“Que é a verdade?”: perguntou Pôncio Pilatos a Jesus Cristo (João 18:23)

  • Luís Gomes
  • 1 Outubro 2019

Informam-nos que a deflação é algo diabólico, trágico mesmo. Que argumentos são utilizados para tal conclusão?

Vivemos num mundo de contradições; a educação é universal, as sociedades nunca estiveram tão bem preparadas, o ensino superior democratizou-se, no entanto, as falácias e os sofismas prosperam.

A desinformação sobre temas económicos e de mercados financeiros nunca foi tão gritante; aos nossos olhos, uma elite de banqueiros centrais, burocratas e políticos vendem, todos os dias, patranhas sem qualquer contraditório. Acreditamos acriticamente em tudo o que nos dizem, como se fossem dogmas: eles são os novos presbíteros que nos conduzem à salvação.

O famoso burlão “Bernard Madoff” foi condenado a 150 anos de prisão, após a descoberta de ter sido o principal responsável por um dos maiores esquemas piramidais da história. A Segurança Social funciona exactamente da mesma forma, com apenas duas diferenças: (i) os “clientes” do sistema são obrigados a aderir, com risco de prisão caso não o façam, ao passo que o burlão Madoff tinha de angariar os seus clientes, convencendo-os que tinha uma metodologia de gestão mágica, quase sobrenatural; (ii) os “clientes” podem sair do sistema numa idade definida pelo estado e sempre que se sobe essa idade, estamos na presença de uma grande reforma, de enorme coragem. O burlão Madoff informava os clientes que, caso desejassem abandoná-lo e levantar o seu dinheiro, nunca mais poderiam voltar ao clube. A um, chamamos solidariedade intergeracional, a outro, fraude.

O charlatão Alves dos Reis imprimia notas iguais às do Banco de Portugal, levando uma vida de luxo durante vários anos em Lisboa. Após ter sido descoberto, foi condenado a 20 anos de prisão, dos quais 12 anos de degredo. Os bancos centrais imprimem moeda sem limites, denominando-se tal prática por “Quantitative Easing”: um nome pomposo. Todavia, nada lhes acontece! O oposto do que aconteceu ao celebrado Alves dos Reis. Segundo nos informam, os bancos centrais actuam para o nosso bem, pois estão a estimular a economia.

Informam-nos que a deflação é algo diabólico, trágico mesmo. Que argumentos são utilizados para tal conclusão? As pessoas, quando tal acontece, diferem o seu consumo, esperando por preços mais baixos no futuro. Caso tal aconteça, a contracção económica está ao virar da esquina. Funestíssimo!

Há muitos anos atrás, quando os computadores não paravam de descer de preço, algum consumidor foi tentado a não comprar algo que necessitava de imediato? Alguém no seu perfeito juízo deixa de comprar um bem ou um serviço porque agora custa 100 e daqui a um ano 95? Não será que isto é beneficiar os pobres e desfavorecidos, pois o poder aquisitivo da moeda que têm no bolso incrementa. A subida da produtividade, fruto da acumulação e inovação capitalista, resulta em preços mais baixos para todos: uma verdade que desapareceu!

Podemos ler no artigo 62.º, ponto 1, da Constituição Portuguesa o seguinte: “A todos é garantido o direito à propriedade privada e à sua transmissão em vida ou por morte, nos termos da Constituição.” Será correcto? O sistema bancário pode utilizar de forma impune o sistema de reservas fraccionadas, ou seja, concede crédito a particulares e empresas a partir da emissão de moeda do “nada”, diminuindo, desta forma, o poder aquisitivo do dinheiro que temos no bolso, uma óbvia agressão à propriedade privada. Não obstante, esta prática está perfeitamente legalizada e é responsável pelas crises financeiras que atravessamos, cada vez mais acentuadas.

Segundo consta, o fenómeno da inflação resulta da evolução de um índice de preços definido por uma agência governamental: será mesmo assim? Não deveria ser a evolução da massa monetária. Se imaginássemos que o Alves dos Reis, com as suas fantásticas notas falsas, decidia comprar maçãs no mercado de Lisboa, sem qualquer preocupação em relação preço: o que iria acontecer ao mesmo? Correcto: o preço subia! A propriedade privada dos outros era afectada, atendendo que, agora, com a mesma quantidade de dinheiro, compram menos maçãs.

Exactamente o que aconteceu com toda a massa monetária emitida nos últimos 10 anos pelos bancos centrais. Já alguém reparou que as casas, os activos financeiros, como as acções e as obrigações, e os passes dos jogadores de futebol, entre outros, subiram expressivamente e sem cessar. Não será que massa monetária emitida do ar “correu” para esses bens, provocando subidas exponenciais do seu preço. A título ilustrativo, o principal índice do mercado bolsista norte-americano, o S&P 500, subiu 300% desde mínimos de 2009. Qualquer cidadão se apercebe que os preços sobem de forma inexorável, todavia, segundo a versão oficial, a inflação é algo que não existe ou está próxima de 0%. Os banqueiros centrais inclusive perseguem o “Santo Graal”, a denominada inflação-alvo de 2%. Sabe Deus quem inventou tal alvo!

É um consenso que consumir agora é preferível a consumir no futuro. É precisamente o que significa conceder um crédito: alguém que realiza um sacrifício no presente para consumir no futuro; por essa abnegação, essa pessoa exige um preço, por exemplo, de 5% ao ano. Agora, informam-nos que taxas de juro negativas é um fenómeno de mercado que veio para ficar, uma nova verdade. Não será que as mesmas resultam da compra de títulos de dívida, a partir de moeda emitida do “ar”, provocando a descida da rendibilidade desses títulos, inclusive para um valor negativo?

Face a este mundo de novas “verdades”, nunca a educação financeira foi tão imprescindível. Se um cidadão deseja proteger as suas poupanças, de uma vida de trabalho, terá que encontrar a solução pelas suas mãos, ou então procurar obter formação e informação com alguém que não aceita este “novo mundo”, de “novas verdades”. No fundo, o importante é não nos tornarmos vítimas do tão celebre pensamento de Joseph Goebbels, ministro da propaganda Nazi: “De tanto se repetir uma mentira, ela acaba se transformando em verdade.”

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

  • Luís Gomes
  • DIF Broker

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