Quem assusta mais?

Quando os portugueses estiverem com a BIC enrolada num cordel, naquele momento irão decidir sobre quem afectará mais o seu bolso e quem os assusta mais.

Sondagens são momentos, um instrumento de análise para máquinas de campanha, comentadores e peças de mobilização ou desmobilização de pretensos eleitores. Se condicionam? Sem dúvida. Porém, numa disputa eleitoral há outros momentos que a condicionam. Nestas legislativas os debates e Tancos têm papel que não pode ser secundarizado.

Até aos debates, nenhuma pessoa na plena posse das suas faculdades e que esteja atenta à espuma dos dias diria que Rui Rio teria condições para bater António Costa. O que estava em cima da mesa das dúvidas a serem dissipadas no domingo era se o PS atingiria a maioria absoluta, outorgando-lhe os portugueses a responsabilidade de governar sem a elaboração de uma qualquer nova Geringonça.

A verdade límpida dos factos é que Rio esteve bem nos debates, ganhou novo ânimo e deu nova esperança a uma máquina laranja emperrada por diversos egos que não gostaram do processo de elaboração de listas e, valha a verdade, de outros que não concordaram com os sinuosos labirintos de uma oposição que durante muito tempo não existiu. Aliás, o renascimento de Rio para o combate foi a pior notícia para os novos partidos à direita, Aliança, Iniciativa Liberal, Chega, que esperavam lavrar o seu caminho de crescimento num eleitorado que não se revia no PSD e no seu líder. Com a sua boa prestação, os sociais-democratas voltaram ao centro do jogo, afastando-se das sondagens que lhes davam ridículos 20 por cento.

Depois, veio Tancos que solidificou uma perceção que não existia antes do início oficial da campanha. A disputa centrou-se nas duas figuras, Costa/Rio, e assim se robusteceu uma alternativa ao primeiro-ministro. Só com a ópera-bufa que teve por epicentro Azeredo Lopes a pele de líder da oposição foi claramente vestida.

Ora, Costa que por mérito próprio tinha ocupado o trono que distribuiria as migalhas do poder, sentiu o embate. A dois dias das eleições, o PSD pode cativar o voto útil à direita, o CDS míngua a cada minuto, porém, este crescimento também pode levar para o PS eleitorado moderado assustado com Rui Rio e as memórias traumáticas do PSD de Passos Coelho, Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque.

Contudo, no fim de uma campanha insípida há uma verdade insofismável: não há ninguém que fascine os portugueses. Os tempos de antena medíocres, o debate a 15 dos pequenos partidos uma tragédia, ações de campanha com políticos a andar de metro, autocarro e a apanhar maçãs em Lamego, por exemplo, ultrajantes para quem anda todos os dias de transportes e trabalhar de sol-a-sol por um salário abaixo da média europeia.

Quando os portugueses estiverem com um dos maiores símbolos da pelintrice da nossa democracia, aquela BIC enrolada num cordel para exercer o direito de cidadania, mais do que o coração, naquele momento de solidão anónimo, o que irão decidir é sobre quem afetará mais o seu bolso e quem os assusta mais. No domingo saberemos.

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