Um apelo ao INE

Peço ao INE para dar uma clara centralidade ao tema da distribuição dos salários e rendimentos, criando uma publicação anual dedicada ao tema.

Já se percebeu que os sindicatos tradicionais estão em declínio acelerado e que novas formas de luta laboral vão emergir. Por isso, torna-se cada vez mais importante conhecer a distribuição dos salários em Portugal, para perceber melhor a razoabilidade das reivindicações que irão surgir. Aliás, o tema da (re)distribuição é tão central no debate político que é essencial que haja fácil acesso a informação detalhada sobre a distribuição dos salários e dos rendimentos.

Tanto quanto é do meu (limitado) conhecimento, o INE apenas publica, num quadro quase escondido, informação sobre salários, em intervalos tão alargados, que os dados acabam por ser pouco úteis.

Trata-se do “Quadro 30a: Trabalhadores por conta de outrem segundo a região de residência NUTS II (NUTS-2013), por setor de atividade principal (CAE-Rev. 3) e escalão de rendimento salarial mensal líquido”, das Estatísticas do Emprego. Em relação a 2018, os dados apresentados são (meus cálculos):

A distribuição de salários

Fonte: INE

Um dos aspectos mais chocantes desta forma de apresentar os dados, é que ela não permite identificar uma das estatísticas mais elementares, a mediana, o salário do trabalhador que está exactamente nos 50% da distribuição. Deverá andar próximo dos 780€, o valor interpolado, mas não faz sentido este dado não ser divulgado explicitamente.

Segundo a ANTRAM, os motoristas de matérias perigosas, ganham cerca de 1440€ mensais. Olhando para a tabela acima, ficamos a saber que mais de 80% dos trabalhadores ganham menos do que isso, mas não conseguimos ter a certeza se também é verdade para 90%. Se tivéssemos a distribuição dos salários por qualificação profissional iríamos certamente chegar a valores ainda mais extremos.

Por tudo isto, faço um pedido ao INE: dê uma clara centralidade ao tema da distribuição dos salários e rendimentos, criando uma publicação anual dedicada ao tema.

Precisamos de conhecer todos os limites dos decis da distribuição de salários, ou seja, quanto ganha o trabalhador no escalão dos 10%, 20%, 30%, etc. A partir dos 80%, será útil conhecer os dados de forma mais detalhada, por exemplo, dos 85%, 90%, 92%, …, 99%, 99,5%, 99,9%.

Também queremos saber a distribuição por sexo e por nível de formação, para termos informação clara sobre a diferença salarial entre homens e mulheres. Como é evidente, também as diferenças a nível geográfico e etário, entre outras, em apresentação matricial.

Já que interpelei o INE por este motivo, permito-me fazer outros pedidos, de muito menos monta. Era muito bom padronizar as suas publicações, sobretudo os ficheiros excel, que parecem feitos por um conjunto de departamentos que não comunicam entre si.

Por exemplo, os indicadores de confiança apresentam sempre, e muito bem, as suas séries cronológicas completas. Os dados do comércio internacional apresentam apenas o último ano e as estatísticas do emprego nem isso. Basta olhar para o Boletim Estatístico do Banco de Portugal para perceber como se padroniza a apresentação dos dados mais diversos.

Também poderia fazer inúmeras sugestões de como melhorar o site do INE e a apresentação da “Base de dados”, se tiverem interesse nisso.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

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