Turismofóbicos e subsidófilos

Os mesmos que se queixam do excesso de dinheiro que recebemos do turismo, que apontam o dedo à 'turismodependência', conseguem ver a bazuca europeia como uma grande oportunidade para o país.

Portugal teve uma das piores performances económicas da União Europeia em 2020. Isto não é novidade. Podia trocar 2020 por quase todos os anos desde 2000 que aquela frase continuaria factual. Mas em 2020 há uma boa desculpa: a pandemia atingiu particularmente o sector do turismo e Portugal tem uma dependência maior do turismo do que grande parte dos outros países europeus.

Em qualquer parte do mundo, olhar-se-ia para esta situação e concluir-se-ia que para diminuir a dependência do turismo seria necessário fazer crescer o resto da economia. Mas estamos em Portugal, onde o sucesso é pecado e a meritocracia é uma expressão maldita. Alguns políticos portugueses decidiram então que para reduzir a dependência do turismo há que limitar o número de turistas. O raciocínio é este: o turismo ocupa espaço na economia que podia ser ocupado por outras actividades. Se não houvesse tantos turistas, era só Googles a aparecer em cada esquina. Ainda nem sequer saímos desta crise e já começam a pensar como rebentar com o turismo se e quando voltar a dar sinais de vida.

Vamos à realidade. Portugal tem receitas de turismo semelhantes às da Suíça ou da Áustria, países mais pequenos do que Portugal. Ajustado pela população, Portugal tem também menos receitas de turismo do que a Irlanda. No entanto, as economias desses países não estão dependentes do turismo porque há mais sectores vibrantes para além desse.

Suíça, Áustria e Irlanda resistiram melhor economicamente à pandemia, não porque tenham poucas receitas do turismo (ajustado pela dimensão, têm mais receitas de turismo do que Portugal), mas porque conseguiram desenvolver outros sectores para além do turismo que são mais resilientes a situações como esta. O problema de dependência de Portugal não é excesso de turismo, é escassez de economia.

O discurso anti-turismo continua a fazer o seu caminho nas elites urbanas por razões muito semelhantes às que o discurso anti-imigração faz o seu caminho nos subúrbios. De um lado há os que fazem vida na política a acusar ciganos e imigrantes de causarem violência, de ocuparem habitações sociais, de roubarem empregos aos portugueses e de descaracterizarem a cultura nacional. Do outro, há quem faça vida política a acusar os turistas estrangeiros de causarem distúrbios, de lhes ocuparem os apartamentos caros nos centros, de roubarem espaço nos melhores restaurantes aos portugueses e de descaracterizarem a sua cidade. Esta xenofobia pode ser urbana, sofisticada e ter porta vozes mais eruditos, mas não deixa de ser xenofobia por ter interlocutores com cursos superiores e acesso a colunas de opinião.

Os mesmos que se queixam do excesso de dinheiro que recebemos do turismo, que apontam o dedo à ‘turismodependência’, conseguem ver a bazuca europeia como uma grande oportunidade para o país. A xenofobia erudita é selectiva e limita-se às pessoas: se os alemães enviarem só o dinheiro e não vierem para cá chatear, já não há nenhum problema. Preferem a subsidiodependência que alimenta os negócios do regime do que a ‘turismodependência’ que alimenta quem trabalha honestamente para manter o seu pequeno negócio.

Dependência por dependência, prefiro a do trabalho honesto em que se justifica o dinheiro recebido com um serviço prestado. Os subsídios europeus são sempre bem-vindos porque não se recusa um presente, mas o que gostava mesmo era que estivéssemos numa situação em que não precisássemos deles como de pão para a boca. Com a aversão que temos a tudo o que corre bem e tem um pouquinho de sucesso, iremos continuar a depender da esmola europeia durante muitas décadas.

O ideal, claro, era nem haver dependência do turismo nem dos subsídios da Europa. Mas para isso, precisaríamos de uma mentalidade diferente, começando por não querer destruir um dos poucos sectores em que conseguimos competir com os países mais desenvolvidos da União Europeia.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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