Santana: a Aliança só tem uma esperança

Eu sei que é Santana e que ele se presta ler nas estrelas. Mas é tempo de esquecer a psicologia e recorrer à história e aos números: há lugar para esta Aliança?

O diagnóstico

Vamos dar uma oportunidade a Santana Lopes? Ele acaba de formalizar o seu novo partido e traz uma arma poderosa: A notoriedade de alguém que anda pelo mundo da política há 30 anos, pelo mundo do desporto há mais de 20 e pelo das televisões desde o tempo da TV a preto e branco.

Parece pouco e parcial (porque também lhe conhecemos os defeitos todos). Mas tem a grande vantagem de o colocar já nas perguntas das sondagens e de lhe trazer palco garantido nas televisões e nos debates da campanha – que é onde as eleições contam mais.

Quer uma prova? Não fosse a viagem de António Costa a Angola e o Aliança de Santana tinha sido o tema da semana: teve direito a diretos, a entrevistas, a tema do Fórum TSF, a fotos de primeira página. É caso para o PAN, que tem representação parlamentar, ficar roído de inveja. E suficiente para que o próprio Santana se tenha entusiasmado, dizendo à TSF, que o partido “não nasce para um dígito” [ter menos de 10%], mas sim para chegar aos dois “e conseguir um lugar entre os maiores partidos”.

Não devemos desvalorizar, também, a experiência e os contactos: Santana já não é o homem do PSD, mas é o ex-provedor da Santa Casa que correu país e conheceu meio mundo. É o líder de anos da única instituição que teve dinheiro para investir e ajudar nos anos da troika.

Convém, ainda, não subestimar o animal político. Santana está mais velho, ainda é o “enfant terrible” dos congressos e discursos, ainda é o político do instinto e das emoções. Aquele que é capaz de ir a qualquer luta, de falar com as mãos e de chorar à nossa frente. Como prova o nascimento deste Aliança, este Santana ainda vive da política e não quer viver sem ela.

No política de hoje, direta, personalizada e emotiva, tudo isto é ouro. A dúvida é se será suficiente para Santana dar nova luz à direita e mexer com o sistema partidário, como tem acontecido lá por fora. Será que basta um Santana Lopes para fazer uma Aliança de sucesso?

O problema

À primeira vista podia chamar-se… Santana. Porque perdeu muitas eleições nos últimos anos (umas legislativas, umas autárquicas, duas diretas no PSD). Porque lhe pesa a imagem de instabilidade: Entra e sai, avança e recua, levanta-se e cai. Dizem os especialistas em “santanismo” que essa é a sua maior fragilidade. Acrescentam depois que também é a sua maior virtude.

Como a psicologia não é a minha especialidade (e me parece só uma maneira de ninguém se comprometer), talvez seja mais produtivo olhar para os factos e procurar respostas neles. O que fiz foi revisitar os resultados das eleições legislativas desde 1980, para tentar perceber com que linhas se cose esta Aliança. Primeiras conclusões?

  • Em Portugal, a direita (PSD+CDS) tem quase sempre menos votos do que a esquerda: nunca teve mais do que 55% dos votos e, desde Cavaco Silva, só fez mais de 50% por uma vez, quando Sócrates levou o país para um resgate.
  • Quando o PS está no Governo, a direita não consegue mais do que 43% – sendo que a norma é, nessas circunstâncias, ficar pelos 40%, como aconteceu em 1999 e em 2009.
  • Acresce que, agora, a média das sondagens publicadas não dá aos dois partidos de direita mais do que 35% das intenções de voto, mostrando o PS acima dos 40% (bem acima dos 32% de 2015) e o PSD abaixo dos mínimos, nos 27%. As melhores contas, como sempre, são feitas pelo Pedro Magalhães.

 

Mas Santana Lopes argumenta que está a lançar “um novo partido”. E um novo partido traz sempre um novo élan, certo? Não, não é o que nos diz a nossa história eleitoral.

  • Não faltando nunca pequenos ou novos partidos, só o PRD conseguiu chegar aos dois dígitos que ambiciona Santana (há uma exceção evidente, mas já lá vamos). Acontece que o PRD era, em 1985, o partido de um Presidente da República (Ramalho Eanes). E, como sabemos, nasceu num momento terrível para o PS: depois da vinda do FMI, quando Soares saiu e ficou Almeida Santos, o homem que levou o PS para mínimos de… 20,7%.
  • Para além do PRD só outros três pequenos partidos conseguiram ter lugar na Assembleia: a UDP, em 1980; o PSN, no ano da segunda maioria de Cavaco Silva; e o PAN, nesta legislatura. Os três casos têm isto em comum: só conseguiram eleger um deputado, sempre por Lisboa. Até aqui (veremos o que acontece com o PAN) esse deputado nunca chegou a ser reeleito.
  • Em quase 30 anos só uma exceção confirmou a regra: O Bloco de Esquerda que, mesmo sendo uma fusão de partidos históricos da democracia, só elegeu fora de Lisboa, Porto e Setúbal muitos anos depois de conseguir chegar ao Parlamento. Convém anotar uma vez mais: O Bloco nasceu à esquerda, num espaço com mais eleitores e num momento em que governava o PS católico, centrista, de António Guterres. Valerá uma comparação?

É por saber tudo isto (ele anda por aí há 30 anos, lembra-se?) que Santana nos tem dito que a sua maior aposta é conseguir o voto dos abstencionistas. Bem sei que esse universo é maior do que o de qualquer partido (4,2 milhões de portugueses em 2015, mais do dobro do que conseguiram PSD e CDS nas mesmas eleições). Mas nem aí a história ajuda Santana: a única vez que a abstenção desceu nas legislativas foi em 2005, quando ele perdeu para José Sócrates. A dúvida é, uma vez mais, legítima: será ele agora, tanto tempo depois e vindo de dentro do sistema, a conseguir o que mais ninguém conseguiu?

A conclusão?

É que quase tudo joga contra Santana e a sua Aliança:

  • O facto de os pequenos partidos quase nunca se terem imposto.
  • O facto de nenhum líder partidário que assumiu uma rutura ter sido bem compreendido (vide Manuel Monteiro e a sua Nova Democracia).
  • As regras do sistema político, que financiam apenas os partidos já com assento no Parlamento e cortam as pernas a campanhas ambiciosas.
  • O sistema eleitoral, que nos círculos mais pequenos exclui sempre os pequenos e ajuda os grandes. Que o diga o Bloco que só agora conseguiu eleger deputados fora de Lisboa, Porto e Setúbal, ao fim de 16 anos, quando conseguiu chegar aos tais dois dígitos….
  • Joga também contra o facto de a direita ser curta e estar em crise, com o PSD a perder para o PS nas sondagens.
  • Joga o facto de Santana se posicionar à direita de Rui Rio e de, tal como ele, parecer prescindir do eleitorado mais à esquerda.
  • E, “last but not the least”, joga contra Santana o facto de a sua Aliança não trazer diferenciação, como temos visto lá fora, com os novos partidos que mexeram com outros sistemas partidários. Não é como “A Liga” em Itália, porque Santana não é um populista nem um anti-euro; não é como o “Cidadãos” em Espanha, porque Santana não se posiciona ao centro; não é como Macron em França porque Santana não já não vai para novo nem vem de fora dos partidos – foi o motor de um deles durante muitos, muitos anos.

Face a isto, resta a Santana um alvo, uma esperança: Que Rui Rio faça o que parece, partindo o PSD e excluindo os seus críticos, repetindo a nível nacional o efeito que Teresa Leal Coelho provocou nas últimas autárquicas, em Lisboa. A esperança de Santana é que a direita se parta e ele, qual Fénix, possa renascer desses escombros. É certo que Santana não é Macron. Mas será Rui Rio François Fillon?

P.S. Para ser eleito em Lisboa bastam pouco mais de 20 mil votos a Santana – como bastou à UDP, PSN e PAN. Isso não dará a Santana um grupo parlamentar, mas garante-lhe uma cadeira em São Bento. Conhecendo-o, não chegará para o fazer feliz.

Notas soltas da semana

  1. A bajulação a Angola: Costa elogia a “transparência” do Governo angolano, quando este recusa comprometer-se com o pagamento integral das dívidas às empresas portuguesas; Costa diz alegremente que “o irritante” acabou, como se não estivesse a falar da autonomia do poder judicial português; Costa adia o processo de escolha do PGR para não ferir suscetibilidades do Presidente angolano a meio da visita. Pelo meio, a oposição cala-se, o Bloco silencia-se, os jornais (até eles) aplaudem, com a veemência com que atacam a Hungria por se transformar num Estado não democrático. Vamos mesmo discutir as calças de ganga de António Costa?
  2. Enquanto Costa decide sobre a PGR, uma perguntinha: Que é feito do pacto da justiça, proposto pelos agentes do setor e entregue no Parlamento há nove meses? Ficou esquecido?
  3. Uma reunião espetacular: Diz o Expresso que Costa e Catarina Martins se reuniram em São Bento para falar do Orçamento, mas que não falaram do elefante na sala – a taxa Robles. Está bom, o ambiente, não está?
  4. Um aviso (sério): O Alfa Pendular esteve em risco de descarrilar – só por sorte o pior não aconteceu. A EMEF diz que há anos não consegue responder à solicitação de peças. Alguém pede uma inspeção urgente, para não voltarmos a Entre-os-Rios, sff?
  5. Uma perplexidade: Três anos depois de ter parado as obras, o Governo lançou agora um novo concurso para a ala pediátrica do Hospital de São João. Mas se havia um projeto e curso aprovado pelo Tribunal de Contas, é preciso voltar à estaca zero porquê? E quanto tempo mais vai demorar, assim, o processo?
  6. Um elogio: O jornal Público pôs o Ministério da Administração Interna em tribunal, por este se recusar a mostrar documentos sobre os incêndios do ano passado. Chama-se serviço público e dever de transparência.
  7. Uma tristeza: A comissão parlamentar da transparência iniciou funções em 2016 e ainda não chegou a consenso, sequer, sobre o primeiro dos quatro dossiês que tem em mãos. Razão tem o deputado Trigo Pereira: “É um descrédito para todos”.
  8. Uma inevitabilidade: Os taxistas protestaram, a Uber e Taxify ganharam clientes. A concorrência é uma chatice.

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