Talvez haja algum realismo no pessimismo da Comissão Europeia

Bruxelas não acredita muito no défice sugerido por Espanha, Itália e Portugal. Veremos quem é que tem razão, mas que há um arrefecimento da economia europeia, disso não há dúvida nenhuma.

António Costa tem razão quando diz que a Comissão Europeia se engana com frequência nas previsões. Se olharmos o histórico isso é verdade : a Comissão Europeia tende a ser mais pessimista que os governos. Mas também pode dar-se o caso de o primeiro-ministro — para citar a ironia do Presidente da República — estar a ter um pouco daquele seu otimismo incorrigível.

O que a Comissão Europeia diz é que está a haver um arrefecimento da economia global e, em particular, da economia europeia. Isso é verdade quanto à Alemanha, já o tinha referido; é verdade quanto à França, e essa é uma das dificuldades que Macron esta a sentir; é verdade quanto à Itália, que está praticamente estagnada; é ainda verdade quanto ao Reino Unido que se vai embora para o ano. Mesmo o terceiro trimestre da economia americana foi bom, mas não tão bom como o segundo. E a China reviu em baixa as previsões. Portanto, os sinais são de arrefecimento e Portugal depende muito da conjuntura externa.

Se o nosso crescimento para o ano for de for 1,8%, fica abaixo do estimado, e as contas da receita estão feitas com os 2,2% projetados pelo Governo. Pode ser que a meio do ano — e 2019 é ano de eleições — falhe uma parte da receita. E se falhar a receita, também falha o controlo do défice, a menos que, para obviar esse problema, as cativações sejam ainda mais duras.

A Comissão, no fundo, não acredita muito no défice sugerido por Espanha, Itália e Portugal. Veremos quem é que tem razão, mas que há um arrefecimento da economia europeia, disso não há dúvida nenhuma. E que o ano de 2019 não se apresenta muito brilhante, porque — sublinho — teremos o Brexit, seja o Brexit o que vier a ser, a Alemanha desacelerou, a França não consegue levantar-se tal o nível de despesa publica tem e a a Itália é um problema muito complicado. Tudo isso é verdade e acresce que muito dificilmente Espanha terá Orçamento aprovado nas Cortes, o que aumenta a incerteza. Talvez, desta vez, haja algum realismo no pessimismo da União Europeia. Esperemos que não, mas os factos são teimosos…

Eleições nos Estados Unidos: a América está diferente mas não tanto assim

A América está diferente do que estava há uma semana, mas não tão diferente como a oposição desejaria.

É um pouco como aquela sensação que os portugueses têm na noite das eleições: toda a gente ganha, uns porque avançam, outros porque não perdem. No caso dos Estados Unidos, como havia várias eleições ao mesmo tempo e cada partido ganhou uma parte dessas eleições, na verdade, ambos podem reclamar parcialmente alguma satisfação.

Porque foi tão importante para os Democratas o resultado? Porque retomaram o controlo da Câmara dos Representantes, que é uma parcela relevante do poder; porque conseguiram mobilizar bastante mais a sua base eleitoral (mais de 50% dos americanos continuam a não votar, mas a participação subiu cerca de dez pontos em relação às últimas eleições intercalares).

Como é habitual nos EUA vários dias depois ainda estão a contar votos e há muitos recursos eleitorais — um verdadeiro desporto nacional. Na projeção que me parece mais credível os Democratas conseguiram eleger à volta de 232 congressistas, 14 acima da maioria e mais 37 do que tinham antes. Vão ter mais poder e mais voz.

Porque é que os Republicanos também podem reclamar uma parte da vitória? Porque tendo perdido a votação na Câmara dos Representantes (deverão eleger à volta de 203 congressistas) ganharam e reforçaram a sua maioria no Senado, que é a outra parcela do poder parlamentar nos Estados Unidos. É provável que venham a ficar com 53 ou 54 senadores (tinham 51).

Por muito estranho que isso possa parecer aos europeus, a América funciona bem sem o seu Governo e independentemente do seu Governo — e é por isso que mais de metade dos americanos não vota. Dito isto, se olharmos para os mandatos que Trump perdeu na Câmara dos Representantes e ganhou no Senado, no total perdera 35. Para termos uma ideia, Barack Obama, no seu primeiro mandato, nas eleições parlamentares de 2010, perdeu 69 e Bill Clinton, também a meio do mandato inicial, perdeu 64. O resultado de Trump é mais semelhante ao inicial de Reagan. Ao reforçar a sua maioria no Senado Trump impede o impeachment com que os Democratas sonhavam — e não está numa posição desfavorável para 2020. Embora seja difícil — daqui a dois anos — ter a economia tão a favor como teve agora.

Há muitas maneiras de medir a evolução dos blocos eleitorais nos EUA. Destacaria duas analises.

Há 30 anos, o eixo da política americana estava entre eleitos que podiam conversar e negociar: Democratas moderados e Republicanos moderados. Agora, o eixo dos eleitos republicanos deslocou se bastante para a direita e, por sua vez, o eixo dos eleitos pelos Democratas foi significativamente para a esquerda. Ora, a maioria sociológica da América está entre o centro e o centro-direita, por isso, os Democratas terão de ter algum cuidado se quiserem ganhar em 2020. Para ganharem as eleições presidenciais precisam de um candidato moderado que atraia o centro e isso não se faz com candidatos muito radicais — como sucedeu parcialmente agora.

Em termos territoriais parece haver duas Américas sem pontes entre si. Não há praticamente eleitos Republicanos no coração urbano das cidades; e não há praticamente eleitos Democratas no núcleo duro da América profunda e rural. Numa eleição em que pode ler se o voto nacional apenas pela soma dos sufrágios de todas as eleições para a Câmara dos Representantes — e por esse critério os Democratas venceram com 52% face a 46% do partido do elefante — Trump terá de ter especial cuidado com o mapa em que o seu partido mostrou estar vulnerável: o voto feminino inclinou se mais para os Democratas, os eleitores com estudos médios e superiores também, os subúrbios foram menos sensíveis ao estilo Trump do que em 2016.

Um ponto importante: Trump vai ter mais escrutínio na Câmara dos Representantes, é de esperar que haja imensas comissões de inquérito, vão começar por pedir a famosa folha de impostos do Presidente dos Estados Unidos e haverá maior resistência a sua agenda legislativa. O desastre de uma política tão polarizada é que a chamada bipartisan attitude quase não existe: a título de exemplo é muito duvidoso que Trump consiga baixar novamente os impostos. As áreas de consenso possível (pelo menos retoricamente) são as infraestruturas — metade têm mais de 50 anos! — e a política do medicamento.

Resumindo, os Democratas ganharam e Trump não perdeu. A América permanece dividida em duas metades quase iguais com um nível de crispação que é muito desconfortável.

A evocação da I Grande Guerra não é um tema de marketing (ou como Macron tropeçou no essencial)

Nas celebrações do Armistício evocamos uma guerra que deixou na Europa entre 9 a 11 milhões de soldados mortos e um número tendencialmente semelhante de baixas civis. Falamos de um mundo que desapareceu e de outro que sucedeu a essa barbárie entre potências europeias. Dessa guerra nasceu uma organização multilateral fraca (a Sociedade das Nações) e também um Tratado — o de Versalhes — que é identificado como exemplo de humilhação dos vencidos e por isso gerador de ressentimento. Desse ressentimento se fez o caldo de cultura do nacionalismo e do irredentismo alemão que iria favorecer (também por outros fatores) a ascensão dos nazis ao poder década e meia depois. Esse é também o momento em que fica selada a aliança ocidental entre a Europa e os Estados Unidos e o verdadeiro inicio do século americano. Um ano antes do fim da I Guerra e com conhecida relação, os bolcheviques tomariam o poder na Rússia.

Estamos a falar de assuntos trágica e politicamente muito sérios. O Presidente francês está em grandes dificuldades internas, com taxas de apoio bastante reduzidas, e organizou toda um semana orientada para esta evocação — começando por tropeçar e enredar se inexplicavelmente numa querela ‘franco-francesa’ que não tem solução boa: Petain foi o herói de Verdun ou o capitulacionista e antissemita de Vichy? O General De Gaulle resolveu no seu tempo esse dilema com autoridade e sem discussão — mas não é De Gaulle quem quer (mesmo que Macron se ache Júpiter como dizem alguns dos seus próximos).

Do ponto de vista internacional, o que sobrou em excesso de marketing nas cerimónias – por momentos ate parecia que o Presidente francês estava num comício com publico seleto — acabou por faltar em coerência, diplomacia e sobriedade. Faltou um certo cuidado que é preciso ter em cerimónias que juntam líderes tão díspares.

Senão vejamos: Macron começou por arranjar maneira de evitar uma cimeira entre Trump e Putin em Paris e não o fez porque faltasse assunto (basta pensar na caducidade dos acordos de controlo de armamento). Fê-lo para não perder relevância no dia evocativo — o que não parece o mais importante. Acresce que se notaram as ausências: a senhora May estava em Londres a evocar o mesmo Armistício que foi também o crepúsculo do Império Britânico, cujos súbditos deram muitas vidas pelos aliados. Nem a Polónia nem a Hungria se fizeram representar a alto nível — o que é enigmático tratando se da I Grande Guerra. Em paralelo organizou se um Fórum pela Paz onde Putin se apresentou mas Trump não (de que ideia de paz faria parte o Presidente russo?).

Mas acima de tudo a controvérsia sobre o Exercito europeu era dispensável.

Quando se convida o Presidente dos Estados Unidos ou o Presidente da Rússia para ir a Paris não é delicado, nem sequer conveniente, abrir hostilidades que permitam reações que perturbam a harmonia natural dos acontecimentos.

O Presidente francês escusava de ter dito — logo esta semana — que precisamos de um Exército europeu para nos defender da China, da Rússia e até dos Estados Unidos. Pouca fortuna nessas palavras: por mais que as relações sejam difíceis com esta Administração norte americana somos aliados dos EUA na NATO. De resto, ate são os Estados Unidos, como Obama e Trump nos lembram desde 2014 — cada um a sua maneira — que pagam o essencial da segurança europeia. Estar a dizer que queremos fazer ao mesmo tempo um Exercito para nos defender porventura ate dos Estados Unidos, é uma coisa um bocadinho atrevida ou pelo menos pouco calculada, ou seja, insuficientemente profissional.

É certo que Macron tentou corrigir o tiro ao dizer que estava a falar da Cibersegurança, mas a correção é igualmente bizarra porque não é essencialmente com um Exército que se previne, ou contraria, o cibercrime. Os melhores especialistas dizem mesmo que — numa visão do século XXI — alem do Exército de terra, da Marinha no mar e da Forca Aérea no ar, o que as Forças Armadas necessitam para enfrentar as ciberguerras modernas, é de uma espécie de quarto ramo — precisamente o ramo ciber. Neste mundo novo aquilo que é necessário são jovens altamente qualificados capazes de ajudar a encontrar soluções para ataques ciber, tanto nas estruturas do Estado como em estruturas privadas. Tem pouco a ver com o dispositivo tradicional de operações do Exercito.

Em suma já vi melhores momentos do Presidente francês que, por formação, tem cultura acima da media face ao tipo de lideres que estão hoje em dia na moda. Sobretudo, a boa evocação da I Grande Guerra é um pedacinho mais relevante do que um plano de comunicação para melhorar a opinião dos franceses sobre o seu Presidente.

Nota: A opinião de Paulo Portas é publicada com base no comentário semanal no Jornal das Oito da TVI, ao domingo, que pode ver aqui em vídeo.

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