Um ano com Trump

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 12 Novembro 2017

Muitas vezes criticado (sobretudo a partir do exterior), o sistema político norte-americano reagiu e demonstrou que tem instrumentos para prevenir abusos de poder.

A chegada de Donald Trump ao poder e a campanha eleitoral precedente constituíram uma ruptura clara com os crescentes critérios de escrutínio que marcaram a política dos Estados Unidos das últimas décadas. A comunicação social abriu uma caixa de Pandora quando passou a tratar o candidato republicano como uma figura de entretenimento para subir as audiências e não como um político comum. Pouco a pouco, a coerência transformou-se num pormenor e a opacidade nas finanças pessoais tolerada. Uma pequena parte dos escândalos que afectaram, primeiro, o candidato e, depois, o presidente, teriam sido suficientes para derrubar vários políticos: ligações com os serviços de informações russos, pressões sobre o director do FBI e promiscuidade entre os negócios privados familiares e o cargo público desempenhado. Se tivermos em conta que, por muito menos, Bill Clinton se viu a braços com um processo de destituição, teremos noção da imunidade que parece rodear Trump.

Em termos substantivos, o programa do presidente assenta em algumas ideias pré-concebidas, pouco fundamentadas e (felizmente) difíceis de implementar. Muitas vezes criticado (sobretudo a partir do exterior), o sistema político norte-americano reagiu e demonstrou que tem instrumentos para prevenir abusos de poder. Medidas prioritárias como o veto migratório foram suspensas por tribunais. A própria reversão do Obamacare, uma das propostas estrela do programa Trump, tem sido sistematicamente bloqueada fruto dos desencontros entre a heterogénea base republicana do Congresso.

No campo internacional, Donald Trump imprimiu uma retórica peculiar, com discursos vazios de substância que raramente vão além do oco elogio de conveniência ou da ameaça pouco eficaz ao estilo de um mau filme de acção. Este tipo de escaladas verbais só tem servido para reforçar adversários como a Venezuela ou a Coreia do Norte. A ausência de uma linha de actuação tem ficado ainda mais patente em questões muito sensíveis, que requerem mais do que cacofonia, como as relações com o Irão ou com Cuba. Em termos de comércio internacional, as promessas de mais proteccionismo estão por implementar. Na recente visita a Tóquio, foi clara a impotência de Trump quando tentou, sem êxito, obter um compromisso do primeiro-ministro Shinzo Abe para um programa de aquisição de armamento que atenuasse o enorme défice comercial dos Estados Unidos em relação ao Japão.

Segundo o site Real Clear Politics, a média dos estudos de opinião mais recentes sobre a imagem do presidente revela valores próximos dos 19 pontos negativos. Na terça-feira, as eleições para governador na Virginia e em Nova Jersey e para presidente da câmara em Nova Iorque foram um primeiro sinal prático desta ausência de apoio, saldando-se em derrotas pesadas para o Partido Republicano. As eleições para o Congresso do próximo ano poderão sufocar ainda mais a presidência Trump. Num país com campanhas eleitorais muito longas, é provável que os candidatos republicanos a senador e a representante comecem a tentar marcar distâncias em relação a uma liderança impopular e imprevisível.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Professor na UAL e ISCTE

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