas Vladimir Putin falou abertamente. Parece que conversas de café, calhandrices de cabeleireiro e disparates que se ouvem nos táxis tomaram conta da agenda dos líderes e o mundo adaptou, e respira sem se aperceber, a anormalidade à normalidade

Fazia bem que nos salões do poder – e não só – se visse a genial série criada por Peter Morgan, “The Crown”. Por ali vi, em diálogos que são absolutamente sumptuosos: «é nas coisas mais ínfimas que a podridão começa». Mas, acima de tudo, vemos como Isabel II aprende a adquirir a força despojada, o respeito pela Nação, a temperança com que encarna o poder e o dever. Em suma, a “gravitas” que deve presidir a quem lidera um País e que tão ausente está das criaturas que comandam neste momento o mundo.

Por isso, e num tempo em que há tanta petição sem interesse nenhum a circular, já alguém se lembrou de convidar o Papa Francisco para CEO do mundo? É que a fúria e a raiva das multidões não pode ser o combustível de quem decide. A tolerância, a calma e a paz de espírito não podem deixar de ser os embriões de quem nos governa.

Consta a história que antes de aceitar o desígnio para o qual o conclave o escolheu, Jorge Bergoglio disse aos colegas cardeais: «eu sou um grande pecador, confiando na misericórdia e paciência de Deus, no sofrimento, aceito». Mas eu gosto destes pecadores, os pecadores de bem, que tentam passar mensagens positivas e que as pessoas compreendem.

O Papa tem hoje um capital de reputação, notoriedade e simpatia inigualável. Mesmo os não-católicos respeitam um homem de espírito aberto, popular mas não populista, que percebeu o “zeitgeist” e que rompe totalmente com a agressividade que impera nos discursos, criando uma empatia fortíssima com quem o escuta. Em tempo de pós-verdade era tão bom que tivéssemos quem nos dissesse apenas a verdade. O Papa Francisco é muito melhor que o mundo actual.

Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

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