Sustainable Finance, um novo léxico financeiro

Há uma expectativa acrescida de que o mundo financeiro contribua para o investimento nas atividades e projetos que permitam colocar o planeta na rota da sustentabilidade.

Green Bonds, Social Bonds, Sustainability Bonds, Transition Bonds, são parte de um novo léxico financeiro destinado a apoiar o financiamento aos grandes objetivos do desenvolvimento sustentável. Assim, se está preocupado com as alterações climáticas, com a proteção dos recursos naturais, com a preservação da biodiversidade, ou com a pobreza, a redução das desigualdades, a promoção da educação e saúde para todos, ou o melhor governo das empresas e das sociedades, pode agora colocar as suas poupanças ao serviço desses objetivos.

Em setembro de 2019, o Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento emitiu uma das primeiras Transition Green Bonds. Foram 500 milhões de euros destinados a financiar projetos de descarbonização, eficiência de utilização de recursos e economia circular. Também em setembro de 2019 o CaixaBank emitiu uma das primeiras Social Bonds, por uma instituição financeira. Foram 1000 milhões de euros destinados a financiar projetos relacionados com o acesso a serviços essenciais de populações em situações de vulnerabilidade, designadamente através de financiamento a PMEs e microcrédito.

Em Portugal, a EDP já emitiu 3 Green Bonds em 2018 e 2019, num total de €2,2 mil milhões, com um rating BBB- , e cujo financiamento obtido se destinou a projetos de energias renováveis (solar e eólica) e eficiência energética.

Mas o que são Green Bonds, Social Bonds, Sustainability Bonds ou Transition Bonds? São emissões de obrigações que, para além de pagarem um juro periódico, e serem amortizadas na sua maturidade (como qualquer outra obrigação), se destinam a financiar projetos que se enquadram em objetivos de sustentabilidade (designadamente os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 2030, das Nações Unidas, ou do Acordo de Paris sobre Alterações Climáticas).

Assim, os emitentes destas obrigações, têm que definir quais são os objetivos de sustentabilidade que pretendem alcançar, quais os indicadores que vão utilizar para medir esses objetivos, e em que projetos e atividades vão aplicar os fundos obtidos. Terão, adicionalmente, que reportar anualmente, a efetiva aplicação dos fundos e o desempenho face aos objetivos definidos (além da informação financeira habitual para qualquer emissão de obrigações).

Como investidores poderemos colocar a questão: serão estas obrigações também um bom investimento financeiro? (para além do objetivo ambiental ou social que prosseguem?)

Deixarei aqui alguns pontos de referência. A EDP, com um rating BBB- pela S&P, emitiu a sua primeira Green Bond em outubro de 2018, com uma maturidade de 7 anos uma taxa de juro de 1,875%. Em janeiro de 2019 emitiu 1000 milhões de euros, a 60 anos (opção de reembolso a 5 anos), com uma taxa de 4,875%. Em setembro deste ano emitiu 600 milhões de euros, com uma maturidade de 6 anos e uma taxa de juro de 0,375%. Ainda no mercado nacional, a Bioelétrica do Mondego, empresa do Grupo Altri, emitiu em fevereiro de 2019, a 10 anos, 50 milhões de euros com uma taxa de 1,9%. O Grupo Pestana emitiu, em setembro último, 60 milhões de euros, com uma taxa de 2,5% e uma maturidade de 6 anos, a primeira emissão mundial no setor hoteleiro.

Na Europa há já uma grande diversidade de empresas e instituições emitentes de obrigações ambientais ou sociais. O Tesouro francês já realizou diversas emissões de Green Bonds, concretizando uma emissão inaugural em janeiro de 2017, com uma rentabilidade de 1,75% e uma maturidade em 2039. Desde então mais de 20 mil milhões de euros já foram emitidos. O Tesouro Holandês também emitiu este ano, em maio, 6 mil milhões de euros, a 20 anos e a uma taxa de 0,6%.

A Cofinimmo, empresa de investimento imobiliário (Real Estate Investment Trust), foi a primeira no setor a emitir uma Social Bond, com 8 anos de maturidade e um cupão de 2%. A Royal Schiphol, gestora dos aeroportos na Holanda, emitiu €500 milhões em 2018, com um cupão de 1,5%, e maturidade em 2030. A emissão já referida de uma Social Bond pelo Caixabank, permitiu obter 1000 milhões de euros, com uma maturidade de 5 anos, e uma taxa de remuneração de 0,625%, com um rating BBB pela S&P.

Poderá o leitor perguntar se as Green Bonds ou as Social Bonds têm uma remuneração inferior ou igual às obrigações standard? A evidência não tem sido muito clara, nem generalizada aos vários emitentes. Se em alguns casos não parece haver um diferencial relevante, o mais recente e acentuado aumento da procura por aplicações financeiras com objetivos de sustentabilidade tem vindo a colocar pressão sobre os preços, o que para alguns emitentes se está a transformar em melhores condições de financiamento na emissão de Green Bonds versus uma emissão standard.

Como posso investir em obrigações sustentáveis?

A maior parte das emissões de Green Bonds, Social Bonds, a outras obrigações com objetivos de sustentabilidade encontram-se cotadas em Bolsa. A Euronext, por exemplo, acabou de lançar uma oferta dedicada a Green Bonds, comum a todos os 6 países em que opera (Portugal, França, Holanda, Bélgica, Irlanda, Noruega), onde conta com mais de 200 emissões listadas, que correspondem a cerca 118 mil milhões de euros.

Neste segmento da Euronext, as Green Bonds emitidas devem estar alinhadas por um de dois standards internacionalmente reconhecidos – os ICMA Green Bond Principles ou o Climate Bond Initiative Taxonomy. Adicionalmente, a documentação e condições da emissão devem ser acompanhadas por uma opinião externa, emitida por uma entidade certificadora independente.

Há uma expectativa acrescida que o mundo financeiro, e o mercado de capitais em particular, venham a dar um contributo cada vez mais relevante e decisivo na canalização de poupança para o investimento nas atividades e projetos que permitam colocar o planeta na rota da sustentabilidade. As tendências apontam para um período de acelerada inovação financeira e alguma regulação adicional, para o bem do mundo em que todos vivemos. Certamente para acompanhar com atenção!

  • Colunista convidada. Presidente Euronext Lisbon

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