PIB do terceiro trimestre: um alerta contra demagogias

De momento, o que está em causa é cumprir ou não o objetivo de crescimento para este ano (2,3%). Com 0,3% no terceiro trimestre, teríamos de ter um quarto trimestre de Fórmula 1 para chegar lá.

A Europa está a arrefecer e a conjuntura internacional está a mudar com um outlook negativo.

Vejamos os factos que são, como se sabe, teimosos. O terceiro trimestre dos Estados Unidos foi muito bom, quando comparado com a Europa, mas foi previsivelmente pior do que o segundo trimestre; na China, onde as entidades estatísticas não são independentes do Partido nem do Governo, sucedem se as pequenas revisões das projeções de crescimento, décima a décima mas em baixa sucessiva; na zona euro, o crescimento do terceiro trimestre foi de 0,2%, quando tinha sido de 0,4 no anterior. Ou seja, nos grandes blocos económicos, a tendência é de abrandamento (pelo menos face as expectativas).

Quanto a Portugal saiu finalmente a estimativa rápida do INE (quer dizer que ainda pode ser afinada, o que frequentemente acontece); tendo em conta esses dados interrompeu se a série ascendente do ano: tínhamos tido um crescimento do PIB de 0,4 no primeiro trimestre e de 0,6 (revisto) no segundo trimestre. Continuamos a crescer mas a desaceleração no terceiro trimestre foi nítida: 0,3. Isto quer dizer várias coisas.

A primeira é a confirmação de que Portugal é muito dependente da conjuntura externa. Quando a Europa arrefece, estando os nossos principais parceiros económicos na Europa a desacelerar (Espanha, Alemanha e França), é muito difícil escaparmos a esse vento.

Depois, é preciso confiar nos números e olhar para a realidade como é e não como gostaríamos que fosse. O Instituto Nacional de Estatística e o próprio Ministério das Finanças, para simplificar, têm uma espécie de Bimby e metem lá dentro todas as informações relevantes sobre as várias componentes do crescimento — seja o consumo, o investimento, as exportações — e produzem um número.

Não acho que esse número seja politicamente manipulável; mas é certamente um indicador que para a discussão orçamental que ainda aí vem. O indicador é manifestamente de cuidado e de prudência. Estamos a crescer menos do que que antes. E não me parece que o ano de 2019 se apresente — na conjuntura internacional — como muito luminoso.

De momento, o que está em causa é cumprir ou não o objetivo de crescimento para este ano (2,3%). Com 0,3% no terceiro trimestre, teríamos de ter um quarto trimestre de Fórmula 1 para chegar lá. E ai da assim, é difícil que se consiga atingir o objetivo. Teríamos de superar os 0,7 do último trimestre do último ano.

O que se recomenda aos deputados que têm de votar o Orçamento na especialidade? Precisamente o oposto da chamada demagogia eleitoral. Todas as demagogias têm um preço e normalmente não é pequeno. E o eleitorado é suficientemente maduro para perceber isto. Todas as pequeninas promessas por segmentos da população — para contentar grupos de votantes — quando somadas têm um custo; e pretendem distribuir mais quando o crescimento apresenta um sinal menos. Quando há uma retração do crescimento — não estamos em recessão, (nem sequer em estagnação) é um risco aumentar despesas ou até pior, tornar a despesa mais rígida para o futuro. Já devíamos ter aprendido…

Estamos a crescer a uma velocidade menor, logo é mais difícil atingir o objetivo. E se não crescermos o objetivo previsto, não temos receita suficiente; e sem essa receita fica mais complicado controlar o défice e reduzir a dívida. Portanto, cuidado. Estes números são um alerta; como se nos dissessem: ‘tomem cuidado com as decisões, não queiram ganhar votos à custa de um crescimento que não existe, e estejam atentos à conjuntura externa’.

Tomara que o quarto trimestre seja muito bom e os augúrios de Outono fiquem pelo caminho como estritamente conjunturais. Mas repito, este sinal do terceiro trimestre não foi brilhante.

Detalhe que não o é: todas as greves que visam prejudicar diretamente a viabilidade das nossas exportações (por exemplo nos portos) não se limitam aí exercício de um direito; são uma chantagem contra a economia nacional.

Brexit

Theresa May sabia que tinha quatro obstáculos pela frente (e não são simples…)

Comecemos pela questão de fundo: sou dos que preferem que haja acordo no Brexit em contraste com a alternativa de não haver acordo algum. Para isso ser possível os europeus do Continente devem excluir atitudes ou instintos punitivos; e os europeus das Ilhas Britânicas devem perceber que não é imaginável um acordo demasiado bom pela simples razão de que isso convidaria outros países a seguirem pelo mesmo caminho.

A preferência por um acordo dentro do desacordo não se deve apenas a razões políticas e económicas; em meu entender o principal argumento prático tem a ver com a debilidade de ambas as partes — se ficarem mutuamente isoladas — em termos de segurança europeia. É tanto verdade que os ingleses precisam da Europa como é verdade que a Europa, em termos de segurança, precisa do poder nuclear de que a Inglaterra dispõe. Sem o nuclear inglês o Continente fica resumido ao nuclear francês. Ora bem sabemos — descontando eloquências e declarações de amor eufórico — que a relação entre os franceses e a União Europeia tem que se lhe diga. Maastricht não morreu lá por 1%; e a chamada Constituição Europeia jaz em Franca sem exagerada homenagem. Donde, reduzir a metade o escasso poder nuclear da UE e entregar o seu destino apenas ao que sobrara em caso de divórcio litigioso — ou seja aos humores dos franceses sobre a Europa — parece-me evidentemente atrevido e pouco sensato.

Porque é que a senhora May avançou esta semana para a apresentação do deal possível com Bruxelas? Decerto porque o calendário aperta — mas também por outras razões menos notadas. Ambas são circunstancias da política interna inglesa. A primeira favorece May: o crescimento económico foi bastante melhor do que os prognósticos anteviam. O Reino Unido — em contra ciclo da mare continental — cresceu muito bem no terceiro trimestre. A progressão do PIB, em cadeia, foi de 0,6%, o que é três vezes mais do que a média da zona euro e o dobro do que Portugal registou no terceiro trimestre.

Há um outro fator da política interna britânica que parece ter acelerado as decisões: o líder trabalhista, que creio ser mais eurocético do que a senhora May, declarou no fim de semana passado a um jornal alemão que não haveria segundo referendo porque o assunto já foi decidido. Obviamente esta declaração do líder da oposição – que causou muitos aborrecimentos no Labour — melhorou um pouco as condições para revelar o acordo. Mas apenas um pouco…

A senhora May quando partiu para este desfecho sabia que tinha de vencer várias etapas, e todas eram e são muito difíceis.

  • Primeiro, conseguir a aprovação de um Governo onde convivem eurocéticos puros e duros, eurocéticos eurocéticos suaves e eurofílicos moderados (eurófilos radicais não me parece que haja no Reino Unido ) ; esta composição do gabinete era demasiado abrangente para poder haver um consenso fácil ou um desfecho sem saídas…
  • Segundo, May sabia que pode ter de evitar ou vencer uma disputa de liderança do Partido Conservador, porque há umas dezenas de deputados conservadores que se prepararam para vetar qualquer acordo com o outro lado do canal da Mancha. Tentarão colocar a questão da liderança embora os números sejam exíguos.
  • Em terceiro lugar — e este parece me o ponto mais difícil — obter o voto do Parlamento. Ora, como lhe faltam umas dezenas de deputados conservadores e podem ainda faltar lhe os onze unionistas da Irlanda do Norte, por causa da questão da fronteira e da integridade do Reino, parece me óbvio que só com o apoio de alguns trabalhistas é que o deal passaria. São deputados de que se fala menos mas existem: trabalhistas que não queiram correr o risco de ver um novo líder conservador mais competitivo do que May (se ela perder o voto parlamentar teria de se demitir) e também não querem abrir o caminho a Corbyn, um eurocético muito de esquerda que lidera o Labour e rompeu com a ‘terceira via’ de Blair e Brown. Só se derem um passo em frente é que o deal pode passar — mas se não derem esse passo tão pouco terão futuro no Partido que historicamente representa a esquerda europeísta no Reino Unido.
  • E, por fim, ainda falta ver o que é o acordo em concreto. Há um prazo há um ate 2021 para fazer a negociação em concreto, nomeadamente das futuras regras comerciais entre a União e o Reino. Ora modelos de união aduaneira muitos — e o diabo está nos detalhes.

No tema irlandês é preciso recordar o obvio : como a Irlanda do Norte faz parte do Reino Unido e a República da Irlanda faz parte da União Europeia só haveria duas soluções para evitar fronteiras novas: ou uma união aduaneira em que todo o Reino Unido tem acesso ao mercado interno, em certas condições e aí não há diferença entre Londres e Belfast, estão todos dentro; ou estariam todos fora com grave prejuízo para a economia britânica, o que a Irlanda do Norte não quer é um regime diferente do resto do Reino Unido, porque isso obviamente aumenta a tensão e a pressão para uma reunificação das Irlandas.

Só na próxima semana o segundo e terceiro desafio para May ficarão mais claros.

Até agora vai sobrevivendo deixando um mar de cacos a volta.

Do ponto de vista de Portugal, é evidente que é preferível que haja acordo, atendendo ao número de portugueses que estão no Reino Unido — umas centenas de milhar — cujos direitos devem ficar intactos tanto quanto possível. Por outro lado o Reino Unido é um dos nossos principais parceiros comerciais. De modo que é preferível exportar para lá e precisar de pagar tarifas especiais e novos direitos e burocracias de alfândega. É uma evidência que, para nós, também por razões políticas de estabilidade e de confiança na Europa, é preferível que haja acordo. Veremos.

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