Sugestões para não ‘ensarilhar’ a vacinação

Depois da designação de um militar para a task force da vacinação, há três "pendências" a ter em conta na reorganização do plano que está em curso.

Depois de várias semanas horribilis, eis que o esforço, a restrição e o tormento das saudades que todos temos de uma vida normal, começam a dar resultados palpáveis. De facto, os dados dos últimos dias mostram que um Estado de Emergência rígido funcionou e que estamos a conseguir fazer retroceder os números pandémicos. Estão manifestamente melhor, com uma redução de 36% na média de novos contágios e de 6% no indicador das fatalidades por milhão de habitantes. Essa evolução só é visível em contexto doméstico porque no critério europeu, que acumula 14 dias, Portugal continua na desconfortável liderança dos piores números. Temos de bazar rapidamente do pódio do ECDC, porque os danos reputacionais (e, portanto, económicos) são obviamente graves.

Seja como for, a semana fica marcada por uma decisão positiva. Sempre defendi que o comando da task force da vacinação fosse entregue a um militar prestigiado. Porque são naturalmente vocacionados para a disciplina, o zelo e o cumprimento da missão. Acrescente-se: ninguém deve esperar do Vice-Almirante Gouveia e Melo o tipo de comentários laterais e exóticos que, infelizmente, caracterizaram o seu antecessor. O tempo acabou por me dar razão.

A designação do Vice-Almirante Gouveia e Melo para coordenar a task force para a vacinação é uma garantia de capacidade e de trabalho, que será tanto mais eficiente quanto a sua execução – que não depende estritamente dele – seja bem executada no terreno. Posso, aliás, dar público testemunho da sua competência: teve um papel importante, junto do CEMA, numa das “provas de stress” mais difíceis da minha vida pública, a gestão da ameaça da crise ambiental provocada pelo naufrágio do petroleiro “Prestige”. Como é próprio dos militares, sabe mandar e sabe obedecer. Tem também experiência de comunicação, o que é vital para o êxito desta missão.

Diria que há três ”pendências” nesta reorganização. A saber:

  1. Convencer as nossas autoridades de que têm de ter um discurso realista e objectivo sobre a vacinação, para não criarem expectativas exageradas e saberem explicar as dificuldades. Em fevereiro, porque a Pfizer reduziu fornecimento (a compensar mais tarde), porque a Moderna ainda não confirmou uma das entregas, e porque a questão da AstraZeneca nos mais velhos obriga a revisões do Plano, teremos mais escassez do que esperávamos (um pouco mais de metade das doses previstas), e precisamos, portanto, enquanto comunidade, de uma dose de paciência suplementar. Não é hora de triunfalismos nem de agitprop.
  2. Definir com segurança e rigor e uma orientação clara para as sobras de vacinas. Estamos a aproximar-nos da aplicação do Plano nos centros de saúde e que é aí que o problema se vai colocar generalizadamente, sobretudo pela massificação que implica. E é fácil perceber porquê. Se, por exemplo, estão escaladas para a vacinação 50 pessoas num dia, mas só comparecem 40 (porque não podem, porque se esqueceram ou porque não querem), é necessário definir com clareza, para não cairmos em iniquidades, abusos ou invejas, o que fazer às 10 vacinas que sobejam. Desperdiçar não é hipótese, em nenhuma circunstância, muito menos nesta situação em que as vacinas são um bem escasso. Donde, é preciso fazer escolhas, e para fazer escolhas é preciso definir critérios. Há, por exemplo, duas ideias possíveis, apenas observando o que os outros países já experimentaram: ou se fazem listas maiores e se convocam as pessoas em overbooking, prevenindo-as de que no caso de não serem vacinadas naquele dia passarão para o dia seguinte; ou se adopta o modelo de Israel, que vacina segundo a lista de prioridades previamente definida e, a partir de uma hora certa da tarde, abre a vacinação a quem aparecer, para não se perder uma única amostra, dadas as restrições no tempo de manipulação e de refrigeração (sobretudo, no caso da Pfizer). O que não é de todo desejável é que prossiga o “vacine-se quem conseguir”, com a inevitável suspeição e consequente mediatização.
  3. Outra urgência é definir o que fazer com as lideranças das instituições. Também aqui faltam critérios que evitem o abuso e afastem a demagogia. Exemplo de demagogia: não vacinar o PR, o PM e os ministros que se ocupam de questões pandémicas, nas suas múltiplas facetas (que ganha o país em ter um Conselho de Ministros meio “covidado”, seja qual for o executivo, dificultando a tomada de decisões?) Exemplo de abuso: para o Parlamento funcionar nestas circunstâncias, bastaria o bom senso de garantir o equivalente – por assim dizer – à sua Comissão Permanente, sendo manifestamente abusivo invocar necessidade para vacinar 230 deputados. O problema também se coloca nas instituições de saúde e sociais. Critérios que podem ajudar: o grau de proximidade e exposição dos decisores ao contágio; e a criticidade das suas funções para que as instituições não parem.

Sinal do que poderia e devia ter sido feito mais rapidamente é a decisão sobre que orientação Portugal deve tomar relativamente à vacina da AstraZeneca. Tenho procurado evidenciar, semana após semana, que a questão da AstraZeneca não é logística nem de capacidade de produção; nasce de um erro científico (que é normal no processo da ciência, anormal é a sua não correcção) quanto à diversidade etária do ensaio de fase 3. A essa falha, somou-se uma “fuga em frente”, procurando dissimular a escassez de demonstração da efectividade da vacina nos voluntários com mais de 55 anos.

O FDA exigiu à companhia mais ensaios, que estão em curso, com voluntários de maior idade. A EMA, discutivelmente dizem não poucos especialistas, anotou uma ressalva discreta mas deixou passar. No espaço de duas semanas, reguladores nacionais mais estritos – à cabeça, o alemão -, passaram a não recomendar a vacina a gente de maior idade. A partir dos 65 anos, não está recomendada na Alemanha, França, Suécia (a pátria da AstraZeneca, by the way), Austria, Dinamarca, Noruega, Grécia e Eslóvenia. A não recomendação baixa para os 60 anos na Polónia e Hungria, e para os 55 anos em Espanha, Itália e Bélgica. Indo mais longe, a Suíça não aprovou a vacina tout court. Definitivo? Não: Todos admitem poder mudar de opinião, desde que a companhia ofereça dados verificáveis e novos com pessoas dos grupos etários mencionados. Não são os reguladores que têm de relaxar, é a companhia que tem de melhorar.

Portugal hesitou até hoje e a decisão tem demasiados ‘mas’. Note-se o timimg: Recebemos ontem o primeiro lote da AstraZeneca (menos 30 mil doses do que as previstas) e só esta segunda-feira se tomou uma decisão. Não sei se a responsabilidade do atraso está no Infarmed ou no Ministério da Saúde. Admito que Portugal tenha preferido esperar, para ver se a onda restritiva passava. O que me impressiona é que a decisão que era mais provável (não recomendar a administração desta vacina acima dos 65 anos) podia e devia ter sido preparada e explicada com antecedência.

Não existem reservas quanto à vacina, pelo menos abaixo dos 50 anos. Donde, seria vantajoso usá-la nos segmentos onde está livre de dúvida e é aplicável em toda a Europa. Isso, no entanto, implica tempo de ajustamento (face às prioridades), e esforço de explicação – porque o impacto da reserva acima dos 65 anos incide, precisamente, na população que, compreensivelmente, está mais ansiosa. Porém, a nossa tendência para o excesso de rigidez (difícil alterar planos), e para decidir tarde (sem perceber que decidir a tempo é um bem precioso nesta pandemia) não facilitaram a tarefa. Insisto: é preciso decidir mais depressa e comunicar melhor.

O autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

Nota: A opinião de Paulo Portas é publicada com base no comentário semanal no Jornal das Oito da TVI, ao domingo.

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