Portugal depois de domingo

Não esquecer que há 50 por cento dos portugueses que se estão marimbando para tudo, esse é o sintoma mais grave da deterioração de 45 anos de um regime anquilosado.

Marcelo Rebelo de Sousa será a figura tutelar depois do arraso da direita nas urnas. E após a reeleição em Belém, ainda mais livre se sentirá para ser o “master of puppets” da reorganização de um espaço a cheirar a “napalm” e completamente em convulsão. Curiosa foi também a manobra de Cavaco Silva a mandar o dardo envenenado para dentro do PSD, quase suplicando a cabeça de Rui Rio, e a lançar Maria Luis Albuquerque. Só que nunca ninguém se pode esquecer que entre ele e o partido que o projectou, Cavaco optou sempre por ele próprio e para o PSD sempre se esteve marimbando. Enquanto isso, António Costa apresta-se para constituir o Governo e manobrar o jogo em que não há melhor especialista. Do rendilhado da política não há melhor gestor que o líder do PS e aí nessa negociação tem artes mágicas já provadas em diversas sedes. Tanto BE como PCP, dizem os números de eleitores, perderam com a Geringonça e, dos partidos com representação parlamentar, só o PAN cresceu nas legislativas tal como o PS.

O PS ganhou claramente e podia ter tido um melhor resultado, porém, a campanha teve diversos sobressaltos que lhe roubaram o horizonte de uma maioria absoluta. O PSD teve o pior resultado de sempre desde os tempos de Mota Pinto, já la vão 36 anos. Rio pode disparar contra sondagens, comentadores, sombras internas e mais alguns fantasmas que sempre lavraram na sua cabeça, contudo, era bem melhor fazer um exame de consciência e tentar perceber se fez bem o papel de líder de oposição. Ora, até os seus companheiros de partido mais fieis lhe dirão que se quer ganhar eleições não pode ter o estado de desaparecido em combate. Ou então que falasse realmente verdade e assumisse que o seu desejo mais íntimo era uma Grande Coligação como na Alemanha juntou CDU e SPD, levando assim os laranjas ao poder. Agora pode lutar como a melhor das lapas para se manter na cadeira da São Caetano, onde por sinal se sentou pouco pois optou por dirigir o partido do Porto pois a Corte não é muito com ele, porém, é um náufrago agarrado a um pedaço de madeira que vê as barbatanas de tubarões a caminharem para si.

No CDS era visível a falta de energia de Assunção Cristas. Quando um bom “campaigner” perde a sua força vital, é fatal como o destino que o resultado vai ser mau. Escolheu mal o slogan, era o de Pedro Santana Lopes nas autárquicas de 2009 – “Lisboa com Sentido” -, a campanha medíocre parecia uma caminhada risonha para o abismo. Sim, é ali que está o CDS, no abismo. Um dia ressuscitou, mas não sei se o comboio da história se reescreve outra vez. Vai depender do próximo líder. Sem Paulo Portas, que não tem vontade de ser salvador da pátria, o partido pode ser engolido por um movimento novo. Não sei se o Adolfo Mesquita Nunes conseguirá agregar e atrair quem deixou de confiar em Cristas, ou se o CDS tem de dar um salto geracional ao contrário e recorrer à experiência e traquejo de António Pires de Lima para voltar ao trilho mais liberal que parece ser a melhor pista neste momento.

O BE salivava por crescer, no entanto, perdeu votos apesar de manter o número de deputados. Consolidou-se como terceira força, tem cartas para jogar, quer o poder mas não se quer colar ao poder do PS. No dia em que isso acontecesse, sofreria o efeito do abraço do urso e ficaria estrangulado. Realço que o Bloco é, provavelmente, em todas as variáveis da comunicação política a organização mais profissional e competente e um “case-study” de como conseguir crescer utilizando os media tradicionais, semeando comentadores, “influenciadores” e criando estrelas que são a malha do seu crescimento. O PCP vai afunilando e decrescendo o seu eleitorado. Jerónimo de Sousa, pela sua bonomia, simpatia e carisma, ainda é o melhor seguro de vida para os comunistas sobreviverem nas urnas. No dia em que o trocarem por um jovem de barba cuidadosamente aparada, igual a tantos outros sem história, o PCP perecerá às mãos do BE ou do PS. O PAN teve nestas eleições o escrutínio público e informativo que nunca tivera, sem ele teriam crescido mais. São vencedores indiscutíveis, porém, não basta ter causas simpáticas e que agradam a todos os que gostam de animais e do planeta, chegou a altura de André Silva e seus correligionários aparecerem mais bem preparados sobre outras matérias onde manifestamente não são competentes.

Quanto à Aliança, antes de ir aos novos partidos na AR, Pedro Santana Lopes nunca devia ter saído da Santa Casa da Misericórdia. Assim não teria disputado eleições com Rio e depois não tinha de ultrapassar o calvário penoso da criação de um partido, Nestas eleições ninguém o aconselhou a escolher uma ou duas ideias marcantes como o fez no tempo da sua campanha mais brilhante, em 2001, quando derrotou João Soares em Lisboa. E em 2019 o seu mel evaporou-se, já não é moda como nesses gloriosos dias, tinha de se reinventar, contudo, andará por aí a combater como Sá Carneiro e Mário Soares. O Chega tem um resultado que deve ser olhado com atenção, pois, excluindo o Norte, é o sétimo no ranking. É um partido de um homem, que só tem uma cara (apesar da presença nas imagens de Diogo Pacheco de Amorim, homem experiente que esteve com Manuel Monteiro no CDS) com presença televisiva, com um discurso facilmente compreensível e que explora uma série de vazios e fraquezas do Estado como a Justiça. Posso não gostar de todas as ideias expressas por André Ventura, e algumas até são perigosas, mas, como democrata. tenho de reconhecer que foi eleito por milhares de concidadãos e tem direito a estar sentado em São Bento. O Livre deve a eleição ao carisma da candidata e à sua gaguez que acabou por colher simpatias. A Iniciativa Liberal teve uma campanha inteligente, outdoors que marcaram a diferença, seduziu uma série de bons quadros em diversos distritos e se apresentarem um candidato com outro potencial mediático a Lisboa em 2021, que não o deputado pois até o Rato Mickey seria eleito, podem com esse rosto caminharem, como disse no Expresso da Meia-Noite na SIC, para ser uma espécie de Ciudadanos e se tornarem um partido de poder, porque são já um Movimento e é dos Movimentos que vêm as mudanças do sistema. E não esquecer que há 50 por cento dos portugueses que se estão marimbando para tudo isto, esse é o sintoma mais grave da deterioração de 45 anos de um regime anquilosado.

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