Para lá do inverno

A visão projetada por Von der Leyen foi clara: assenta no investimento em novas tecnologias numa aposta inequívoca na liderança europeia por um mundo mais verde, saudável e sustentável.

“Change by design – not by destruction”, foi com espírito de mudança, liderança e união e – arrisco dizer – de esperança que a Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, se dirigiu aos eurodeputados e aos cidadãos europeus, na semana passada em Bruxelas no discurso do Estado da União. Numa altura em que acusamos todos algum cansaço, resultado da pandemia, o discurso de Von der Leyen foi fundamentalmente centrado nas pessoas e com a ambição de uma União Europeia ainda melhor num momento pós-COVID19, uma visão para as próximas gerações.

A visão projetada pela Presidente foi clara: assenta no investimento em novas tecnologias numa aposta inequívoca na liderança europeia por um mundo mais verde, saudável e sustentável. Uma Europa na qual os Direitos Humanos não são negociáveis, são antes marca distintiva do nosso modo de vida.

Digitalização

Esta pandemia revelou que um vírus pode parar um planeta, mas não completamente. Ora vejamos: a tecnologia permitiu que muitas pessoas e empresas continuassem a trabalhar remotamente a partir de casa; aos jovens acompanharem a escola através de plataformas digitais; e a um incentivo ao e-commerce e aos pagamentos virtuais. Houve um impulso positivo (forçado) de adaptação que despertou as pessoas e as empresas para uma sociedade mais digital, no trabalho, na educação e até no lazer. E este caminho da digitalização e da economia do conhecimento é para seguir.

Se compararmos as consequências que o confinamento gerou em Portugal e na Irlanda, verificamos que a economia irlandesa sofreu muito menos que a portuguesa [1]. A estrutura da economia irlandesa assenta na indústria transformadora e no crescente peso do setor dos serviços – finanças, banca, tecnológicas – enquanto que a portuguesa tem um elevado peso do turismo, fortemente afetado pelas restrições à mobilidade. Este é um dos muitos exemplos que ilustram que o digital deve estar na base do relançamento da economia portuguesa. Quantas mais estratégias e planos de recuperação precisamos para se empreender esta mudança no futuro? Talvez seja desta.

Dados do World Economic Forum indicam que dois terços do investimento global em inteligência artificial (IA) é canalizado para a China[2], país francamente avançado na tecnologia e com condições de crescimento até hoje difíceis para a concorrência internacional. Estes números são reveladores do atraso europeu na digitalização e que justificam a prioridade absoluta da UE através da alocação de 20% do Next Generation EU no digital. Os setores associados à digitalização como a indústria dos dados (data), infraestruturas, representam um potencial gerador de muitos empregos e para isso os programas de upskilling serão cruciais para o ajustamento do mercado laboral.

Ambiente

Apesar da pandemia e dos desafios que a mesma acarreta num contexto de crise e posterior recuperação económica há riscos políticos, económicos e sociais em passar o ambiente para segundo plano. Ora, as alterações climáticas não entraram em standby por causa da COVID-19 e têm um potencial mais devastador.

Por isso, o objetivo de conseguirmos um continente europeu neutro em carbono em 2050 mantém-se firme aos olhos da Comissão, que defende as metas de redução dos gases de efeito de estufa para 55% (em vez dos 40% que antes ambicionava!) já até ao final de 2030. No entanto, a política ambiental vai muito além das emissões. Nas palavras de Von der Leyen – com as quais concordo inteiramente – o Green Deal representa “a modernização sistémica transversal da nossa economia, sociedade e indústria”.

É fundamental ter a sociedade mobilizada – famílias, empresas e Estado. O sucesso na redução das emissões envolve um impacto regulatório brutal, que pede, por isso, ações rápidas das instituições e dos governos. É um processo que exige, por exemplo, um comércio de emissões funcional, mecanismo de controlo de carbono nas importações, continuar a reforma da fiscalidade, aumento do uso das energias renováveis, e a melhoria da eficiência energética, em particular nos edifícios, responsáveis por cerca de 40% das emissões de carbono. Neste último caso, destaque para o programa europeu “Renovation Wave” que apoiará obras de melhoria na eficiência energética em habitação.

Mas também a economia circular é crucial. Apesar de termos só um planeta Terra, a estimativa é que até 2050 consumamos como se tivéssemos três! [3]

Estima-se que a aplicação dos princípios da economia circular em toda a economia da UE tem potencial para aumentar o PIB da UE em mais 0,5% até 2030, criando cerca de 700 000 novos empregos [4]. Há uma clara oportunidade de negócio para o setor privado: recordo que as empresas de manufatura na UE gastam em média cerca de 40% em materiais, pelo que modelos circulares podem aumentar as suas taxas de lucro bem como protegê-las das flutuações dos preços das matérias primas.

Saúde

A Europa fez mais em conjunto na saúde do que nunca. Quando países introduziram proibições à exportação de produtos médicos essenciais, a União trabalhou para que os equipamentos críticos pudessem ir para onde mais necessário. A indústria europeia desdobrou-se para aumentar a produção de equipamentos de proteção individual, testes e ventiladores e fizemos circular pessoal médico e pacientes. Coordenaram-se respostas, partilhou-se informação e desenvolvemos uma estratégia assente no conhecimento do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças.

Mas a visão é mais do que isto. É, entre muitas outras coisas, avançarmos para uma União Europeia da Saúde com uma agência biomédica de investigação e desenvolvimento, é desenvolver uma estratégia de gestão de stocks farmacêuticos e equipamento de proteção, reduzindo dependências de países terceiros, e é, sem tabus, discutir a questão das competências na área da saúde.

Todas estas dimensões articuladas representam a Europa em que queremos viver no pós-covid-19. A sustentabilidade económica, política e societal depende do sucesso das políticas públicas que as instâncias governamentais tiverem a coragem de implementar. O que assistimos da parte do Parlamento Europeu e da Presidente da Comissão Europeia é uma grande vontade de termos uma União melhor e mais capaz no pós-pandemia.

E da parte do Conselho Europeu, onde se sentam os governos? Continuaremos a encontrar, como muitas vezes até agora, mais entraves que boas vontades?

[1] https://www.irishtimes.com/business/economy/ireland-in-recession-as-economy-contracts-by-more-than-6-1.4348513

[2] https://www.weforum.org/agenda/2018/09/the-top-5-chinese-ai-companies/

[3] https://www.un.org/sustainabledevelopment/sustainable-consumption-

[4] Cambridge Econometrics, Trinomics, and ICF (2018), Impacts of circular economy policies on the labour market

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