Política sobre as chamas da Notre Dame

A Notre Dame não é apenas uma Catedral, é o símbolo de uma civilização, um edifício feito da matéria intangível que liga os povos da Europa.

Não é um Porsche a arder na Avenue Kléber. São os fumos negros que se soltam da Notre Dame que empurram a atmosfera de Paris. Multidões reúnem-se para testemunhar o acontecimento de uma vida. Orações a céu aberto, sinos que consagram o dia, uma súbita viagem à Europa Medieval. O Presidente Macron cancela a comunicação à Nação sobre as conclusões do Grande Debate para seguir in loco o capricho das chamas. Na noite do incêndio, o discurso eminente do Presidente revela um Júpiter fragilizado, emocional, abatido sob o peso e o destino de uma França Eterna. No coração da civilização, a Catedral da Europa arde. O Presidente representa a fragilidade política e social de uma França fustigada por atentados, protestos, divisões, uma Nação debilitada pelo conflito entre um individualismo laico e um sentido de identidade e de comunidade sustentado no tempo e na História. Subitamente, eis o espectáculo de uma França unida em torno da ruína de uma Catedral. Macron procura uma oportunidade política no desastre da Notre Dame, a variação de um “Momento Mitterrand”, a concretização na paisagem de Paris de um edifício emblemático que sirva como símbolo de uma certa visão da França. François Mitterrand deixou o Arche de la Défense, um monumento aos Direitos Humanos em pleno Bicentenário da Revolução Francesa.

Por ironia dos tempos, a Catedral de Notre Dame, torres e pináculo incluídos, cabem confortavelmente no interior do Grande Arche. O contraste entre os dois edifícios é também o conflito entre o “Cubo e Catedral”, o violento embate entre a visão racionalista da pura forma e a complexidade interna do tempo na fluidez do gótico. Macron está entre duas perspectivas políticas contrárias, entre o culto da razão ou a razão da identidade. Neste sentido, o destino político de Macron está na capacidade de reconstituir a alma histórica da França, a Nação mítica dos seus discursos, o centro da cristandade política da Europa, mas também a referência revolucionária da Europa. Por este motivo o Presidente propõe o “Renascimento da União Europeia”, pois salvar a Europa representa a salvação da França.

A ligação entre a Europa e a França é constitutiva do Projecto Europeu, mas constitutiva também do tecido histórico da França. O Grande Debate conta com 1 milhão de contribuições online, 10,000 horas de reuniões por toda a França profunda e apresenta-se como os Estados Gerais contemporâneos. No discurso cancelado pelo incêndio, Macron preparava-se para anunciar a baixa dos impostos; um conjunto de políticas públicas de promoção da proximidade entre a França urbana e a França rural; medidas de reforço de uma vertente participativa na democracia francesa; uma nova estratégia para o combate às alterações climáticas; aumento da componente proporcional na representação política e alargamento do âmbito e da frequência dos referendos; maior investimento público nos sectores da saúde e da educação; redução do número de deputados; eventualmente o encerramento da emblemática escola de formação da elite política francesa, ENA, École Nationale D’Administration.

O programa político é pesado, mas após o incêndio na Catedral de Paris, o programa pode estar desfasado da realidade e da identidade francesas. O rosto que se ilumina com as chamas da Notre Dame tem tanto de tradicional como tem de moderno. Décadas de improvisação política face ao fluxo interminável de mudanças, para além de gerar um clima permanente de crise e uma sensação indelével de declínio, colocam a Nação de França perante um novo “Momento Maquiavélico”. Com o espelho assimétrico do incêndio da Notre Dame, a Quinta República Francesa vê-se obrigada a reconhecer e a enfrentar a sua própria mortalidade política face ao fluxo avassalador de “acontecimentos irracionais”.

Nestes momentos decisivos, a Nação tem de interpretar a seta do tempo e perceber que tem de agir politicamente, quer no sentido do reforço da soberania, quer na afirmação da sua própria legitimidade. Macron não escolhe o tempo em que governa, mas é obrigado a reconhecer que a sua tarefa exige a visão de um grande estadista e a autoridade de um grande monarca. Estas duas dimensões surgem no híbrido de arrogância que envolve tudo o que Macron faz e diz politicamente. O dever do estadista e do monarca é a segurança dos seus cidadãos. O dever do estadista e do monarca na Europa é a protecção de todos os cidadãos. Novamente a difícil conciliação entre a segurança e a liberdade, o patriotismo e o cosmopolitismo, a democracia liberal e o registo populista.

O fumo negro da Notre Dame lembra o negro da guilhotina que raspou de sangue as ruas de Paris e que devastou o Antigo Regime. Espectador da História, actor na confluência entre a fé, a razão e o engenho, a Notre Dame guarda a relíquia da Coroa de Espinhos. Trazida de Jerusalém para Constantinopla no século IV por Helena, mãe do Imperador Constantino, ali esteve por 1000 anos. Quando o Imperador de Bizâncio se viu obrigado a reunir um exército para fazer a guerra, pediu um empréstimo aos banqueiros de Veneza e deu como garantia a relíquia sagrada. Luís IX, Rei de França, ao tomar conhecimento da indignidade, emprestou a soma necessária no valor equivalente às despesas de França durante um ano, oferecendo em troca um lugar digno e seguro para a Coroa de Espinhos. A relíquia chegou a Paris em 1239 e desde então repousa na Notre Dame.

A Notre Dame não é apenas uma Catedral, é o símbolo de uma civilização, um edifício feito da matéria intangível que liga os povos da Europa. Para além do fogo, do fumo e da fuligem, está o espírito de um Continente repleto de conflitos e de contradições, mas que apesar de todas as contingências conseguiu edificar uma civilização política e cultural absolutamente global. O problema da Europa ecoa no nevoeiro da nave da Notre Dame.

Nota: O autor escreve o abrigo do antigo acordo ortográfico.

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