TAP e caravelas portuguesas

No caso da TAP nem interessa saber se a visão é liberal ou se a percepção é socialista, pois a companhia é um estudo de caso de um sonho de grandeza ao serviço de um Portugal imaginário e saudosista.

Com o vírus fóssil no pulmão de Lisboa, o Governo subitamente descobre as delícias da política do costume. Refiro-me ao expediente, à demagogia, às lutas internas, enfim, à incompetência. Finalmente o espaço que separava a crise sanitária da crise económica foi percorrido pela “nacionalização” supersónica da TAP. A miragem de uma companhia de bandeira volta ao imaginário político, com o discurso da soberania, do hub de Lisboa, das comunidades portuguesas, da indústria do Turismo, da afirmação de Portugal no Mundo. No caso da TAP nem interessa saber se a visão é liberal ou se a percepção é socialista, pois a Companhia é um estudo de caso de um sonho de grandeza ao serviço de um Portugal imaginário e saudosista. A TAP não está em processo de falência porque na realidade está falida. A crise Covid veio apenas acelerar a calamidade de um estado comatoso. E é tão bonito ir ver os aviões.

Depois há a questão periférica. Portugal é uma faixa estreita e distante da Europa, pois a Espanha não é Portugal mas também não é a Europa propriamente dita, logo a importância da TAP como projecção da soberania e da centralidade global de uma pequena grande Nação. O discurso da diáspora portuguesa na Europa parece o argumento do Estado Novo sobre os portugueses que nas Colónias estavam a construir a versão moderna e multicultural de Portugal. A “nacionalização” da TAP é um gesto nacionalista, um gesto económico tomado pelo pânico ou a confissão de um fracasso? Talvez seja tudo ao mesmo tempo e nada em particular, a não ser o compromisso político de alimentar culturalmente a ilusão de um destino maior do que o passivo.

Depois há também uma vertente mitológica. Do mar sem fim ao céu infinito, para o Primeiro-Ministro a TAP é a versão contemporânea das Caravelas Portuguesas que deram Mundos ao Mundo. O coração português estremece com as emoções e as farsas. Os emigrantes viajam em low cost, deixaram os Descobrimentos na escola, os iates são uma miragem que os portugueses admiram com espanto a partir das praias em confinamento classificado e controlado, uma espécie de formatura espontânea em estabelecimento da especialidade – parque de campismo ou campo de férias. Este ano foi abolido por despacho o Verão Azul.

Ainda existe uma interpretação alternativa. Numa empresa nem pública nem privada, mas portuguesa com certeza, os negócios correm mal, os prejuízos crescem à velocidade da luz, a fluidez dos lucros inexistentes aumentam a humilhação, a reputação nacional ofende a Europa. Logo o Estado entende a “urgência estratégica”, do mesmo modo que entende que é dever do próprio Estado evitar o escândalo da falência e suprir a Companhia com os proventos compatíveis. Segue-se uma saudável e imperiosa “reestruturação”, uma nova administração de nível internacional, um cortejo de despedimentos, uma nova Companhia impressa em documento técnico fundamentado por uma Comissão de Especialistas e intitulado “TAP XXI – Vectores Estratégicos para uma Companhia Global”. É a velha política normalizada em tempo de pandemia, o preconceito ideológico, a incompetência pública e privada, a inexistência de um modelo de Companhia, a completa incapacidade para planear, pensar, prevenir. O aeroporto de Lisboa parece um cemitério de aviões.

No espírito do tempo, a TAP está em confinamento. Mas o que espanta e continuará sempre a espantar é a falta de preparação do Governo. A falta de preparação é um fenómeno político que tanto se refere à manifestação de circunstâncias raras e extraordinárias, mas também e perversamente para iludir responsabilidades e proclamar um qualquer estado de crise. Qualquer que seja a decisão do Governo, esta é sempre coberta pelo portal do risco. O que é extraordinário é que as decisões políticas são sempre apresentadas como emanações do razoável, do previsível, do seguro, da presunção optimista.

O que falta no discurso político é a coragem de confessar que o futuro poderá ser precário, que a dúvida é uma certeza, que existe um perigo quando se deposita na esperança a promoção de futuros tão grandiosos como inimagináveis. Os dados não são neutros nem infalíveis; os números não são representações dogmáticas da verdade nem contêm o segredo de uma solução. A decisão política não é uma técnica, não é uma rotina absorvida superficialmente, pois tem de incorporar o factor humano, a perspectiva do sucesso, a sombra do fracasso, a explosão da rebelião, o silêncio da resignação.

Na decisão política para o futuro de uma sociedade, a metamorfose da Cultura, a complexidade da História, têm de ser incorporadas na resposta a um acontecimento, esperado ou inesperado, pois só deste modo o espectro da decisão política alcança o desígnio da eficácia perante três direcções divergentes – o percurso da História, as incidências do Presente, as expectativas do Futuro. Este é o motivo profundo e estrutural que justifica os erros do Governo, quer na gestão da abertura da sociedade pós-confinamento, quer no equívoco da “nacionalização” da TAP.

Junto ao rio não passam aviões na margem do céu. O céu de Lisboa é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar. O português marinheiro ficou na voz de outro tempo. No rio resta o olhar estrangeiro que acompanha à distância os navios cansados na derradeira rotina entre margens. Sobra tudo, até o tempo parado.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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