Prós e Contras e a má qualidade do debate em Portugal

Na notícia do fim do “Prós e Contras”, o director de Informação da RTP revela que haverá um novo programa de debate no canal público. Mas duvido que até lá se crie no país um novo estilo de debater.

Há 16 anos, a RTP estreou o programa “Prós e Contras”. Em Outubro de 2002, ainda não se vivia (ou não o percebia eu) o clima de trincheira, de claque, que se tornaria tão evidente 13 anos depois. Mas quem pensou aquelas duas horas da grelha nocturna de segunda-feira parece ter sabido prevê-lo e o próprio cenário foi montado com dois lados da barricada. Os episódios que vi convidaram-me a não repetir a experiência. A que me sujeitei, mesmo assim, uma ou outra vez, quando em discussão estiveram temas que me interessam particularmente.

Há uns dias, a RTP anunciou que, em Dezembro, termina o “Prós e Contras”. Não posso dizer que lamente o fim daquilo que a Wikipedia descreve como “uma janela aberta sobre a sociedade portuguesa, respeitando a diversidade de opiniões e a representação democrática”. Ora, eu concordo que o programa era uma janela aberta sobre a sociedade portuguesa. E deve ser isso que explica que eu não fosse particularmente fã dele. Independentemente de algumas questões de estilo, o “Prós e Contras” espelhava a qualidade do debate em Portugal: muito má.

Desde logo, porque não existe o respeito pela diversidade de opiniões. A sabedoria popular diz que os gostos não se discutem. E, segundo Cavaco Silva, duas pessoas sérias e possuidoras da mesma informação terão de chegar à mesma conclusão. Pois deixem-me contradizer ambos, o povo e Cavaco Silva. Duas pessoas inteligentes não têm de ter preferências idênticas, nomeadamente em termos de ideologia. E, por isso, partindo do mesmo conjunto de informação, as conclusões a que chegam podem ser diversas.

Por outro lado, essas preferências, esses gostos, são perfeitamente passíveis de ser debatidos e até explicados. Naturalmente, discuti-los é muito mais interessante se houver disponibilidade para mudar de ideias, mas o fundamental é que esteja estabelecido à partida que acabar a concordar em discordar é um resultado possível.

Claro que, quando o debate é encarado como um combate com resultado de soma zero, essa disponibilidade desaparece. Não se está disponível para escutar a outra parte, para tentar compreender a sua razão e para, fazendo um exercício de dialéctica, convencê-la dos nossos argumentos. Não. O objectivo é derrotar quem está do outro lado. E muitas vezes é mesmo quem está do outro lado, nem sequer são as ideias, porque estas passaram a valer em função de quem as tem e não por si mesmas. De início, parecia-me incoerência; agora já percebi que as pessoas são coerentes, mas segundo um critério diferente, o da fidelidade pessoal e/ou partidária.

Neste clima de beligerância, quem não está a favor é porque está contra. E estar a favor implica aceitar todos os argumentos que sustentam a posição que defendemos. Mesmo os que não são razoáveis ou baseados em factos errados. Por exemplo, se alguém disser que o Santa Clara é o melhor clube de futebol porque joga de verde e eu retorquir que isso não é justificação porque ele joga de vermelho, o que daqui habitualmente retiram é que eu não sou adepta do Santa Clara. Aliás, que detesto o Santa Clara. E que detesto verde, já agora. Analogamente, há que rejeitar todos os raciocínios usados na defesa de posições contrárias. Incluindo os que têm nexo e fazem sentido.

Neste clima de beligerância, confunde-se previsão e desejo. É possível que os portugueses se tenham convencido de que, para alguma coisa se tornar realidade, basta desejá-la muito (e esperar que aconteça). Mas, ainda que assim fosse, isso não implicaria a causalidade inversa, ou seja, que prever um acontecimento significa que se quer que ele se concretize. Mesmo quando algumas profecias se podem dizer auto-realizáveis.

Na notícia do fim do “Prós e Contras”, o director de Informação da RTP revela que haverá um novo programa de debate no canal público. Mas duvido que até lá se crie no país um novo estilo de debater. Aliás, receio que demore muitas grelhas de programação. Mas pode ser só um certo pessimismo que esta semana tomou conta de mim.

Nota: Vera Gouveia Barros escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

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