Quem quer ser Capitão Portugal?

  • Fernando Sobral
  • 4 Janeiro 2020

Num Portugal onde ainda falta uma estratégia para o cinema e para a televisão, temos talentos desperdiçados. No Governo ou na anémica oposição.

O célebre escritor Raymond Chandler foi, um dia, convidado para escrever um argumento para o realizador Billy Wilder. Apesar de Hollywood lhe causar dores estomacais, Chandler aceitou. Com uma condição. Que lhe pagassem 150 dólares pelo trabalho. Surpreendido, Billy Wilder respondeu que tal não seria possível. Porque o estúdio já tinha decido pagar-lhe 750 dólares. Hoje seria impensável este tipo de negociação, porque o valor do trabalho da generalidade dos argumentistas, escritores ou intelectuais está bastante desvalorizado. Alguns, poucos, são pagos como reis. A maioria recebe como pajens. Ninguém se espanta. A classe média vai-se desintegrando. Nas sociedades, no futebol, na cultura, no audiovisual.

No cinema vive-se também um confronto de fim de civilização. Em Hollywood sobram super-heróis digitais e sonolentos e faltam filmes estimulantes, no “streaming”, Netflix, HBO e Disney+ buscam o que pode garantir audiências e tornam-se o refúgio de realizadores e argumentistas.

Entre a espada e a parede, o mundo das salas de cinema tenta não ser o último moicano. Num Portugal onde ainda falta uma estratégia para o cinema e para a televisão, temos talentos desperdiçados. No Governo ou na anémica oposição. O sr. Augusto Santos Silva, por exemplo, seria um bom argumentista para um filme de super-heróis. Tem experiência. Escreveu parte importante do guião do consulado do sr. José Sócrates e, pelos vistos, está a fazer o mesmo no tempo do sr. António Costa. Gosta de mostrar os músculos, exemplificando, enquanto diz algumas palavras, que vai partir tábuas como se fosse um karateca. Raramente tem dúvidas. Tem certezas feitas de betão sobre a gestão das empresas. Infalibilidades que fariam corar o sr. Tom Peters. Mas que revelam a fibra de um político quando faz de Fred Astaire num baile de políticos profissionais.

Deixemos uma tímida recomendação. Num mundo sedento de histórias de super-heróis, o sr. Santos Silva poderia fazer a sequela da “Guerra dos Tronos” ou, mais modestamente, do “Capitão América”. Embora este pudesse fazê-lo acreditar que é o Capitão Portugal deste pequeno país.

Se tal desiderato sucedesse, o país tremeria. O que faria ele com os poderes de Capitão Portugal? Fazia da oposição e dos gestores, matéria-prima para pipocas? É certo que o poder é como o cinema. Tem de criar ilusões. A sétima arte de hoje procura criar fins felizes. Os Governos tentam perpetuar-se no poder. Mas, por aqui, tudo parece previsível. Até a candidatura do sr. Santos Silva a guru da gestão o é. Porque a oposição tradicional também vive também o seu momento Netflix: os conclaves do PSD e do CDS para escolherem os seus líderes prometem ser, até lá, séries que ficarão entre o drama e a comédia. Sobram protagonistas e faltam ideias novas. Não é um acaso que a voz da oposição em Portugal seja, neste momento, o sr. André Ventura. O concurso para protagonista do filme “Capitão Portugal” promete. Não faltam talentos à espera que a Marvel passe o cheque.

O mundo político e cultural está a mudar a uma velocidade digna de Flash. Até grandes realizadores como Martin Scorsese tiveram de se render ao canto da sereia do “streaming”. O seu “O Irlandês” marcou 2019 pela qualidade do filme. Mas, também, pela polémica sobre a sua não exibição nas salas de cinema de vários países, incluindo Portugal.

É certo que os investimentos faraónicos da Netflix em novas produções levam muitos a questionar-se se o modelo de negócio é viável a prazo. Será uma “bolha criativa” que rebentará um dia destes? Sobra outra questão. Os super-heróis destruirão, à sua volta, a criatividade? Scorsese, em artigo no “New York Times”, desancava este universo: “Nos filmes da Marvel não há revelação, mistério, nem autêntico perigo emocional. Não há nenhum risco”.

O mercado chinês, o segundo maior do mundo para o cinema, tem a resposta cínica. Quer filmes, onde o filho respeita o pai, onde há respeito pela autoridade do Estado, onde o criminoso é punido, como dizia Olivier Assayas ao “Le Monde”. Os filmes de super-heróis de hoje detestam o risco, ambicionam os lucros rápidos e respeitam os valores da autoridade. Têm certezas. Detestam dúvidas. São a ideologia deste pouco admirável mundo novo.

Sugestão da semana

No Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, pode ver-se uma série de trabalhos do pintor português Álvaro Pirez de Évora, que trabalhou na Toscana italiana entre 1410 e 1434. Uma figura importante nos alvores do Renascimento.

  • Fernando Sobral
  • Jornalista

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