Petróleo vai financiar mudança do paradigma da energia

Portugal tem a obrigação de conhecer os seus recursos energéticos. A existência de hidrocarbonetos, em condições de exploração comercial, é uma dádiva para o País e não um ”pecado”.

Quando, há cerca de dois anos, assisti ao programa Prós e Contras cujo tema era um debate entre quem concordava ou não com a “Exploração de Petróleo no Algarve”, cedo foi percetível que o “cenário” montado no debate apontava num único sentido, isto é, diabolizar e impedir a realização do furo de prospeção e pesquisa que estava previsto fazer pelo consórcio Repsol/Partext numa das suas concessões na costa algarvia.

Como engenheiro de minas e ex-vice-presidente do Instituto Geológico e Mineiro, responsável pelo lançamento do concurso internacional que levou à atribuição das concessões a este consórcio, fiquei convicto que o Governo português não se deixaria influenciar pela argumentação demagógica em que o debate foi fértil, e que acabaria por confirmar o projeto, isto sem prejuízo de ter de acautelar todas as questões ambientais pertinentes levantadas no âmbito da discussão pública. A importância do projeto para a economia nacional, os elevados investimentos realizados em sísmica 3D no cumprimento dos programas de trabalhos aprovados, o conhecimento geológico que daí resultou, que ficou ao dispor do Estado português e que suportava a decisão técnica de realizar o furo com boas perspetivas de sucesso, eram razões mais do que suficientes para uma decisão favorável de continuação do projeto.

Cenário e argumentação equivalente vivi-o pessoalmente um ano depois num debate realizado no Centro Jean Monet em Lisboa, promovido pelo deputado europeu do Partido da Terra. O risco para o turismo, pela hipotética deterioração das águas das praias algarvias, e as emissões de CO2 para a atmosfera foram mais uma vez os argumentos esgrimidos para pressionar o governo a uma decisão negativa, o que acabou por vir a acontecer.

As razões que levaram o Governo a caducar os dois contratos do consórcio não foram com certeza as emissões de CO2, que não existem neste caso, ou os riscos ínfimos de poluição da costa algarvia em caso de produção de gás. Terão sido razões administrativas inultrapassáveis? Independentemente das razões que levaram à decisão de caducidade dos contratos, fica-se com a certeza que a mesma não foi no sentido de defender a economia nacional e o interesse da maioria dos portugueses.

Se olharmos para as maiores potências económicas mundiais, uma grande parte delas tem como um dos pilares do seu sucesso económico o aproveitamento dos seus recursos geológicos estratégicos. Mal vão os Países que não aproveitam essa dádiva geológica para reduzir a sua dependência externa em matérias-primas estratégicas e com isso contribuir para o aumento do nível de vida da sua população.

Tudo o que aconteceu nestes dois últimos anos poderia ter passado despercebido, não fosse estarmos de novo a assistir à repetição duma estratégia de contestação que levou o Governo a caducar os contratos da costa algarvia, mas em que agora o alvo a “abater” está na costa alentejana, onde também se desenham boas probabilidades de sucesso do furo que está projetado fazer ainda durante o ano de 2018.

Todos sabemos que o fim previsível da era dos hidrocarbonetos só acontecerá depois do fim do século (pelos menos mais 80 anos). Sendo assim, e havendo a possibilidade de Portugal ser autossuficiente em hidrocarbonetos, será que nos próximos 80 anos temos de continuar a importar essa matéria-prima, abdicando das receitas que poderíamos gerar internamente, e ficarmos sujeitos às oscilações de cotação dos mercados que podem condicionar fortemente a economia nacional?

Será que a militância de uma minoria conservacionista se sobrepõe ao interesse público de Portugal poder produzir riqueza que o ajudaria a pagar a sua dívida externa e a melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores portugueses? Urge, pois, que se faça uma discussão alargada a nível nacional para informar a opinião pública e desmistificar argumentos sobreempolados ou não aplicáveis nos cenários em discussão.

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