Só o homem penitente passará

Num país mais sensível ao papel fundamental dos empresários, o ministro dos Negócios Estrangeiros, perante tal “gaffe”, teria apresentado a demissão. Em Portugal, basta ficar-se pela penitência.

O ano de 2019 terminou com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em penitência, na sequência das críticas que antes dirigira aos empresários nacionais. A “fraquíssima qualidade da sua gestão” é um dos principais problemas das empresas portuguesas, sentenciara dias antes o ministro. A resposta dos empresários foi rápida e, pela voz de António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), que atacou o ministro num registo invulgarmente contundente, “ficámos assim a saber qual a imagem que um dos mais importantes elementos do Governo tem das empresas e empresários nacionais. A percepção confessada diz muito da forma como cumpre no exterior a missão que o país lhe confiou”.

Num país mais sensível ao papel fundamental dos empresários, o ministro dos Negócios Estrangeiros, que tem por missão “vender” a imagem do país lá fora, perante tal “gaffe”, teria apresentado a demissão. Em Portugal, basta ao ministro ficar-se pela penitência.

O episódio relatado fez-me recordar o filme “Indiana Jones e a última Cruzada”. No filme, ao chegar à caverna do Santo Graal, Indiana Jones depara-se com uma série de desafios mortais. O primeiro desafio consiste em fintar as lâminas mecânicas que ameaçam decapitá-lo. “Só o homem penitente passará”, repete o nosso herói ao entrar na caverna, antes de se ajoelhar e de se curvar, fintando assim as lâminas mortais. O segundo teste leva Jones a saltar de pedra em pedra, de letra em letra, até completar o nome de Deus em latim (“…but in the Latin alphabet Jeovah begins with an i”), num desafio ao seu conhecimento e atenção ao detalhe. O terceiro e derradeiro teste consiste num salto de fé, em caminhar sobre um precipício sem fim, em cima de um tronco invisível aos descrentes. “You must believe boy, you must believe” – susurra Jones Pai, prostrado no exterior, depois de ter levado um tiro no estômago, à espera do cálice da eternidade trazido por Jones júnior que lhe irá sarar a ferida. Indy acredita, vence e salva o dia.

A saga de Indiana Jones é épica e ficará para sempre na história do cinema. Mas Santos Silva não é Indiana Jones. “O homem penitente é humilde perante Deus” – diz a personagem interpretada por Harrison Ford. O problema é que a penitência de Santos Silva nada teve de humilde. A atitude do ministro foi precisamente a oposta, ao afirmar que “é preciso mudar o tecido industrial” e que se pode “esperar sentado” se se supõe que o atual tecido industrial português “é capaz, por si só, de perceber a vantagem em trazer inovação para o seu seio e a vantagem em contratar pós-graduados e doutorados”.

São palavras de uma enorme arrogância intelectual que, como sublinhou António Saraiva, indiciam “um sectarismo ideológico incapaz de reconhecer méritos e competências à iniciativa privada”. Um sectarismo que ainda não está ao nível do que se ouve nas convenções do Bloco de Esquerda, onde há um ano se ouvia que “os empresários portugueses são burros”, mas que representa a mesma visão estatista com base na qual tudo se muda a partir de uma restrita elite no Estado, da localização das aldeias ao pedigree das empresas.

Segundo estudos recentes (vide “Assimetrias e Convergência Regional”, publicado em 2018, um trabalho coordenado pelo Professor Fernando Alexandre da Universidade do Minho), a percentagem de gestores diplomados em Portugal é próxima de 50% (face ao total de gestores), sendo que a proporção de trabalhadores diplomados é de apenas 20% (face ao total de trabalhadores). Ou seja, o nível de instrução entre os gestores portugueses é francamente superior ao nível de instrução evidenciado entre o conjunto de trabalhadores subordinados.

Evidentemente, numa comparação internacional, persistem desníveis de instrução entre Portugal e a Europa, tanto entre gestores quanto entre trabalhadores, mas esse não é um problema específico desta ou daquela empresa. Trata-se, antes, de um problema global do país e que justifica uma atenção particular à qualidade do ensino em Portugal. Políticas públicas que libertassem a educação do jugo centralizador do Estado poderiam, por exemplo, contribuir para melhorar o ensino em Portugal, mas disso o ministro esqueceu-se.

Em Portugal, desde 2012, a despesa em investigação e desenvolvimento realizada pelo sector privado é superior à do sector público (conhecerá o ministro estes números?). Os números do sector privado podem naturalmente melhorar, e é muito provável que continuem a melhorar, mas atribuir-se ao sector privado um alegado atavismo no domínio da inovação é ignorar as estatísticas. É desvalorizar o caminho que tem sido feito nos últimos anos e não sair do sectarismo ideológico. Acima de tudo, é desdenhar do que temos entre nós, numa atitude de menino mimado para quem o que é do vizinho é que é bom.

Há um caminho a fazer, e o ministro até identificou algumas pistas, como a aposta nas novas tecnologias (“ciências dos dados, engenharias e informáticas”) e na necessidade de recapitalização das empresas, mas seria um erro mudar o tecido industrial por decreto e incorporar doutorados nas empresas por imposição estatal, como se depreendeu nas palavras do ministro.

As empresas portuguesas, como as suas congéneres europeias, beneficiariam de maior qualidade de gestão. Mas beneficiariam ainda mais da sua incorporação em sectores de maior valor acrescentado. Esta incorporação está relacionada com a qualidade de gestão, mas uma e outra não constituem exactamente a mesma coisa.

É possível ter boa qualidade de gestão e, apesar de tudo, continuar num segmento de baixo valor acrescentado. É o que tem sucedido em alguns segmentos de serviços nos últimos anos, sobretudo aqueles relacionados com o turismo e viagens. E também é possível estar num segmento de alto valor acrescentado, de grande visão estratégica, mas sem qualidade de gestão e em condições precárias.

Assim, para facilitar a evolução para níveis superiores de valor acrescentado, a par de uma maior qualidade de gestão, há na minha opinião três domínios de base que terão de melhorar. É o caso da educação – o domínio mais importante de todos –, a digitalização e modernização da administração pública – incluindo aqui a área da justiça – e o financiamento da economia.

Antes de se preocuparem com a qualidade de gestão das empresas privadas, os agentes do Estado deveriam estar preocupados em saber se os serviços públicos aos quais as empresas privadas são obrigadas a recorrerem funcionam de forma eficaz ou não. Os agentes do Estado deveriam também preocupar-se em fazer chegar aos cidadãos os recursos públicos destinados ao financiamento da educação da forma mais eficiente possível. Deveriam, por fim, perceber de que forma responde a regulação sectorial, a cargo de entidades públicas, dos sectores regulados da economia portuguesa, designadamente no sector financeiro, aos desafios do futuro.

Se estes três eixos estiverem afinados, que não estão, a concorrência doméstica e internacional, bem como as possibilidades de alocação de recursos e obtenção de lucros, encarregar-se-ão de conduzir espontaneamente os empresários portugueses rumo a segmentos de maior valor acrescentado e também a maiores índices de qualidade de gestão. O homem penitente é humilde e acredita no futuro. O outro faz de conta e, no meio da sua soberba, constrói um mundo paralelo.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo a nova ortografia.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

Só o homem penitente passará

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião