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Não haverá verba para o Museu da Ironia nem para um projecto que ensine os portugueses a preservar o seu país livre, limpo, pristino, orgulhoso e democrático. O PAN é o pomposo da política.

Lisboa cidade livre de beatas. Portugal o paraíso dos passeios imaculados. Por proposta do PAN os portugueses não podem deitar beatas para o chão. Tal acto selvagem incorre em sanção pecuniária e vergonha social. O PAN não se importa que os portugueses tenham uma relação pouco próxima com a higiene nos espaços públicos, mas a sua fibra moral não suporta o espectáculo deplorável de uma beata desmaiada no passeio da Avenida. É a preocupação com a saúde física e democrática do cidadão, à qual se junta o impulso metafísico para salvar o Mundo. Que um Deputado da Nação se dedique a estas inanidades e que seja levado a sério nos altos círculos da política nacional diz tudo sobre o estado comatoso do pensamento político indígena. Fica o sinal da virtude de um homem sem vícios.

Além do mais, o PAN conhece pouco da História do País e muito dos delírios ideológicos de uma visão nórdica de um Portugal que não existe. Desde há muito que Lisboa foi declarada uma variação de um “pesadelo africano”, alternando com a famosa e patriótica “formosa estrebaria”. Os habitantes sempre por direito e tradição atiravam o seu lixo pela janela, um modo particular de perfumar o cheiro fétido de uma cidade suja. Os cães vagueavam pela cidade e ocupavam-se da reciclagem dos resíduos para benefício da Humanidade. As ruas de terra batida alimentavam as torrentes de lama nos Invernos mais rigorosos. A falta de esgotos e de água canalizada também não contribuía para a higiene da cidade. Papéis, garrafas, beatas, os passeios profusamente cuspidos, os automóveis mal estacionados, os prédios abandonados, os jardins que se confundiam com reservas naturais, o desleixo geral e a indiferença oficial, faziam parte do “encanto” de uma cidade branca, despreocupada, que passava as horas à porta dos cafés a falar de futebol e a conspirar contra o Regime. Para descanso dos nativos e escândalo dos poucos turistas.

Mas estamos na idade do Progresso, sendo Lisboa a capital preferida dos turistas que pretendem gastar dinheiro de todas as denominações nesta faixa Ocidental. O observador “cínico” poderá sempre dizer que o Deputado do PAN terá apresentado uma medida política com imenso impacto na economia da Nação. Não se faz turismo numa cidade com ruas imundas e gente com hábitos insalubres. Seria interessante que a proposta do PAN libertasse a cidade do “atraso centenário”, da “pobreza lendária”, dos carteiristas, dos sem-abrigo, da especulação imobiliária, dos preços exorbitantes, da inflação que flagela os nativos, do calor excessivo, das esplanadas a cada esquina, das montras que se abrem para territórios inacessíveis ao comum dos portugueses. Seria ainda mais progressista que o PAN decretasse o fim do tabagismo, mais a abolição do insucesso escolar, o défice do Estado, a dívida pública, as indústrias obsoletas; e que de caminho estipulasse com o mesmo entusiasmo delirante, a eternidade do Serviço Nacional de Saúde, o esplendor da Escola Pública, o pleno emprego, o salário mínimo a 2000 Euros, as novas tecnologias verdes e a personalidade jurídica de todos os animais, pessoas e afins. E já agora que o País deixasse de ser um cenário para turista mostrar nas selfies e em que os nativos aparecem deslocados, como estranhos figurantes, espécie de adereço exótico muito apreciado na Europa e nas Américas. Por favor, digam adeus ao País Parque Temático.

Lamenta o observador “elitista” que o Deputado do PAN se tenha esquecido de mandar abrir livrarias, galerias de arte, alguns teatros, duas ou três Universidades de reputação internacional, uma sala de concertos, alguns Museus de carácter e qualidade globais, editoras de elevada excelência e uma rede de cuidados culturais intensivos para benefício dos portugueses e para o Progresso de Portugal. Mas não.

Com os objectos sancionados no decreto é sempre possível inaugurar o Museu da Resistência Ecológica à Beata e o Centro de Interpretação da Liberdade Animal. Certamente que não haverá verba para o Museu da Ironia nem para o Projecto Portugal Global – um projecto que ensine os portugueses a preservar o seu país livre, limpo, pristino, orgulhoso e democrático. O PAN é o pomposo da política.

O PAN é um partido que corre atrás do seu próprio chapéu e que não percebe como esse gesto oscila entre o cómico e o ridículo. Se o PAN fosse o próprio DDT (“Dono Disto Tudo”), iria expandir a sua imparável cruzada na busca de paraísos perdidos e sem préstimo; fundaria uma revista em que fossem tratados apenas assuntos irrelevantes tais como o extravio de três beatas retiradas de uma sarjeta; e espantaria Portugal com longos editoriais de pendor filosófico sobre os nomes de baptismo dos imigrantes de terceira geração numa Europa Livre de Fronteiras. Imaginam Portugal com a maior colecção do Mundo de Pontas Usadas de Charuto? Um contributo para o Progresso do Planeta, para o controlo das Alterações Climáticas, para a Civilização das Grandes Causas da Humanidade. “Abram o Universo um pouco mais!”

Nota: Autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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