Taiwan não é a Ucrânia

Taiwan será “a próxima Ucrânia”, nomeadamente após a visita da Representante Pelosi à ilha? A realidade diz-nos que não.

A ameaça de uma invasão da Ilha Formosa por parte da República Popular da China tem estado nas notícias e muito se tem especulado sobre se Taiwan será “a próxima Ucrânia”, nomeadamente após a visita da Representante Pelosi à ilha. A disputa entre as diferentes ‘Chinas’ sobre qual é a “verdadeira” detentora do nome homónimo, está por resolver desde 1949, quando a Revolução Comunista de Mao Tsé-Tung expulsou o governo nacionalista de Chiang Kai-Shek para a Ilha Formosa, e o Partido Comunista Chinês começou a governar a China Continental.

A disparidade entre as duas entidades políticas é claramente dramática. Taiwan é muito mais pequena que a China, tanto em população (60x mais pequeno), área geográfica (265x mais pequena), PIB (22x mais pequena), e despesa em defesa. Por estes fatores e aparências, podemos admitir que o cenário parece alarmante. Contudo, uma invasão de Taiwan por parte do Exército de Libertação Popular [exército chinês] seria um empreendimento muito custoso e difícil.

Usando a guerra da Ucrânia para estabelecer uma comparação, ao relance de um mapa, notamos a principal diferença entre os dois países com vizinhos beligerantes – a sua geografia. Uma invasão da Ucrânia deveria ser mais fácil que uma invasão de Taiwan, ainda que as forças armadas russas nos mostrem o contrário. A Ucrânia é um país que, para além de fazer fronteira com o seu inimigo, é topograficamente plano, sendo que as principais barreiras naturais que dispõe são rios; Taiwan é diferente neste aspeto: é uma ilha a 130km do seu inimigo e tem uma topografia que apresentaria um desafio considerável a qualquer invasor. Se as campanhas de bombardeamento de infraestrutura crítica taiwanesa causariam dano quase irreparável na ilha e a China conseguiria provavelmente obter superioridade aérea face ao que considera ser uma “província secessionista”, esta invasão teria de ser consumada com tropas no terreno e é nesse aspeto que as dificuldades começam. Embora que alguma quantidade de tropas pudessem ser transportadas via aérea, levar a quantidade de tropas necessárias para este magno empreendimento requer uma operação anfíbia, algo que a marinha chinesa não tem capacidade realizar visto que não consegue transportar de uma só vez a quantidade de homens e equipamento necessário para uma invasão por mar.

Taiwan controla uma série de ilhas nestes 130km do estreito, as quais estão equipadas com uma série de sistemas bélicos, o que significa que qualquer força invasora teria de navegar durante horas por um estreito já fortificado e preparado para tal eventualidade. Se tal força anfíbia conseguir desembarcar sem danificar os portos necessários para depois se proceder à logística necessária para sustentar tal invasão, nos picos da ilha encontram-se sistemas de artilharia que tornariam o avanço das tropas desembarcadas num inferno.

Para além do mais, na ilha residem 23 milhões de pessoas, que por virtude de serviço obrigatório nas forças armadas, ofereceriam resistência a uma invasão (algo muito eficaz para perturbar qualquer ofensiva, como temos evidenciado na Ucrânia) efetuada por soldados e chefia militar sem qualquer verdadeira experiência de combate. Tendo em conta todos estes fatores, Pequim teria de usar virtualmente todo o seu exército para que esta operação tivesse a mínima probabilidade de sucesso, e mesmo assim ainda não considerámos na resposta que a comunidade internacional teria face a tal evento, uma vez que muitos países, receosos do poder e ambição chinesa, viriam em auxílio de Taiwan.

Os Estados Unidos, mantendo a sua posição de ambiguidade estratégica sobre a questão de Taiwan, afirmaram que não aceitam uma unificação por força e que iriam militarmente defender a ilha contra uma possível invasão. De igual modo, oficiais japoneses afirmaram que, caso ocorra uma invasão de Taiwan, os mesmos deveriam juntar-se aos Estados Unidos na sua defesa, numa visão de que se Taiwan cair para mãos chinesas, ilhas japonesas disputadas poderão ser o próximo alvo de Pequim.

A verdade é que a China já teve várias oportunidades de invadir Taiwan, periodicamente vai ameaçando, esporadicamente batendo nos tambores de guerra, mas ultimamente não seguindo a sua retórica com ação concreta. A razão para isto pode ser que a existência de um inimigo é conveniente para o Partido Comunista Chinês se manter no poder, usando Taiwan como desculpa e escapatória para quando a situação doméstica não é favorável. Mesmo assim, o ‘status quo’ das relações dos países do Estreito de Taiwan não beneficiam nenhum: Taiwan continuará sem ser reconhecido por grande parte da comunidade internacional e a China continuará sem ter domínio sobre o que considera ser seu território na integra.

  • Colunista convidado. Aluno do 3º ano de Licenciatura de Ciência Política do IEP

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