Um país desequilibradopremium

Os desequilíbrios macroeconómicos identificados pela CE não são uma especial novidade. O drama é esse. Estamos em divergência económica face à Europa há décadas.

Portugal evidencia seis desequilíbrios macroeconómicos, entre catorze possíveis, a saber: a posição de investimento internacional é excessivamente deficitária; os custos unitários do trabalho têm crescido de mais; o preço da habitação está caro; a dívida pública e a dívida privada estão altíssimas; e a taxa de actividade (laboral) é baixa. Quem o diz é a Comissão Europeia (CE) no seu relatório sobre o mecanismo de alerta macroeconómico.

Não estamos sozinhos. Há outros países europeus que exibem numerosos desequilíbrios, desde logo a vizinha Espanha que, contando sete vulnerabilidades, é hoje o país mais desequilibrado da União Europeia (UE). Quanto à UE, mesmo depois de décadas de fundos estruturais, continua a ser um bloco económico profundamente assimétrico e Portugal continua a andar para trás.

A produtividade em Portugal tem vindo a deteriorar-se ao longo das décadas face à média europeia. Em 2000, no ranking da produtividade do trabalho, Portugal estava em 17º lugar na UE. Em 2020, o país tinha caído para o 21º lugar. Durante o período, a produtividade até cresceu em Portugal, mas nos outros países cresceu muito mais. Ainda ontem, a propósito da evolução do produto interno bruto (PIB) no terceiro trimestre, o INE divulgava que a produtividade da economia portuguesa cresceu apenas residualmente face ao período homólogo (0,4% a 1,1%, dependendo do indicador utilizado). É pouco. Não só face aos demais países da UE, mas também para consumo interno em face das pressões salariais que se vão anunciando (de resto, já observadas no crescimento dos custos unitários do trabalho, conforme também assinalado pela CE). Como é sabido, os salários devem acompanhar a produtividade.

As causas para a baixa produtividade em Portugal são diversas. O perfil de especialização é, porventura, a principal causa. O país já “conta” com seis unicórnios – conta entre aspas porque as empresas são privadas e a maior parte nem sequer está sediada em Portugal –, mas continuamos também a depender excessivamente de sectores tradicionais que têm vindo a ser desafiados desde há muito por empresas de outros países mais competitivos. Temos ainda um peso excessivo de microempresas, cuja influência na empregabilidade e no valor acrescentado bruto é bastante superior ao que sucede em média na Europa. E, por fim, temos também um número escasso de empresas com perfil exportador, cuja ausência não ajuda na criação de efeitos de escala nem na captação de investimento estrangeiro em Portugal.

Portugal precisa de uma dose maciça de investimento. O peso do investimento total (público e privado) no PIB é inferior a 20%. Estamos abaixo da média europeia e abaixo de muitos concorrentes directos. Para atrair mais investidores, é preciso actuar sobre os factores referidos antes. As empresas têm de olhar para o futuro e aproveitar bem os fundos que estão disponíveis. E as pessoas têm de pensar nas áreas de empregabilidade. Mas também é fundamental reduzir os custos de contexto e a miríade de taxas e taxinhas que o nosso ambiente regulatório continua improdutivamente a gerar. Num estudo publicado há cerca de um ano, a Confederação Empresarial de Portugal alertava para a existência de mais de 4.300 taxas cobradas pelo Estado às empresas. Ora, fez-se alguma coisa neste domínio? Quantas taxas existem hoje?

O endividamento, outro desequilíbrio da economia portuguesa, é uma realidade com a qual o país tem de saber conviver. A dívida tem vindo a aumentar, a todos os níveis (empresas, famílias e sector público). Mas de um modo geral, o mundo inteiro está numa armadilha de endividamento e Portugal não escapa à tendência. A armadilha levará a que os bancos centrais tenham dificuldade em normalizar o nível das taxas de juro. Mas isso também manterá a toada inflacionista que hoje se sente. Os preços dos consumos intermédios das empresas têm aumentado consideravelmente nos últimos meses. O aumento dos preços cobrados aos consumidores finais é assim inevitável, salvo ganhos consideráveis de produtividade, sob o risco de as empresas sacrificarem a sua margem bruta e sustentabilidade financeira.

Os desequilíbrios macroeconómicos identificados pela CE não são uma especial novidade. O drama é esse. Estamos em divergência económica face à Europa há décadas. É certo que há alguns ares de modernidade, concentrados nas áreas urbanas, e alguns sinais de prosperidade, concentrados no mercado imobiliário. Mas o copo continua meio vazio.

O país precisa de arrojo empresarial, e de um sector público que não complique. É ver o que funciona lá fora e fazer em Portugal. No caso da administração pública, as avenidas de reforma são directamente replicáveis. Quanto à modernização do tecido empresarial, trata-se de um desafio que cabe a cada empresa e que é imprevisível. Se fosse fácil seriam muitas mais as empresas de sucesso. E num país que tende a esperar demasiado do (e pelo) Estado, o desafio é ainda maior.

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