Saudi Aramco. Entre o sol e a neblina à beira do IPO

  • Nuno Esteves
  • 8 Novembro 2019

Investimento de longo prazo na Saudi Aramco irá estar dependente da sua capacidade em atrair investidores que acreditem no seu plano para uma economia mais sustentável.

A oferta pública de venda (OPV) da petrolífera saudita, Saudi Aramco, promete ser a maior de sempre, entre os 36 e os 45 mil milhões de euros, eclipsando a OPV do gigante do comércio eletrónico, Alibaba, em 2014.

Com receitas de 132 mil milhões de dólares, no primeiro semestre de 2019, e um lucro de 42 mil milhões de dólares, em igual período, a Saudi Aramco é unanimemente considerada a empresa mais rentável e valiosa do Mundo, ultrapassando por larga margem, as tecnológicas Apple e Amazon, e a soma das cinco maiores petrolíferas do Ocidente, Exxon Mobil, Shell, BP, Chevron e Total.

Para esta rentabilidade das arábias contribuem decisivamente os custos de extração por barril de petróleo, que no reino saudita se situam nos 8,90 euros, face a uma média em outras geografias, nomeadamente americana e europeia, entre os 33 e os 53 euros. É desta variável crítica, baixos custos de produção, aliada, a um monopólio estatal e às segundas maiores reservas do Mundo, a seguir à Venezuela, que tornam a Saudi Aramco, tão apetecível, ao nível da rentabilidade e ao acesso a uma generosa distribuição de dividendos.

Ainda assim, e apesar de números tão florescentes, existem um conjunto de nuvens no horizonte que podem ofuscar a solidez da empresa saudita.

  1. Desinvestimento das energias fósseis: a entrada em bolsa da petrolífera saudita, coincide com o aumento da consciência ética sobre os investimento em energias poluentes, sendo disso exemplo, a saída dos fundos norueguês e malaio deste setor, com a ressalva negativa, da Saudi Aramco, ser a empresa mais poluente a nível mundial, com 4.4% das emissões de carbono a terem origem nas suas unidades industriais.
    À medida que mais cidades declarem o estado de emergência climática, neste momento são 11.117 municípios em 23 países, incluindo Portugal, e maior seja a percentagem de veículos elétricos nas estradas, menor será o consumo de hidrocarbonetos e menores serão as vendas e o lucro da empresa.
  2. Diversificação desfavorável do modelo de negócio: a venda, entre 1% e 2%, da petrolífera saudita está inserida num plano de reforma da economia, em que um dos eixos da estratégia do Príncipe Mohammed bin Salman passa pela redução da dependência do petróleo com um incremento das energias renováveis e do setor químico. A menor preponderância do petróleo nas suas vendas irá originar uma tendência de alinhamento da sua rentabilidade com a de outros operadores e exaurir as margens de negócio atuais.
  3. Risco reputacional: ainda que seja um tema ignorado por grande parte dos investidores, mais preocupados com o risco-retorno dos seus investimentos, a Arábia Saudita é uma geografia que prima pela ausência de direitos humanos, com o assassinato e desmembramento do jornalista Jamal Khashoggi, no último ano, sendo também, um local com o registo de perseguições religiosas, étnicas e identitárias. Uma maior consciencialização das empresas quanto à seletividade moral dos seus investimentos pode levar a que um conjunto relevante de atores financeiros se abstenha de participar nesta dispersão de capital, causando uma retração na procura dos títulos.

Com o Mundo em mudança e uma alteração no paradigma de consumo, ainda que alguns dos líderes mundiais permaneçam cristalizados no passado, o investimento de longo prazo na Saudi Aramco irá estar dependente da sua capacidade em atrair investidores que acreditem no seu plano para uma economia mais sustentável, assim como, num país com menores assimetrias de género e ideológicas.

  • Nuno Esteves
  • Colunista

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