Pedro Passos Coelho: Grace under pressure

Poucos portugueses contribuíram tanto para a recuperação e afirmação do prestígio internacional de Portugal. Obrigado, Pedro Passos Coelho.

A experiência profissional mais enriquecedora da minha vida foi a de membro do Governo liderado por Pedro Passos Coelho. Aprendi muito. Fiz o máximo que pude e fi-lo com entusiasmo e com a colaboração de uma grande equipa. Devo, por isso, a Pedro Passos Coelho ter-me nomeado secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Interna.

Fui nomeado num tempo difícil. Em abril de 2013, o estado de graça já tinha terminado com a crise da TSU em setembro de 2012 – medida que critiquei publicamente. Mas essa e outras críticas que faria publicamente ao seu Governo não impediram nem a minha nomeação, nem um tratamento sempre muito cordial e correcto por parte de Passos Coelho. Essa cordialidade e respeito mantiveram-se quando fiz críticas internamente, nomeadamente ao Orçamento do Estado para 2014.

A forma como reage às críticas é, sem dúvida, um dos traços mais admiráveis da personalidade de Passos Coelho. Tem aquela qualidade que Ernest Hemingway dizia admirar mais num homem: grace under pressure. Uma qualidade que se revelaria fundamental em momentos decisivos.

Pedro Passos Coelho teve de liderar o país no momento mais difícil da nossa democracia. A natureza e a dimensão das crises anteriores, nas décadas de 70 e de 80, não são comparáveis, nem na sua natureza, nem na sua dimensão com a crise de 2011.
O pedido de assistência financeira à troika, pelo Governo liderado por José Sócrates, foi o resultado da acumulação de desequilíbrios externos durante mais de uma década.

Estes desequilíbrios foram causados por uma quebra acentuada da poupança, com um importante contributo dos défices orçamentais do Estado. De facto, desde o início do século XXI, o investimento caía, o crescimento definhava, o desemprego aumentava. Estes aspectos distinguem a economia portuguesa das economias irlandesa e espanhola e surgem, normalmente, associados a crises mais longas e com maiores custos em termos de produto e de emprego.

Às dificuldades decorrentes da natureza da crise portuguesa, juntou-se uma conjuntura internacional muito adversa. A crise da zona euro, a forma desastrosa como o Banco Central Europeu, sob a liderança de Jean-Claude Trichet, a enfrentou na primeira fase, e a grave crise na vizinha Espanha (o nosso principal parceiro comercial), contribuíram para o aumento das taxas de juro e um aumento brutal do desemprego – um máximo de 17,6% em Janeiro de 2013.

Neste contexto, a generalidade dos analistas vaticinava uma espiral recessiva em 2013 e poucos acreditavam que o caminho que estava a ser trilhado pudesse ser bem-sucedido. O segundo resgate era um tema muito presente. As negociações com a troika eram duríssimas e as medidas de austeridade sucediam-se. A incerteza aumentava e as previsões económicas eram cada vez mais pessimistas. A hostilidade dos media e da população era crescente.

Em Junho de 2013, um colega de Governo dizia-me, angustiado, ‘quando isto acabar ninguém vai gostar de nós’ – estando nós a procurar fazer o melhor possível por Portugal. Poucos dias depois, Vítor Gaspar demitia-se. A seguir, Paulo Portas pedia também a sua demissão “irrevogável”.

A queda do Governo parecia inevitável. Esperavam-se eleições e, inevitavelmente, um novo resgate pela troika. Se o Governo tivesse caído nessa altura, teria sido verdadeiramente trágico. Não só pelos sacrifícios que, em vão, tinham sido exigidos aos portugueses desde 2010, mas também porque a economia estava prestes a entrar numa trajectória de recuperação – embora, à época, ninguém o pudesse adivinhar ainda.

Felizmente para Portugal, Pedro Passos Coelho surpreendeu todos ao não aceitar a demissão de Paulo Portas e ao insistir na solução de Governo suportada pela maioria parlamentar do PSD e do CDS. Com a tenacidade do então primeiro-ministro e a colaboração do Presidente Cavaco Silva, foi possível manter aquela solução governativa e reforçar a sua legitimidade.

A manutenção da estabilidade política num momento tão conturbado foi crucial. Para além de ter criado as condições para a saída com sucesso do resgate e para a recuperação da economia portuguesa, iniciada em 2013, Pedro Passos Coelho deu um enorme contributo para a afirmação da maturidade da democracia portuguesa, ao liderar um Governo de coligação, em condições tão difíceis, e cumprindo a legislatura.

Poucos portugueses contribuíram tanto para a recuperação e afirmação do prestígio internacional de Portugal. Obrigado, Pedro Passos Coelho.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

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