Um alemão com coração português

Wolfgang Kemper é um bom exemplo de quem, não sendo português de origem, se disponibilizou, até ao fim para, de forma inteiramente desinteressada, ajudar a erguer mais alto este país.

Esta semana, Wolfgang Kemper passou para o outro lado do espelho. É verdade, este homem que sempre teve características de empreendedor, combativo e lutador, amante de vida e sempre fervilhando de ideias e iniciativas, a caminho dos 90 anos de idade, deixou-nos.

É a lei natural da vida e da morte, mas para quem o conheceu, com ele contactou ou teve o privilégio de ser seu amigo, como é o meu caso, esta realidade vai custar muito a ser reconhecida.

Wolfgang Kemper estava em Portugal desde meados dos anos 60 do século passado. Teve toda uma carreira profissional numa grande multinacional (Hoechst) e quando poderia ter passado a uma fase de reforma, em virtude da deslocalização daquela empresa, surpreendentemente para quem o conhecia e que exporta mais de 90l, fundou com outros sócios a Filkemp, empresa que é um sucesso e que exporta mais de 90 por cento do que produz, sendo líder no fabrico de monofilamentos para fios de pesca comercial. Para aqueles como eu que bem o conheciam, esta sua decisão esteve de acordo com a sua personalidade forte e activa, sempre pronta a enfrentar desafios e a vencê-los.

Conheci Wolfgang Kemper no início dos anos oitenta. Por motivos profissionais, relacionámo-nos e fomos desenvolvendo uma amizade baseada na discussão franca e sem preconceitos dos problemas que o nosso País foi enfrentando ao longo destes últimos decénios. E digo nosso País, porque este foi tão sentido e sempre vivido por mim, que sou português, como por ele que, embora de nacionalidade alemã, amava Portugal a que designava sempre como a sua terra.

E interessou-se por tudo: Trazer potenciais investidores alemães a Portugal, levar possíveis investidores portugueses à Alemanha, falar e dar sugestões às associações empresariais ou aos organismos estatais ou ainda levar ideias aos governantes, fosse no domínio empresarial, fosse em atividades pelas quais tinha especial interesse e via como potenciais vias para a nossa competitividade, como era o setor agrícola. Tudo o que pudesse ajudar a desenvolver mais Portugal, que pudesse torná-lo mais internacional e concorrencial era motivo para que se interessasse, estudasse o assunto e gostasse de o levar a quem o poderia pôr em prática.

Pessoalmente, devo lembrar a sua permanente disposição para colaborar em iniciativas que pudessem discutir aquelas questões e sugerir propostas concretas para passar à ação, tal como fez comigo quando o desafiei para tal, fosse nos anos em que dirigi o FAE (Fórum de Administradores de Empresas) ou a CCILA (Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã), de que também foi Presidente ou, nos últimos tempos, a Ordem dos Economistas. Estava sempre disposto a um bom debate, a uma discussão profunda e sustentada, à apresentação de propostas concretas sobre este ou aquele assunto.

Wolfgang Kemper é um bom exemplo de quem, não sendo português de origem, se disponibilizou, até ao fim para, de forma inteiramente desinteressada, ajudar a erguer mais alto este País através da sua experiência profissional e de vida, dos seus muitos contactos internacionais e da sua visão do que poderá ser Portugal desde que aproveite as oportunidades, abrace a inovação e tenha ambição.

Ficará na nossa memória e será decerto sempre recordado como um alemão com coração português.

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