Ponham os turistas no comboio!

Não é preciso abdicar do ambiente ou do turismo, se a estada média aumentar, é possível fazer crescer o turismo sem comprometer o objetivo de "salvar a natureza".

Tinha eu cerca de nove anos quando criei o clube “Vamos Salvar a Natureza”. Como o nome deixa antever, era um clube que juntava pessoas que estavam preocupadas com as questões ambientais. Quer dizer, na verdade, eu estava preocupada com a poluição e com o esgotamento dos recursos naturais e tinha conseguido convencer meia-dúzia de familiares próximos e uma ou outra amiga a ser membro, o que dava direito a um cartão em forma de flor. Em contrapartida, eles obrigavam-se a adoptar comportamentos ambientalmente sustentáveis e ajudavam-me a afixar cartazes na vizinhança e na escola.

Gosto de pensar que há quem tenha passado a escovar os dentes de torneira fechada, porque viu na entrada do prédio o Bart Simpson a recomendar que o fizesse. Mas é capaz de ser optimismo meu. Impactos à parte, o clube “Vamos Salvar a Natureza” foi provavelmente a minha primeira manifestação de cidadania activa e de compromisso com um mundo melhor. Um compromisso que se mantém e que me levou a escolher o curso de Economia.

Apesar de ter andado uns tempos a querer ser engenheira ambiental e de o João Joanaz de Melo ter sido um ídolo, não me especializei em Economia do Ambiente. Uma das minhas áreas de interesse é a Economia do Turismo.
Há uns dias, um amigo conhecedor destes aspectos da minha biografia decidiu colocar-me perante um dilema. Mandou-me as declarações do Presidente da Associação Zero, Francisco Ferreira, para quem é preciso travar o crescimento do turismo, não estimular a sua procura, porque, sendo um sector que se baseia no transporte aéreo, está a contribuir fortemente para a emissão de gases com efeito de estufa. O meu amigo queria saber de que lado eu me punha, turismo ou ambiente, numa espécie de “escolha de Sofia”.

Só que eu não vejo a necessidade de abdicar de um deles. Não, não estou a negar a existência de um problema ambiental em boa parte causado pela emissão de dióxido de carbono, nem a recusar a pegada carbónica do transporte aéreo. E não, não estou a sugerir que façam como Greta Thunberg e troquem o avião por um veleiro. Se a estada média aumentar, é possível fazer crescer o turismo sem comprometer o objectivo de “salvar a natureza”. As viagens aéreas servem para trazer os turistas até Portugal; se eles ficarem mais tempo, é possível aumentar o número de dormidas (e, provavelmente, as receitas geradas) – ou seja, o turismo crescer – sem incrementar o número de voos.

Portugal é um Estado pequeno, mesmo no contexto europeu. São pouco mais de 92 mil km2, mas onde se encontram praias e montanhas, aldeias de xisto e casas caiadas; onde se come papas de sarrabulho e cracas; onde se assiste à dança dos paus e ao fandango. Tanta diversidade de paisagem, de gastronomia, de costumes condensada num pequeno território é uma das vantagens competitivas do nosso destino turístico. Há que aproveitá-la e pôr os nossos turistas a percorrer o país.

Na história do turismo em Portugal, o comboio teve um papel fundamental: a construção de mais de dois mil quilómetros de linhas férreas no final do século XIX concorreu para que se adquirisse o hábito da viagem por mero prazer. E os homens dos caminhos-de-ferro desse tempo tiveram a consciência da importância do turismo para a sua actividade, revelada na preocupação com a arquitectura e a estética das estações. O que agora dá matéria para o desenvolvimento do turismo ferroviário, que o XXII Governo tem no seu Programa e nas suas Grandes Opções do Plano 2020-2023. Há um mês, voltou a circular na linha do Vouga um comboio a carvão-vapor, juntando-se, assim, ao Douro na oferta de comboios históricos, que permitem, nas palavras da CP, “uma viagem no tempo” – ao passado, entenda-se.

Só que, no presente, a capacidade ferroviária é um dos aspectos em que não nos posicionamos muito bem no ranking da competitividade turística do Fórum Económico Mundial: na qualidade da infraestrutura, ocupamos a 39.ª posição (entre 140 possíveis) e, em termos da densidade da rede, estamos no 29.º lugar, com uma cobertura abaixo da média europeia. Ora, ter uma boa rede de caminho-de-ferro a funcionar é um ingrediente importante na estratégia de pôr quem nos visita a ficar mais tempo e a conhecer mais Portugal, contribuindo para um crescimento do turismo ambientalmente (e não só) sustentável. No âmbito do Programa Nacional para a Coesão Territorial, até existe uma medida denominada “Conhecer Portugal de Comboio”, mas a sua implementação está por iniciar.

Portanto, vou concordar com Francisco Ferreira quando afirma que temos de “fazer ligações ferroviárias rápidas dentro do país”. E acrescento que temos de fazê-las rapidamente. A proposta de Orçamento de Estado entregue na Assembleia da República há umas semanas prevê-o. Estabelece como uma das suas grandes prioridades “progredir num conjunto de investimentos estruturantes na área dos transportes”, cujo “primeiro eixo assenta na requalificação, modernização e expansão da Rede Ferroviária Nacional previstas no Plano Ferrovia 2020”. Sim, porque chegados a Dezembro de 2019, percebemos que o “vinte-vinte” daquele programa era o ano para todos os projectos de investimento no sector estarem iniciados, não concluídos. Esperemos não descobrir em dezembro de 2020 que “o maior crescimento do investimento público de entre todos os países da Zona Euro” era só o orçamentado, não o executado.

Nota: A autora escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

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