Recessão global à espreita

A incerteza é imensa. Se vai haver uma recessão global ou não é impossível de antecipar com exatidão, mas a situação económica e financeira mundial é muito delicada.

Segundo Donald Trump, os EUA gozam da melhor economia de sempre: o crescimento do PIB excedeu 3% no primeiro trimestre, a taxa de desemprego encontra-se ao nível mais baixo desde a década de 60 e os índices acionistas batem recordes quase todas as semanas. Neste entorno, será razoável contrariar o presidente americano?

Na verdade, Trump pode estar redondamente enganado. Porventura, os riscos de recessão nunca estiveram tão altos desde a Grande Crise Financeira. Isso mesmo sugere o indicador do modelo de recessão da Reserva Federal de Nova Iorque (Fed NY) para os EUA, o qual se situa no nível mais elevado desde 2008 e assume um valor que no passado sempre correspondeu a episódios recessivos (com uma única exceção em 1968).

A predição do modelo da Fed NY é coerente com a tendência de deterioração de vários dos principais indicadores macroeconómicos dos EUA nos últimos trimestres. Não obstante, muitos analistas confortam-se com o facto da taxa de desemprego estar em 3,7%. Acontece que, por construção (e não sem um pouco de ironia), como as recessões começam na fase mais alta do ciclo, uma taxa de desemprego muito reduzida constitui um dos melhores indicadores avançados de recessão, como ilustra o gráfico em baixo.

O excelente desempenho do mercado acionista americano também não é garantia de manutenção da expansão: no ciclo económico anterior, o índice S&P 500 atingiu o máximo em outubro de 2007, escassos meses antes do início oficial da recessão nos EUA, em janeiro de 2008.

Se nos EUA a situação não é famosa, no resto do mundo é pior. O setor industrial global está em recessão e os volumes de comércio internacional estão a recuar.

Assim, não surpreende que a China tenha registado o crescimento mais baixo dos últimos 27 anos no segundo trimestre do corrente ano, apesar do forte estímulo orçamental em curso. Tais desenvolvimentos são críticos para a saúde da economia mundial porque a China há décadas que vem sendo o dínamo global, o que claramente deixou de ser o caso, dada a queda das importações chinesas que se tem vindo a observar.

No caso da Alemanha, verifica-se uma quase estagnação da atividade justificada por uma depressão na indústria, que só não se materializou numa contração efetiva da economia devido ao forte impulso da construção e à resiliência do consumo. O facto das expetativas inflacionistas na área do euro implícitas no mercado de taxas de juro (1) estar no patamar mais baixo de sempre sugere a existência de um excesso de capacidade industrial instalada, o que a confirmar-se poderá implicar um prolongamento da recessão industrial na Europa.

Sinais suplementares de degradação do ciclo económico mundial incluem o forte abrandamento da atividade no Japão, a queda do preço da generalidade das matérias-primas industriais, a valorização do ouro e a significativa redução das pressões inflacionistas globais.

Como sabemos, a esta evolução desfavorável dos indicadores de atividade económica acrescem riscos geopolíticos não despiciendos.

Perante esta cornucópia de riscos, o que esperar dos mercados financeiros globais?

A resposta a esta questão é algo circular, uma vez que os mercados financeiros dependem da reação dos bancos centrais, especialmente da Reserva Federal americana, do mesmo modo que a política monetária está cada vez mais ancorada na prestação dos mercados financeiros.

A ambiguidade resulta, por um lado, da dificuldade que a Fed terá em justificar uma redução agressiva das taxas de juro perante as reduzidas taxas de desemprego e níveis recorde nos principais índices acionistas americanos, sendo que, por outro lado, um pequeno ajustamento à política monetária poderá não ser suficiente para inverter a deterioração subjacente da economia, para além de poder provocar uma reação adversa nos mercados acionistas e no dólar, com efeitos desastrosos no sistema financeiro global.

A incerteza é imensa. Se vai haver uma recessão global ou não é impossível de antecipar com exatidão, pois como alguém disse, fazer previsões é difícil, sobretudo sobre o futuro. Mas a situação económica e financeira mundial é muito delicada e, como tal, merece acompanhamento de perto.

[1] Expetativas inflacionistas apuradas através das taxas de juro swap do euro a 5 anos, 5 anos forward.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história e às newsletters ECO Insider e Novo Normal.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Recessão global à espreita

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião